Arquivo da categoria: política

Reminiscências de Vitinho das Neves Brasil: a bola da vez!

Padrão
Imagem

Brasil: ponta de lança no setor de serviços?

Otimistas de plantão não se cansam da cantilena de que o Brasil é a bola da vez. Diante do esfacelamento do cenário econômico mundial, desde a crise que jogou na lama a confiança cega na mão invisível do Dr. Smith, o País fortaleceu suas reservas internacionais e aprimorou os fundamentos da economia. Ao mesmo tempo, continuou gerando empregos. “O Brasil está bombando” tornou-se um mantra mais poderoso que o refrão de My Sweet Lord. Há quem discorde. Segundo a turma do “deixa dilson, Bresser”, as taxas de crescimento dos últimos dois anos flagraram o gigante desfilando com algo “meia bomba” nas mãos.

Vital das Neves não joga nesse time. É desses nós cegos que amam entoar “O que é, O que é”, de Gonzaguinha, nas mesas de bar, e se emocionam assistindo aos jogos do Boca Junior em nome da Cooperação Sul-Sul. Ávido por um bom embate político, Vitinho sonhava com a hora de voltar à Brasília e esfregar na cara de seus amigos de infância – hoje todos demistas – um fato: o Brasil não só é a bola da vez, como também a ponta de lança do setor de serviços.

No início de abril, Vitinho finalmente desembarcou na capital, onde cedeu aos apelos de sua disposição insaciável para ingerir generosas porções de sebo de carne. Ele aprendera a lição com o russo Tulik: se não entupir, imediatamente, ao menos duas artérias e não gerar mornas flatulências, não se pode afirmar com segurança que a iguaria – no caso, sebo de paca – é saborosa.

Das Neves decidiu começar pelo Cachorro que Rosna – templo da alta gastronomia brasiliense – e saborear um espetinho de tatu petrificado. Convencido pelo irmão, o ortodoxo Flavinho Ferreira, acabou numa das novas hamburguerias da cidade, a Miolo Mole, no Pier 21.

Alertado por Ferreira, Vitinho não deu muita bola aos boatos sobre a qualidade do atendimento nos bares e restaurantes de Brasília.

“As coisas mudaram muito, Vitinho. Aqui, empresários inauguram restaurantes com a mesma devoção com que atiram pela latrina a já pífia qualidade do serviço.”

“Falou bonito! Aprendeste a ler, Flavinho! Fico feliz. Mas isso é balela, rapaz. Fui criado nessa cidade. Aqui, sempre sou tratado como se estivesse em casa.”

Na verdade, Vitinho confiava nos dividendos de seu trabalho sobre o pensador Mussum, cuja abrangência sócio-política rendeu elogios de discípulos do saudoso Celso Furtado, como Maria da Conceição Tavares. Isso atraiu alguma fama e certa inveja entre pelegos do sindicalismo local.

“Além disso”, prosseguiu, “o Brasil é referência no cenário internacional. Vamos mostrar como receber esses gringos na Copa de 2014!”.

Flavinho, que vinha desenvolvendo uma personalidade cicloide semelhante à do proprietário do maravilhoso Britan Bar, o pé sujo Bar do Zé, no Rio de Janeiro (tema de futuro texto neste espaço), não titubeou:

“Isso não tem nada a ver com alfabetização, criatura abjeta. Aponto um fato. E não me recordo de nossa mãe escarrando no nosso misto quente. Quanto ao Brasil, você está febril. Até meu cachorro discorda da condução da política econômica. O Brasil está travado! O ano que vem será um desastre!”, berrou Flavinho, a plenos pulmões, atraindo olhares na porta da lanchonete.

lendeasouza2

Em Brasília, a gentileza no atendimento vem em primeiro lugar

Das Neves sabia que a paciência de Ferreira era mais frágil que o novo técnico do Flamengo. Percebeu também que a exposição, pelo irmão, de suas tendências desenvolvimentistas, o deixaria vulnerável a ataques de radicais neoliberais. Eles estavam em pleno Pier 21, um território hostil para Vitinho. Por isso, fingiu que não entendeu e deu de ombros, rezando para que Flavinho não irrompesse em um ataque de fúria.

