Arquivo mensal: agosto 2009

Lula e a “Voz do Brasil 2.0”

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Para nossa nobre imprensa, este homem não tem direito de surfar na blogoesfera

Para parte da nossa nobre imprensa, este homem não tem direito de surfar na blogoesfera

A coisa funciona assim: Se Obama faz, é sinal de que o democrata é um homem moderno e atento ao maravilhoso mundo da tecnologia. Obama mostra que é um progressista ao abrir um estreito canal de comunicação com a população por meio da internet. Mas se é o Lula quem faz… Bem, a coisa muda um pouco de figura. O presidente brasileiro estreou hoje um blog na internet e também colocou um vídeo no YouTube, onde fala rapidamente da proposta do blog (www.blog.planalto.gov.br).

Pois bem. Não se passaram nem 24 horas da estreia do blog (que, ao que parece, caiu pela quantidade de acessos) para nossa democrática imprensa nos abrir os olhos. Ouvi a CBN por apenas cinco minutos. Mas foi o suficiente. Trataram logo de desmascarar o maquiavélico plano conduzido pela assessoria de imprensa do Planalto, capitaneada por Franklin Martins. O que nos Estados Unidos é um canal de comunicação fundamental entre a Casa Branca e o povo americano virou, em nosso encantando país, a “Voz do Brasil 2.0”, um atalho para a propaganda oficial, uma via não de comunicação, mas um instrumento para servir ao “aparelhamento do Estado”… Há um cheiro de desespero dos Mesquita, dos Marinho e dos Frias no ar? Fico me perguntando onde isso vai parar. Depois meus amigos dizem que eu tenho delírio de perseguição, que sou paranóico…

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Britpop: o último fenômeno de massas no Reino Unido

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E todos beberam desta garrafa...

A festa nunca termina. E todos beberam desta garrafa...

por Fernando B. Cruz


Damon Albarn, do Blur (e também cérebro por trás dos Gorillaz e do The Good, The Bad and The Queen), é, para muitos, um desgraçado arrogante. É dele a frase, dita em meados dos anos 90: “se ser punk significava se livrar dos hippies, então estou me livrando do grunge”. Mas é como dizia Philippe Seabra: “arrogância é bom, desde que você tenha talento para bancá-la”. Caso de Albarn. Entre 1993 e 1994, Damon ligou as engrenagens que permitiram a entrada em cena de bandas que iriam renovar a estética combalida da música britânica. E isso só se faz com talento. Surgia o Britpop, expressão cunhada pela imprensa britânica e que passou a ser repetida exaustivamente pelos tablóides da ilha e mundo afora.

Pois bem. Rebobinemos a fita. No início dos anos 90, após o desaparecimento dos Stone Roses e das loucuras dos Happy Mondays, a cena inglesa parecia perdida no meio da avalanche grunge de Nirvana e Pearl Jam, que dominava os quatro cantos do planeta, inclusive o Brasil. As bandas da época (Ride, My Bloody Valentine) olhavam para os sapatos e produziam excelente música de guitarras, mas, para o bem ou mal, não estabeleciam conexão com as massas. E ninguém tomava conhecimento do novo som que saía das salas de ensaio e pubs espalhados pela Grã-Bretanha.

O documentário Seven Ages of Rock ilustra bem a situação do rock britânico na época. Por volta de 1993, o Brit Wards, que premiava os destaques do cenário musical britânico, celebrava nomes como os de Annie Lennox, Rod Stewart e Phil Collins, não importando muito o fato de que alguns deles não lançavam nada de novo há anos. O espaço para novas bandas era nenhum. Por isso, o semanário New Musical Express, numa decisão arriscada (e que se mostraria acertada) lançou uma campanha para que o Suede, uma banda nova e obscura, se apresentasse no palco do Brits. Reza a lenda que o lobby, apoiado maciçamente pelos jovens leitores do semanário, fez tal efeito que, no fim, a organização do evento implorou pela presença da banda. A provocativa apresentação do grupo, que tocou a sinistra e explosiva Animal Nitrate, foi considerada por muitos o marco daquilo que estava por vir: uma leva de excitantes bandas novas empunhando guitarras estridentes e cantando sobre jovens e para jovens.

