Arquivo da tag: rockestra

Howie Casey: nos primórdios da beatlemania – 4

Padrão

Parte IV: Rockestra e The Who

À frente da Rockestra, Paul McCartney, ao lado de Pete Townshend; ao fundo, Howie Casey (o segundo, sentido horário)

Senhor F – Você tocou na Rockestra, projeto de Paul McCartney, com John Paul Jones, Pete Townshend, entre outros. Como foi trabalhar com eles, em especial com o Who?

Howie Casey – Foi muito divertido ter participado da Rockestra com todos aqueles músicos… Com o Who, bem, eu toquei algumas músicas do filme Quadrophenia. O engraçado é que nunca vi o filme (risos). Antes disso, eu toquei num álbum solo do baixista John Entwistle, chamado Mad Dog – In Loving Memory Of Rock´n’Roll. Acabei viajando com o Who em algumas turnês pelo Estados Unidos, mas tive que sair da banda porque fui chamado para fazer a segunda turnê mundial do Paul McCartney. É claro que Pete Townshend não ficou muito contente com a notícia (risos).

Senhor F – O que ele disse?

Howie Casey – Eu disse “Olha, Pete, eu vou ter que ir tocar com o Paul, você sabe…” E ele, “sim, claro” (faz cara de irritação)… Falei a ele, “pode deixar, vou colocar um grande saxofonista no meu lugar”. Indiquei o cara que tocou no The Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd, Dick Parry. Dick e eu nos conhecíamos de longa data, costumávamos trabalhar bastante juntos. Mas quando acabou a turnê do Paul, eles não me deram o emprego de volta (gargalhadas)!

Senhor F – Você pediu?

Howie Casey – Pedi! E aí Dick falou “É, cara, eles ficaram meio revoltados porque você foi com o McCartney e agora querem que eu fique (risos)!

Senhor F – Pete Townshend não parece ser um cara muito fácil.

Howie Casey – Não, ele é um cara muito bacana, tranqüilo, com quem eu gostei muito de trabalhar. Tem um ótimo senso de humor.

Senhor F – Você tocou com os maiores nomes da história do rock. Que artistas e bandas você gostou mais de trabalhar e se relacionar, pessoal e profissionalmente?

Howie Casey – Poxa, é difícil, toquei com tanta gente… São diferentes períodos da sua vida, você muda de idéia o tempo todo… Eu diria que todos foram bons de uma maneira ou de outra. Nunca gostei de coisas tipo, “Ah, ele é o melhor saxofonista do mundo, o melhor cantor do mundo”. Isso é errado porque não se pode julgar esse tipo de coisa e tudo depende de gosto pessoal.

Senhor F – Concordo. Mas o que você gostou de ter feito, independente de qualidade?

Howie Casey – As coisas que eu adorei fazer: The Seniors, minha primeira banda, porque era tudo muito divertido. Não éramos os maiores músicos do mundo, mas foi ótimo ter tocado com eles; Depois podemos pular para a banda que eu tive quando comecei a tocar soul, The Crew, uma grande banda; A banda de Roy Young era brilhante também; É óbvio que os Wings estão incluídos nesta lista; The Who, porque era algo totalmente diferente, incluindo o perigo de ficar surdo (risos); A banda Paice, Ashton and Lord (conhecida pela sigla PAL), que era fantástica: Jon Lord, músico maravilhoso (mais famoso por seu trabalho no Deep Purple), Ian Paice, grande baterista (idem) e Tony Ashton, um cara divertidíssimo e muito talentoso. Essa foi provavelmente uma das melhores bandas, musicalmente falando. Experimentavam muito e o melhor era que o espaço estava sempre aberto aos outros músicos. Sempre podíamos chegar e dizer “acho que deveríamos fazer desse jeito”. Geralmente eles acatavam numa boa, era ótimo, você sentia que estava contribuindo. Muito legal. Com a banda de Roy Young foi a mesma coisa. Quando me juntei à banda, no começo dos anos 70, comecei a ajudar na composição do material para os álbuns e foi um período muito rico.

Senhor F – Com quem você está tocando hoje?

Howie Casey – Tenho minha própria banda, Howie Casey’s All Stars. São músicos que vivem perto da minha área. Tocamos pela Inglaterra em teatros e casas noturnas e tem sido legal, porque a banda é muito boa. Semana passada, tocamos em Londres, voltando ao Paul MacCartney de novo, num evento relacionado ao Buddy Holly. Como ele (Paul) possui os direitos autorais das músicas de Buddy, todos os anos eles fazem uma noite dedicada a ele. Várias celebridades comparecem ao evento, imprensa, integrantes de bandas… Neste ano eu não sabia que ia tocar. Me ligaram do escritório do Paul e perguntaram se eu poderia trazer o sax. Normalmente eu não levo, apenas vou e me divirto, tomo uns drinques… Mas topei. Tem uma coisa engraçada nessa história. Anunciaram meu nome e subi ao palco para tocar. Ouvi gritos na frente do palco, e havia uma luz enorme na minha cara, de modo que eu não conseguia ver nada. De repente surge essa figura do meio da plateia e vem para a frente do palco, na minha frente, assim (faz um gesto de quem está reverenciando, agachado), Foi aí que eu vi que era o Paul… Quando eu saí do palco, ele continuou atrás de mim, gritando Howie, Howie! Uma figura. Então ele me apresentou a namorada, Heather, que toca saxofone, e me perguntou se eu poderia dar a ela lições de sax (Howie também é professor do instrumento). Ela toca, lê música, mas quer se aprofundar. Acho que vou dar as aulas.

Senhor F – Você toca jazz, participa de jams?

Howie Casey – Sim, participo de jam sessions aqui mesmo. Mas sendo músico, é meio complicado ganhar dinheiro fazendo apenas isso. Mas sempre estou tocando jazz, é uma coisa que está sempre presente. Sempre pratico com discos de jazz, eu toco todos os dias.

Senhor F – Última pergunta: você acompanha a atual cena de rock na Inglaterra, ou mesmo nos Estados Unidos?

Howie Casey – É meio complicado dizer, eu devo confessar que fiquei meio preguiçoso nesse sentido. Acho que chega um ponto na vida em que você não pode saber de tudo o que está acontecendo na cena musical, mas de vez em quando até ouço. Não saio mais por aí comprando discos de tudo que sai. Acho que muito dos músicos mais velhos têm essa tendência de criticar os mais novos porque “não são tão bons como no meu tempo” e coisas do tipo, o que não é justo, na verdade. Não podemos esquecer que há excelentes novos músicos de jazz na Inglaterra, nos Estados Unidos, Brasil…

Senhor F – Você conhece música brasileira?

Howie Casey – Conheço pouco. Gosto de bossa nova, tenho alguns discos do Tom Jobim.

Anúncios