Na hamburgueria, o garçom chegou e surpreendeu-se com a rapidez de Flavinho Ferreira ao fazer o pedido, com orientações específicas:

“Dois hambúrgueres de tripa de mico, por favor. No meu caso, apenas gostaria de pedir que a maionese não venha no sanduíche. Acrescente um ovo encharcado de óleo, por obséquio, e traga dois palitos para que eu possa higienizar meus dentes com dignidade.”

Passados 40 minutos, o garçom chegou com os sanduíches. Em um terceiro prato, havia um ovo mergulhado em uma poça de gordura.

“O que é isso?”, perguntou um impaciente Flavinho.

“Me parece um ovo, encharcado em banha de porco, como o senhor pediu.”

“Mas não pedi o ovo fora do sanduíche.”

“Pediu sim, senhor. Está aqui, anotado…”

Flavinho acionou o triturador de ouvidos, ou seja, a própria matraca:

“Meu jovem incauto, eu pedi que a maionese viesse à parte, o que não aconteceu. Aí, me deparo com esse ovo solitário. Será que deixaram o ovo solto na esperança de que irá metamorfosear-se numa galinha para ajudar no atendimento?”

“Olha, seu malcriado…”, balbuciou o garçom, cabisbaixo, a voz trêmula.

Sem aviso prévio, o surto psicótico deu sinais de arrefecimento. Flavinho se acalmou:

“Por favor, o senhor poderia colocar de volta esse ovo no sanduíche e trazer a maionese fora dele?”

“O senhor quer uma porção de maionese?”

“Por obséquio.”

Vitinho nem piscava. Alheio à confusão do irmão, abocanhava com prazer o sanduíche, os olhos vidrados, enquanto pedaços de tripa de mico escorriam de seus lábios melados de gordura.

O prato de Flávinho enfim chegou. Ele comeu o sanduíche de modo pausado, observando-o com seriedade. Era de uma metodologia acadêmica. Outros 40 minutos depois, o garçom chegou com a conta. Flavinho arregalou os olhos:

“Dez reais por uma porção de maionese? Que é parte do sanduíche?”

“Lamento, mas o senhor afirmou que gostaria de uma porção de maionese. Perguntei para ter certeza.”

“Sim! A que eu tinha direito! Só que fora do sanduíche! Chame o gerente, por favor.”

O gerente se aproximou.

“Que negócio é esse de cobrar por essa maionese verde catarro que vem no sanduíche?”, inquiriu Flavinho.

“Senhor, abaixe o tom de voz. Esse é um restaurante de família. O senhor pediu ou não pediu a maionese?”

Flavinho repetiu a historieta do ovo perdido no prato e da maionese no pote.

“Lamento, senhor. Mas a maionese será cobrada e os senhores irão pagar por ela. Se recusarem, serei obrigado a chamar o Souza.”

“Mas quem é esse Souza, pelo amor de Santo Cristo???”

“Chega de conversa. Os senhores já causaram muito transtorno. Nosso garçom foi visto chorando na cozinha após sua interferência.”

“Interferência?? Isso é jeito de você falar?”

“Interferência em nosso ambiente de paz e prosperidade. E agora os senhores irão pagar caro. Souza, venha cá. Esses delinquentes abusaram da nossa boa vontade. Certifique-se do pagamento da conta e coloque esses vigaristas na rua.”

Vitinho revirou os olhos, incrédulo. Paz e prosperidade??!? Seria uma pegadinha?  Pensou na possibilidade de aquilo ser um ataque sob encomenda, uma retaliação por sua vibrante luta política por mais lustro na careca de José Serra. Foi interrompido quando o corpulento chefe de cozinha o agarrou pela gola.