A panela de pressão underground estava fora de controle. Da noite para o dia, bandas desconhecidas tomaram de assalto as paradas de sucesso, disparando um processo que culminaria com a música indie derrubando medalhões da música das paradas e tomando as rédeas do mainstream, semelhante ao dos EUA anos antes.  O sucesso abriu as portas para Suede e Blur, que vieram acompanhados de Oasis, Pulp, Supergrass, Ash e outros grupos. Live Forever, Girls and Boys e Alright, para ficar apenas em exemplos batidos, invadiram as salas de estar.  Na sequência, veio a chamada segunda divisão, com Kula Shaker, Ocean Colour Scene, Menswear, Cast e muitos outros.

Mas nem tudo era festa. A despeito da qualidade inegável das primeiras bandas e de o “movimento” ser responsável pelo volta do orgulho de um “jeito de ser britânico” da juventude, o preço logo seria cobrado. Sem aviso prévio, como que para comprovar o que Damon havia dito, os americanos e seu grunge viraram inimigos mortais na ilha britânica. Todos estavam tomados pela nova febre que tornava, do nada, um grupelho fajuto como Menswear apto a vender mais do que o Nirvana ou se achar melhor do que qualquer grupo americano de qualidade. A campanha nacional orquestrada em parte pela imprensa para celebrar o orgulho britânico estava indo longe demais. A necessidade de rotular e colocar todos no mesmo saco como um produto de supermercado não tardaria a colocar tudo por água abaixo.


Uma das melhores bandas do período, Supergrass Supergrass: consistência e qualidade até os dias de hoje

Além de grupos farsescos conquistarem sua fatia no mercado, arrotando uma qualidade artística que não tinham, políticos também associavam sua imagem ao oba-oba do Cool Britannia, que de cool já não tinha muito. Não à toa, a ascensão de Tony Blair ao cargo de primeiro-ministro, em 1997, foi politicamente articulada com a disseminação da ideia de que o espírito inovador e jovem do britpop também estava presente nas ideias e no modelo de governo dos trabalhistas. Política e rock’n’roll? Algo parecia fora do eixo. E estava. O champanhe não tardaria a azedar. (O livro The Last Party, de John Harris, analisa com precisão o período ao contextualizar a ascensão dos trabalhistas e o super estrelato de Noel Gallagher, Damon Albarn, Brett Anderson e cia).



Em 1997, depois de alguns álbuns considerados clássicos e outros nem tanto, a festa chegava ao fim. O ano serviu de plataforma para o lançamento de discos sombrios e destoantes como Ok Computer, do Radiohead, Ladies and Gentlemen, We Are Floating in Space, do Spiritualized e Urban Hymns, do The Verve. Isso, somado ao fiasco de Be Here Now, o terceiro do Oasis, deixava um gosto de ressaca no ar. A imprensa ainda esperava por um sinal para entender que o doente, o britpop, na verdade já era um moribundo com o pé na cova. Mas a bomba já tinha sido detonada no começo do ano, justamente por Damon Albarn e sua patota como álbum Blur. A capa amarela trazia a foto do que parecia ser um paciente em cima de uma maca num hospital.

Ao flertar com o rock americano de Pavement e asseclas, o grupo deu o adeus definitivo ao britpop e à disputa pela supremacia das paradas, travada com o Oasis. Ironicamente, um dos singles do disco, Song 2 deu ao grupo um inédito primeiro lugar nas paradas americanas, sucesso que obviamente reverberou no Brasil, fiel seguidor do mercado da terra do tio Sam.

A imprensa percebeu a fria em que se metera e tratou de tirar o time de campo. O termo britpop passou a ser motivo de piada nos mesmos tablóides que um ou dois anos antes pautavam repórteres para saber até que horas Damon e Justine Frischmann (do Elastica) haviam enchido a cara em Camden Town. Com a mesma voracidade com que cunhou o termo e encheu os ouvidos de todos com o assunto, a mídia cuspiu os restos mortais da “cena” no prato de leitores pelos quatro cantos, incluídos aí os colunistas musicais brasileiros copiadores da “bíblia” New Musical Express. Ou seja, aí ficou fácil esquecer o que havia de qualidade no tal “movimento” e falar mal dos grupos  e da cena se tornou o esporte da hora. Depois que todo mundo deu sua cheirada numa carreira de Alright e mamou nas tetas de Wonderwall, os moderninhos do post rock foram à forra.

