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Howie Casey: nos primórdios da beatlemania 2

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Parte II: Stu Sutcliffe, a polêmica saída de Pete Best e o quase estouro dos Seniors

Tempos de dureza: os Beatles em Hamburgo, ainda com Pete Best e Stu Sutcliffe

Senhor F – Fale um pouco mais sobre as jams.

Howie Casey – Os Beatles encerravam mais cedo do que a gente no Indra, por volta de meia-noite ou uma da manhã e a gente ia pelo menos até as duas. Na verdade, dependia muito, se a casa estivesse cheia, tocávamos por mais tempo. Mas eles costumavam aparecer depois do Indra. Aí tocávamos, John, eu, Paul… quem estivesse por perto.

Senhor F – Vocês ficaram chegados?

Howie Casey – Sim, passamos a conhecê-los melhor. Eles eram mais novos, eu já havia servido o exército e eles eram da escola de arte, havia uma diferença de idade. Se estivesse vivo, John faria 60, eu vou fazer 64, então era coisa de três ou quatro anos. George tinha 16, 17 anos, foi até por causa disso que ele voltou pra casa (os Beatles foram deportados de Hamburgo antes de o guitarrista completar 18 anos). O fato é que eu não os conhecia direito em Liverpool, mas acabamos nos dando bem em Hamburgo. Existem umas histórias de que havia rivalidade entre as bandas, o que é uma grande bobagem. Havia competição, mas num nível normal.

Senhor F – Fale-me sobre Stu. O nível musical dele era muito baixo, não?

Howie Casey – A primeira vez que eu o vi tocando (na audição com Larry Parnes) ele realmente virou-se para a parede e ficou meio, hum (faz cara de quem está constrangido)… Mas, ao mesmo tempo, tinha um visual muito legal. Quando foi para Hamburgo, ele mesmo admitiu que estava longe de ser o músico da banda, os músicos eram John, Paul e George. Acho que no fundo ele sempre soube que aquilo não seria para ele… (em 1962, Stuart Sutcliffe morreu de hemorragia cerebral em Hamburgo, ao lado da namorada Astrid Kirchherr, menos de um ano antes de a banda gravar o primeiro compacto).

Senhor F – E quanto a Pete Best? Uma das alegadas razões pelas quais ele foi expulso da banda é que ele não era bom o suficiente.

Howie Casey – Bem, a gente costumava tocar bastante juntos e, pelo que eu sei, Pete era, pelo menos na época, suficientemente bom para tocar com os Beatles. Há muita coisa além dessa história… Ringo era mais espalhafatoso. Mas a verdade é que Pete Best era o beatle mais popular na época, as garotas simplesmente o amavam, ele era bonitão.

Senhor F – Você acha que foi a razão para tirarem ele?

Howie Casey – Quem sabe? Eu não era da banda. Houve rumores.

Senhor F – Ele não era um baterista de jazz, digamos assim, mas segurava.

Howie Casey – Era um baterista. Nosso baterista tocava melhor do que ele, o baterista do Big Three era melhor, havia alguns bateristas melhores do que ele, mas, comparado à  média dos bateristas da época ele era bom. A questão é: se ele era tão ruim, por que todas as bandas queriam tê-lo como baterista quando saiu dos Beatles? Porque ele era um trunfo, e não apenas porque era um baterista razoável, mas porque tinha um grande fã-clube pessoal, as pessoas gostavam dele, especialmente as garotas. Ele fazia um tipo meio James Dean. Mas eu não sei…

Senhor F – Quando você o viu tocando no Kaiserkeller, você o achou razoável.

Howie Casey – Claro. Aliás, a primeira vez que vi os Beatles no Indra, percebi que eles haviam progredido 100% ou mais em relação à época da audição. Estavam muito, muito melhores. Eu pensei “estão muito bons agora”. Voltando ao Stu, a razão pela qual ele tocou na minha banda foi porque Koschmider disse que não queria intervalos nos shows. A gente tocava 45 minutos, tinha um intervalo de 15 minutos, para então tocar mais 45. E assim ia. Eu não sei o que era, mas naquela época, na Alemanha, o público simplesmente sumia nos intervalos. A música parava, ligavam o jukebox e eles começavam a sair. E a gente, “ei, não acabamos, voltem!” Aí quando outras pessoas paravam na porta para dar uma olhada, o cara gritava “toquem, toquem!”, e começávamos a pular e a dançar. Aí eles entravam, “vamos dar uma olhada nesses idiotas ingleses”. O que o Bruno fez então foi dividir a minha banda ao meio para que a música não parasse. Claro que a gente não gostou. “Que? que merda”, foi a nossa reação. Mas não podíamos discutir porque queríamos ficar lá. Ele trouxe então um baterista alemão de jazz e a formação ficou Derry, Stu, eu e o Stan nos teclados. A outra banda era o resto dos Seniors, os dois guitarristas e o baterista. Então quando acabávamos, eles começavam imediatamente. A música não parava e os alemães acabavam ficando.

Senhor F – Vocês foram a primeira banda de Liverpool a assinar contrato com uma gravadora. Como foi isso?

Howie Casey – Bem, voltamos para Liverpool e mudamos a formação. Um outro vocalista se juntou à banda, passamos ter dois cantores, o pianista saiu e arranjamos outro baterista e baixista também.

Senhor F – Uma reforma geral.

Howie Casey – É, mais ou menos. O novo vocalista, Freddie Fowell, era ator, um cara mais velho, que havia participado de alguns filmes quando era jovem, como Violent Playground. Ele era muito bom, muito engraçado. Ele depois mudou o nome para Freddie Starr e hoje é um grande comediante na Grã-Bretanha, uma estrela. Mas voltando, o que aconteceu foi que o empresário dele conseguiu uma audição para ele tentar um contrato com a gravadora Phillips.