– Os senhores pediram ou não pediram maionese?

Imagem

Souza, Vitinho das Neves e a hora da verdade: “o Sr.pediu ou não pediu maionese?”

Antes que pudesse responder, Vitinho já estava com a cara no chão, o nariz roçando as escavadeiras que partiam dos dedos do pé direito de Souza, enfiado em um velho chinelo de couro.

Com o pé sobre a cabeça de Vitinho, Souza não teve dificuldade em sacudir o diminuto Flavinho e abrir sua carteira. Depois de tirar R$ 80,00 de dentro, deu-lhe um soco na boca do estômago e arremessou os dois para fora do estabelecimento sem muita dificuldade.

“Pagamos 80 pratas por uma conta de 40…”, balbuciou Flavinho, ajoelhado no chão, as mãos sobre a barriga.

“O extra fica por conta dos danos morais”, informou Souza. “Os tempos são outros, a Copa do Mundo está aí e não podemos mais nos dar ao luxo de atender clientes que não sabem como tratar os proprietários. O Brasil é a bola da vez no novo tabuleiro da geopolítica mundial.”

Ainda esbaforido em função do cruzado desferido por Souza, Flavinho virou-se para Vitinho das Neves, que estava deitado no chão, ajeitando a rala cabeleira:

“E agora, você ainda acha que vamos arrebentar na Copa do ano que vem?”

Vitinho sentou na calçada, sacudiu a poeira da roupa e sorriu:

“Claro, meu jovem. E é bom que os hooligans ingleses se comportem ou terão de se ver com o Souza.”

Anúncios

Juventude transviada: reminiscências de Vitinho das Neves – parte II. O rock redime!

Padrão
Vitinho das Neves: esbórnia nos tempos de Goiânia?

Vitinho das Neves: esbórnia nos tempos de Goiânia?

O dia era sexta-feira e não havia dúvida: Vitinho das Neves estava seco para tomar uma gelada. O moleque “gostoso”, como o chamava a querida Vera Lu, além de “saber receber” – seja lá o que isso significasse – era bom de copo. Por isso tinha uma sede constante. De modo que fomos bater no Rock’n’Roll, o pé sujo da Asa Norte cujos jovens locais exalavam pura poesia pelos poros. Invariavelmente, presenteavam  os frequentadores com perfomances de air guitar e generosas golfadas de vômito no banheiro. Aquilo era para privilegiados. Mas desta vez, Vitinho se recusou a falar de política e tocar no nome de Mussum ou dos “crápulas do PSDB”. Queria sentir apenas as boas vibrações do rock.


“I wanna rock’n’roll all niiiight”, urrou, ao chegar. “Como nos velhos tempos! A gente era muito louco, não era? Sempre aprontávamos todas. Lembra quando fizemos aquele show em Goiânia? Aquilo faria o pulha do Keith Richards tremer naquelas calças psicodélicas de babaca”, disse, depois de virar um copo de Skol. “Ou o Arnaldo Baptista ficar são. A gente era pura dinamite!” Vitinho havia entrado na Missão Pus depois de ser expulso da consagrada Baita Clitóride anos antes, sob sérias acusações de ter molestado uma barata em um quarto de hotel de Abadiânia. Apesar do revés para a imagem da banda e de Vitinho e do início de um processo legal (isso resultaria na fuga do músico do país, a exemplo do cineasta Roman Polanski. Poucos sabem é que esse foi o verdadeiro motivo de sua ida para a Índia), o episódio nunca foi inteiramente comprovado.