E qual seria então a herança de uma cena que aglutinou talento, arrogância, boas melodias, cheiradores de pó profissionais e política? Bem, há um legado no mínimo interessante. Para começar, a década de 90 diferenciava-se de maneira brutal das cenas dos anos 70 e 80, que quase sempre negavam musicalmente a década anterior. Os grupos mais legais dos anos 90 conseguiram juntar estilos incompatíveis e, portanto, inaceitáveis, por exemplo, para os padrões da cena 80, como o punk e o rock sessentista, o glam e o pós punk, o folk e o dance. A improvável união de punk com anos 60, particularmente, foi o cerne de grandes composições escritas por pelo menos três grupos durante o período embrionário do britpop: Oasis, Blur e Supergrass.

O lirismo urbano do Blur invocava o estilo de crônica pop eternizado por Ray Davies (com suas observações sarcásticas sobre a pitoresca sociedade britânica) e aliava sonoridades sessentistas à crueza pós-punk (Pop Scene, Bank Holiday, Parklife). O talento dos rapazes abria espaço também para belas e assobiáveis melodias (End of a Century, To The End, This is a Low). Isso sem falar em gemas posteriores como Beetlebum e Look Inside America, canções com força suficiente para garantir ao Blur um lugar no panteão de ouro do rock inglês.

Capa de um dos livros de John Harris. O orgulho nacional virou rapidamente motivo de piada

Capa de um dos livros de John Harris sobre o assunto. O orgulho nacional virou rapidamente motivo de piada

Já o Oasis conseguia, em apenas três minutos, associar a arrogância e a sujeira estridente dos Sex Pistols aos vocais arrastados de John Lennon na fase psicodélica dos Beatles (Supersonic, Rock’n’Roll Star, Cigarettes and Alcohol). Noel Gallagher também parecia lapidar uma capacidade ímpar para compor hinos instantâneos, canções beatlescas que jogariam o Oasis nas cercanias do rock de arena (Live Forever, Don’t Look Back in Anger, Champagne Supernova levaram o Oasis a bater recordes de público em estádios). Paul Weller, o padrinho mod da nova cena e ele mesmo protagonista, foi o primeiro a definir Don’t Look Back in Anger como um “clássico absoluto”, antes mesmo de sair o single.


O mesmo Weller, que em 1995 lançou o excelente Stanley Road (tema de futuro post neste espaço) também aprovou o som feito por um trio de Oxford, Supergrass. Segundo o mod father, o grupo tinha bom gosto para compor e os integrantes sabiam tocar seus instrumentos, o que era um luxo naqueles tempos de boy bands. O Supergrass tinha a energia juvenil de um Buzzcooks, riffs de guitarra stonianos e um pé no no glam de Marc Bolan e seu T.Rex (Caught By The Fuzz, Lenny, Mansize Rooster). Não demorou para ganharem as paradas mundiais com a eletrizante Alright.


Glam esse que também serviria de inspiração para a sonoridade do Suede. As letras de Brett Anderson enchiam de brilho e melancolia os decadentes subúrbios londrinos, embaladas nos riffs de guitarra de Bernard Buttler (So Young, Animal Nitrate, Metal Mickey).

Tudo isso, no entanto, não serviria para explicar por si só o fenômeno de massas que foi o Britpop. Sob o aspecto musical, é sempre curioso observar como esses grupos absorveram e se apropriaram tão bem de estilos tão díspares. Do ponto de vista social, entretanto, a chave está no fato de que estes artistas cantaram sua tribo, como pregava o escritor russo Maxim Gorky. Ou seja, captaram os anseios e a urgência dos jovens da época e os transformaram, com uma qualidade autoral às vezes beirando o excepcional, na trilha sonora de toda uma nação. E isso não é pouco.

13 músicas

1-  Blur – Blue Jeans

2-  Oasis – Masterplan

3-  Suede – My Dark Star

4-  Supergrass – Mansize Rooster

5-  Ocean Colour Scene – Riverboat Song

6-  Ash – A Life Less Ordinary

7-  Pulp – Disco 2000

8-  The Verve – History

9-  Elastica – Vaseline

10- Cornershop – People Power

11- Paul Weller _ Changing Man

12- The Charlatans – Just When Your Thinking Things Over

13- Kula Shaker – Hey Dude