Senhor F – Isso foi em 62?

Howie Casey – Não, antes, 61. Aí o Freddie disse que não queria ir sozinho e sugeriu que a banda fosse junto. Fomos para o estúdio da gravadora em Marble Arch, em Londres e o produtor falou “vamos ver o que vocês podem fazer”. Estávamos suando muito, nervosos (risos), mas tocamos e eles disseram “ok, nós assinamos vocês”. Nunca perguntamos quanto ganharíamos, apenas dissemos “claro” (risos). Naquela época o twist estava em alta e o produtor nos disse para escrever material naquele estilo. Topamos, porque twist era apenas uma variação do rock’n’roll … Escrevemos então músicas “fáceis”, voltamos ao estúdio e gravamos ao vivo em uma tarde. Chegamos por volta de meio-dia, gravamos e voltamos para Liverpool no mesmo dia. O próximo passo foi mudar o nome da banda, eles queriam que mudássemos. Ainda era Derry & The Seniors, mas estávamos com dois vocalistas. Não poderia ser Derry, Freddie & The Seniors. Então eles disseram “Howie, você é o líder, a banda deveria se chamar de Howie Casey & The Seniors. “Tudo bem”, respondi. Foi legal, encheu o meu ego, mas os outros dois ficaram numa boa porque não significou preferência por um vocalista em detrimento do outro. O disco saiu e eu me lembro de ter ouvido uma das faixas, Double Twist, na rádio Luxemburg, a rádio pop da época. Era uma música de 100, 200 quilômetros por hora, ninguém podia dançar aquilo (risos)! Mas a sensação era “uau, estamos no caminho”.

Senhor F – A banda se separou no mesmo ano?

Howie Casey – O disco foi gravado em 61 e foi lançado em 62. O grupo acabou naquele ano. Mas antes de acabar, gravamos mais umas faixas. Gravamos uma música chamada Twist At The Top. O disco é chamado assim, mas não tem nenhuma música com esse título.

Senhor F – O que aconteceu? Por que vocês acabaram?

Howie Casey – Por uma série de coisas. A gravadora disse que a gente precisava de uma companhia para agenciar a banda, mas não conhecíamos ninguém em Londres. Arranjaram então um empresário para trabalhar para a banda em Londres. Mas o trabalho foi feito fora da Grande Londres, num lugar que eles chamaram de Twist At The Top. Era no topo de uma grande loja, tinha um clube chamado Room at the top, onde tocamos regularmente por cerca de um mês. Tocamos em outros lugares também no sul e no norte, Lancashire, País de Gales. À essa altura, a banda estava ótima, os shows eram fantásticos com os dois cantores, mas o que aconteceu foi uma coisa pessoal… Minha namorada ficou grávida. Naquela época, se você engravidasse alguém, tinha que casar. E foi o que eu fiz. E como ela estava grávida, não queria que eu ficasse ausente por muito tempo. Fiquei sem opção, precisava arrumar um emprego. Então eu disse ao pessoal que estava saindo do grupo. Os caras me ligavam direto, “Howie, estamos com ofertas para shows”, e eu, “não vai dar, preciso ficar para cuidar da minha mulher e do bebê”. Àquela altura, os Beatles tinham assinado com Brian Epstein para empresariá-los. Brian também estava assinando com o Big Three e Gerry & The Pacemakers. Aí eu recebi um telefone do DJ Bob Wooler: “Howie, Brian quer ter uma conversa com você sobre a banda”.

Senhor F – E o que aconteceu?

Howie Casey – E eu disse “a banda acabou, eu não posso, cara”. Grande idiota! Fui perceber que havia cometido um grande erro um ano depois e foi como eu voltei para a música. Eu estava trabalhando em um pequeno supermercado. Um dia me dei conta: “este sou eu?” Naquela época, todas as bandas que eu conhecia, os Beatles, Gerry, todos estavam tocando no rádio e eu trabalhando num supermercado. “Peraí, isso não está certo”, concluí. Aí recebi uma oferta do Kingsize Taylor para tocar no Starr Club (em Hamburgo) e disse para a minha mulher, “estou com essa oferta, vai ser dinheiro fixo, eu posso te mandar e tudo”. A verdade é que ela não estava nem aí e acabou topando. Voltei ao supermercado e falei “aqui estão as chaves, não virei na segunda, tchau”.

Senhor F – Foi o melhor a ser feito.

Howie Casey – Bem, eu poderia ser poderoso no setor de supermercados agora (risos)! Nunca se sabe! Então entrei para o Kingsize.

Senhor F – E como foi com o Kingsize?

Howie Casey – Nós nos conhecíamos de Liverpool, então foi fácil. Musicalmente era diferente, eles tinham mais cantores, eram quatro ou cinco. Faziam muita harmonia com a voz, o que era ótimo, algo completamente novo para mim. Enquanto os Seniors tinham como estilo Little Richard, eles estavam mais para Chucky Berry, Carl Perkins. Tocamos por um ano no Starr Club e abrimos para o Chucky Berry na primeira turnê que ele fez na Grã-Bretanha, lançamos um single, chamado Stupidity, fizemos apresentações na TV… Ter tocado com Chuck Berry foi uma coisa… Era “uau, estamos tocando com Chuck!” Depois, começamos a ter problemas de dinheiro, não estávamos recebendo o esperado. O dinheiro simplesmente não estava entrando. Na verdade, houve desentendimentos porque tinha gente recebendo mais do que devia e quem estava recebendo mais se recusou a dividir com os outros. Basicamente a banda foi gradualmente se dissolvendo. Àquela altura, era fácil sair de uma banda e entrar em outra.