“É, Vitinho, era mesmo”, concordei, meio incerto da veracidade daquelas declarações. Afinal, estivéramos em Goiânia uma vez, para um único show e num moquifo cuja platéia de três pessoas exigia que tocássemos músicas dos Ramones, banda da qual Vitinho não era exatamente fã. Pelas minhas recordações, a cena mais “louca” (para não dizer surreal), de que podia me lembrar foi quando saímos, eu, Vitinho e os dois produtores do show para comprar o jantar do grupo. Eles chegaram em suas motos. Vitinho mostrou-se meio constrangido e hesitou em subir na garupa de uma delas. Afinal, nunca havia andado de moto. Mas logo foi interrompido em sua meditação: “Está esperando o que, garoto?”, perguntou o produtor (e saudoso) Marcão Adrenalina, enquanto acelerava sua máquina. Sem escolha, Vitinho decidiu acabar com aquele tormento.

Foi quando subiu na garupa e agarrou Marcão Adrenalina por trás. Com suas longas madeixas ao vento e um farto bigode bem penteado, Adrenalina, que tinha cara (só a cara) de poucos amigos, não titubeou e virou-se bruscamente: “Que negócio é esse rapaz?”, a ponta do longo bigode encostando nas narinas de Vitinho. “O que?”, retrucou ele, amedrontado. “Essa mão boba em cima de mim!”  “Mas onde vou me segurar?”, balbuciou o jovem guitarrista. “Tem uma grade aí atrás, moleque. Tá me estranhando por causa do cabelo comprido? Comigo não tem dessa veadagem não”.

Uma bomba chamada Ronaldo Lagartixa

De volta ao presente, Vitinho continuava a relembrar as histórias de groupies e outras presepadas imaginárias de que tanto se orgulhava. Falava sem parar e de modo articulado, o que até me fez cogitar se aquilo tudo não teria ocorrido de fato. Aí o louco da história seria eu. Por via das dúvidas, achei melhor não relembrá-lo do episódio da moto. Afinal, como diria meu amigo e colega de banda, Pluto, as lembranças poderiam ser apenas uma “reconstrução histórica” da minha cabeça oca. Embora eu desconfiasse de que esse não era o caso. Fui subitamente puxado dos domínios daquela reminiscência bizarra e bolorenta, pois, à frente do velho televisor, estava uma das figuras mais incompreendidas e, talvez, por isso mesmo, mais temidas do rock brasiliense: Ronaldo Lagartixa.

Lagartixa era vocalista do grupo Finca a Pica e era considerado uma figura no mínimo controversa: durante os shows do grupo, seus discursos, recheados de referências bíblicas à polarização ideológica entre o lustro da careca de Zé Serra e a peruca de Dilma Rousseff, geravam reações adversas, levando uma parte da platéia a tratá-lo quase como um messias (algo que não se via desde Renato Russo). E a outra… Bem, voltemos à narração desta excitante história. Lagartixa posicionou-se em pé, bebericando uma Caracu ao mesmo tempo em que parecia estudar os trejeitos do guitarrista Brian May, do Queen, no clipe da música Save Me. “Bom! O som é meio abaitolado, mas esse sabe tocar guitarra!”, disparou. “Concordam?”, encarou o pessoal nas mesas com os olhos esbugalhados. A maioria apenas assentiu com a cabeça. Ninguém se atreveu a falar.

Ronaldo Lagartixa: ameaça à paz ou telento diplomático à beira da extinção?

Ronaldo Lagartixa: ameaça à paz ou telento diplomático à beira da extinção?

Outros clipes foram se alternando na “programação” e, com eles, ia mudando o humor de Lagartixa. Às vezes emocionava-se com uma banda pela qual nutria simpatia. Mas também ocorria de ficar indignado com a postura, por exemplo, de um grupo como o Poison. Depois de uma sucessão de clipes de bandas farofa, cuja música ganhava o crescente desprezo de Lagartixa, a coisa mudou de figura: veio The Number of the Beast, do Iron Maiden. E Lagartixa perdeu o controle: “AÍ, MOLECADA DE RAIMUNDOS!!! VÃO APRENDER A TOCAR!!!!” E passou a ‘tocar’ nota por nota o solo da música, enquanto encarava os presentes, inebriado em êxtase.

Mas foi na música Smoke on the Water, do Deep Purple, que o caldo entornou: “Blackmore! Esse fazia minha alma pegar fogo!” Vitinho, que fitava Lagartixa com um misto de medo e inveja, talvez pela postura despojada e, sobretudo, verdadeira, do cantor, soltou, quase involuntariamente: “ainda faz, não? Ele não morreu…” Lagartixa pareceu ter sido atingido por um raio. “QUEM DISSE ISSO?”

O homem veio andando em nossa direção, ainda incerto de qual mesa havia partido tamanho atrevimento. No meio do caminho, ouviu uma conversa numa mesa. Eram os cineastas Marcelo Furão e Rene Sampaio. Furão referia-se alegremente ao prêmio de Sampaio pelo curta Sinistro, no Festival de Brasília. Mas sinistro mesmo era o olhar de Lagartixa, que tratou de cortar o papo: “Não quero saber quem é cineasta ou quem levou porra de prêmio. Quero saber quem vai me encarar!!!”

Vitinho decidiu que deveria intervir e acabar com aquela insanidade. “Você quer levantar voo, Lagartixa?”, perguntou ele, tirando coragem não se sabe de onde. “Que conversa é essa, imbecil desmiolado?”, devolveu Lagartixa. Se aproximou e agarrou o guitarrista pela gola, praticamente suspendendo-o do chão.  “Quem vai voar é você, inseto insolente!”

Antes que eu ou qualquer um naquele bar pudesse fazer alguma coisa para evitar que Vitinho iniciasse a formidável experiência de se transformar numa bola de basquete e quicasse pelas mesas, ele gemeu, olhando para o chão: “cacildis…” A expressão endiabrada de Lagartixa mudou:  “o que você disse?” Seus olhos subitamente umedeceram e as mãos afrouxaram a gola de Vitinho. “Onde você ouviu isso?”, inquiriu Lagartixa. “Onde ouvi isso? Eu escrevi sobre isso”, grunhiu Vitinho, sentindo as forças lhe retornando. Seu interlocutor não podia acreditar: “Você é Vital das Neves, autor de “Cacildis”, “Crioulo é a Tua Véia” e “Eu vou me Pirulitar”? “Precisamente”, respondeu Vitinho, o peito agora estufado e os ombros inchando em direção ao teto.

Vitinho foi abraçado por Lagartixa, que agora chorava copiosamente. “Esses formidáveis estudos mudaram minha vida!! Eles são a base de meus discursos nos shows do Finca a Pica! É uma honra conhecê-lo!”, berrou. “Não se apoquente, garoto”, disse Vitinho, esquecendo-se de que era pelo menos 10 anos mais novo do que Lagartixa e de que quase havia levado umas bolachas dele. “Esta é apenas minha parca contribuição para tirar o país deste lastimável estado de subdesenvolvimento”. E emendou um de seus eloquentes discursos pela libertação de Nelson Mandela, que consistia em: “MADIBA!!! MADIBA!!! MADIBA!!!!”. E assim bradou, de cima de uma mesa, para delírio dos locais, que agora o reverenciavam como a um rock star. O único debilóide no recinto que achava que Madiba estava solto há mais de uma década era eu.

Vitinho, após momento de catarse no bar Rock'n'Roll

Vitinho, após momento de catarse no bar Rock'n'Roll

Minhas lucubrações não mais importavam, elas é que não faziam sentido. Pois a lição estava lá nas nossas fuças para quem quisesse ver: Não se pode fugir de si mesmo. Vitinho agora sabia disso. De minha parte, não deixei de observar a fina ironia por trás daquilo. Por meio de seus estudos, Vitinho, um roqueiro de araque e prostrado, influenciara um dos maiores nomes da história da música de Brasília sem se dar conta. E agora encontrava a glória ao unir dois mundos distintos, política e rock’n’roll. O aprendiz era na verdade o mestre. Se estivessem vivos, Renato Russo e Marcão Adrenalina, ele próprio um devoto do modo rock’n’roll de se fazer política, estariam orgulhosos.


Quanto a Ronaldo Lagartixa, este subiu na mesa de Vitinho (que agitava os braços e batia cabeça para a plateia, agora ensandecida), enxugou as lágrimas e fulminou, os braços em volta de Vitinho: “Antes de mais nada, gostaria de agradecer a… TUDO!!!!! VIVA  MUSSUM!!!! VIVA SÉRGIO CABEÇA!!!!(*) VIVA O SENHOR!!!” Os aplausos e gritos da multidão, que, aquela altura, já ocupava a rua inteira, pareciam supersônicos. Já esta pobre testemunha ocular que vos escreve continuava a patinar na própria estupidez. Aquilo me fez lembrar do talentoso poeta Lonely Bob, irmão de Pluto, que um dia vaticinou, em mensagem aos ignorantes: “O caminho é longo”. Mais do que nunca, aquele, definitivamente, era o meu caso. Que a sapiência de Compadre Washington me ilumine.


Nota do moderador: O autor avisou que não se desculpará com os preguiçosos pelo texto longo. “Lições de vida como esta não podem ser resumidas”, me confidenciou.

* Gentilmente cedido pelo amigo Marcelo Araújo


Lula e a “Voz do Brasil 2.0”

Padrão

Para nossa nobre imprensa, este homem não tem direito de surfar na blogoesfera

Para parte da nossa nobre imprensa, este homem não tem direito de surfar na blogoesfera

A coisa funciona assim: Se Obama faz, é sinal de que o democrata é um homem moderno e atento ao maravilhoso mundo da tecnologia. Obama mostra que é um progressista ao abrir um estreito canal de comunicação com a população por meio da internet. Mas se é o Lula quem faz… Bem, a coisa muda um pouco de figura. O presidente brasileiro estreou hoje um blog na internet e também colocou um vídeo no YouTube, onde fala rapidamente da proposta do blog (www.blog.planalto.gov.br).

Pois bem. Não se passaram nem 24 horas da estreia do blog (que, ao que parece, caiu pela quantidade de acessos) para nossa democrática imprensa nos abrir os olhos. Ouvi a CBN por apenas cinco minutos. Mas foi o suficiente. Trataram logo de desmascarar o maquiavélico plano conduzido pela assessoria de imprensa do Planalto, capitaneada por Franklin Martins. O que nos Estados Unidos é um canal de comunicação fundamental entre a Casa Branca e o povo americano virou, em nosso encantando país, a “Voz do Brasil 2.0”, um atalho para a propaganda oficial, uma via não de comunicação, mas um instrumento para servir ao “aparelhamento do Estado”… Há um cheiro de desespero dos Mesquita, dos Marinho e dos Frias no ar? Fico me perguntando onde isso vai parar. Depois meus amigos dizem que eu tenho delírio de perseguição, que sou paranóico…

Juventude transviada: reminiscências de Vitinho das Neves – parte I

Padrão

Vitinho das Neves, um incansável ativista

Vitinho das Neves: mais do que um rostinho bonito, um incansável ativista

Há alguns anos, recebi o telefonema de um grande amigo, Vital das Neves, o velho boa praça e pau-de-cachaça Vitinho. Estava de férias em Brasília. Vitinho vinha se queixando de stress, sentia-se angustiado por não conseguir aglutinar, no conservatório onde era professor, na Índia, os alunos em torno do conteúdo de seu curso de História e Teoria do Mau Humor Francês. Parecia não haver interesse dos indianos pelo assunto e ele não conseguia compreender porque aqueles seres espiritualmente refinados preferiam discutir em classe o peso cultural da traseira de Scarlett Johansson a estudar o valor filosófico de um francês soltando os cachorros em algum desavisado na fila do pão. Além disso, desenvolveram certa resistência aos assuntos da política, outra paixão de Vitinho. “Esses indianos…”, pensava. No fundo, ele temia uma desistência em massa.

Também sentia falta da época divertida em que atirava suas bolinhas de gude nos transeuntes de Nova Délhi e de seus viscerais discursos pela libertação de Nelson Mandela. Vitinho era um orador apaixonado. Seu último grande discurso, no tocante ao líder sul-africano, data de 2005. “Soltem o homem! E vamos logo com isso!!!”, bradava, num articulado e destemido tom revolucionário, para quem estivesse passando.

Contudo, depois desse período seminal, o máximo que conseguiu balbuciar em praça pública foram algumas palavras sobre o insuperável legado de Mussum na política brasileira, apesar de sua avaliação de que sempre haveria resistência a um pensamento tão progressista. Por isso, foi um choque para Vitinho quando descobriu que parlamentares tucanos vinham lendo seus ensaios sobre o rei do mé e preparavam, em segredo, uma investida para a campanha presidencial de 2006, inspirada neles.


“Crioulo é a tua véia” e “Eu vou me pirulitar”, dois estudos redigidos por Vitinho sobre as ideias de Mussum, foram, na verdade, a base do programa de governo do PSDB na campanha daquele ano. Não logrou êxito mas, aparentemente, também não foi descartado. Rumores dão conta de que o governador José Serra pretende fundir o modelo de desenvolvimento contido em “Eu vou me pirulitar” com o mais recente, “Cacildis”, para criar um programa inteiramente novo e virar o jogo em 2010, a despeito da torcida contra de lulistas invejosos.

Vitinho e a política. Como Celso Furtado, este homem enxergava e compreendia o Brasil profundo. Suas ideias são viáveis? Vitinho acredita que sim. Graças a seus estudos sobre o pensador Mussum, um modelo de desenvolvimento socialmente avançado está à disposição da tucanada

Como Celso Furtado, este homem enxergava o Brasil profundo. Suas ideias são viáveis? Vitinho acredita que sim. Graças a seus estudos sobre o pensador Mussum, um modelo de desenvolvimento socialmente avançado foi apropriado pelo tucanato

Apesar de toda a luta e ativismo da política, aliados à vida acadêmica, Vitinho estava desencantado. Portanto, o que importava naquele momento era estar com a família na velha Brasólia, como era chamada a capital por nosso amigo carioca, o biruta profissional Amaretto. Assim, depois de sua ligação, o terreno estava pronto para mais uma noite regada a cerveja, amendoins, flatulências com aroma de ovo e boas, boas risadas. Iria recarregar suas energias. Marcamos no bar Rock’n’Roll, um pé-sujo que agregava a nata dos maiores desocupados de Brasília (hoje, tristemente, desativado). Percebi, no entanto, que as flatulências sairiam mais facilmente do que as risadas.

“E aí, Vitinho, quais as novas?”, perguntei. “Soube que você anda meio desanimado na Índia. Que é isso, rapaz? Levante essa bola!” Ele riu, com a bola, de fato, meio murcha. Aí falou um pouco de sua vida por lá e contou uma ou outra história sobre as novas pesquisas no campo da alta costura. Ele não parava. “A melhor maneira de consertar o mundo é manualmente”, disse, olhando fixamente para mim.

Antes que eu pudesse emitir algum som, eis que surge, da carcomida tela de um televisor, pendurado na parede do bar e amarrado às entranhas de um pré-histórico vídeo cassete, os acordes de Crazy Little Thing Called Love, do Queen. Vitinho deixou escapar um sorriso no canto da boca, enquanto assistia aquelas desgastadas imagens que, de tão borradas, me davam a convicção de que quem segurava o microfone era Saddam Hussein. “Que foi, Vitinho?” Ele agora tinha um olhar enigmático. “Grande música!” “Sim, é mesmo”, concordei, querendo saber o que estava por trás daquilo.

“Isso não está passando aqui à toa”, disse, arregalando os olhos. “Você sabia que Freddie Mercury era indiano?”, perguntou, agarrando meus pulsos com força.  “Calma, rapaz. Não, não sabia desse fato impressionante”, respondi. “Quando Bob Geldof chamou o Queen para tocar no Live Aid (famoso festival que arrecadou milhões de jujubas e caixas de valium para Brian Wilson, em 1985), Freddie resistiu muito à ideia de ser associado à política (postura comum até hoje no meio musical, especialmente no atual rock de Brasília)”.


“Não sabia. Mas e daí?”, perguntei. “Como assim e daí, molóide? Freddie carregava a apatia no sangue. Pense no Maharishi. O mais próximo que chegou do ativismo político foi quando tentou, sem êxito, é verdade, faturar a irmã de Mia Farrow, Prudence. Ou Ravi Shankar: era dele aquela cítara enfiada goela abaixo de Paul McCartney pelo chapa George durante as sessões de Let It Be. Mas tirando isso…”

“Mas e o Gandhi?”, interrompi. “Ah, esse era um animal”, respondeu Vitinho. “O que??? O que é isso, Vitinho?” “Um animal político, você não me deixou completar. E veja onde aquele pacifismo e a Satyagraha (a busca pela verdade), o levaram… Tomou uma azeitona na orelha, e à queima roupa (Nota do moderador: cuidado ao pronunciar ou escrever essa palavra – mesmo com ‘y’ – na internet: você pode ser a próxima vítima do Estado policial. O toque é de Gilmar Mendes, injustiçado e beiçola quando provocado).


Em família. Da esquerda para a direita: dona Heloá, seu Di Paula, Vitinho das Neves e a irmã Lavínia. Embaixo, o irmão Flavinho Ferreira ensaia uma coreografia (no centro), ladeado pelo autor e outra coleguinha de hospício

Em família. Da esquerda para a direita: dona Eloá, seu Di Paula, Vitinho das Neves e a irmã Lavínia. Embaixo, o irmão Flavinho Ferreira ensaia uma coreografia (no centro), ladeado pelo autor e outra coleguinha de hospício

Não respondi. As coisas pareciam não fazer sentido, mas preferi não tecer comentários. Ponderei se Vitinho não estaria perto de um colapso nervoso, uma vez que ainda estava no primeiro copo de cerveja e não dizia coisa com coisa. Perto dele, naquele instante, eu e o irmão, Flavinho Ferreira, éramos o próprio espírito do bom senso, a balança da justiça, a expressão viva do equilíbrio, para usar as palavras de sua bela irmã, Lavínia.

Sem entender patavinas do que estava acontecendo, perguntei assim mesmo: “o que você pretende fazer, Vitinho?” “Só um homem é capaz de me ajudar”, respondeu. “Quem?”, quis saber. “Doc Brown?” Ele ficou impaciente. “Ora, que pergunta. É claro que estou falando de Mussum. Quero revisar e publicar tudo que eu escrevi dele, inclusive o inédito “Quero morrer pretis se eu estiver mentindo”. Acredito que poderei tranformar as bases das articulações políticas, tanto na Índia quanto no Brasil. Inclusive no que diz respeito à libertação de Madiba (Mandela para os chegados). Mas, antes, preciso desvincular meus estudos e a imagem dele daqueles tucanos larápios. Seu legado político não merecia esse aviltamento”. Tomei um susto. “É, Vitinho, até que a sua loucura ainda transpira alguma sanidade…”, pensei, olhando para meus velhos sapatos. Seu Di Paula já tinha motivos para se orgulhar do filho ensaísta.


Nota do moderador: por motivos de viagem e de doença (alô, influenza), este texto, iniciado por João Lêndea na semana passada, só pôde ser disponibilizado hoje, 29 de julho. Trata-se do aniversário de 15 anos da morte do inesquecível Mussum. Uma inacreditável coincidência ou um golpe do destino? …  Não sabemos. A ele, nossa humilde homenagem.