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Howie Casey: nos primórdios da beatlemania – 3

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Parte 3: o reencontro com Paul McCartney, Wings e a prisão do ex-beatle no Japão

Os metais dos Wings (sentido horário): Tony Dorsey, Howie Casey, Thaddeus Richard e Steve Howard

Senhor F – Foi quando você decidiu virar músico de estúdio?

Howie Casey – Bem, não se decide isso de uma hora para hora, foi algo que aconteceu, para a minha sorte. Eu voltei da Alemanha para a Inglaterra, entrei para uma banda de Birmigham e fomos tocar em Paris, Milão, várias cidades na Suíça, França. Já era outra coisa, estávamos tocando soul naquela época, tocamos até 1969, quando minha segunda mulher ficou grávida. Eu sou bom nisso (risos)! Era uma boa banda que nos rendeu muito, mas que acabou também. De volta à Inglaterra, me mudei para Londres e comecei a fazer sessões de estúdio. Aí ficou fácil porque conheci muita gente, as pessoas me viam tocando e faziam os convites.

Senhor F – Como você viu todas aquelas mudanças na segunda metade dos anos 60, a cena mod, a psicodelia, os Beatles fazendo Sgt. Peppers…

Howie Casey – Foram grandes mudanças, mas acho que tudo depende muito do tipo de música que você gosta. Os Beatles começaram a mudar as coisas, com o Sgt. Peppers…

Senhor F – Mas você não se envolveu muito…

Howie Casey – Com os Beatles? Não, havíamos perdido contato. Eu costumava vê-los de tempos em tempos e era sempre “como vai?”, mas não tocávamos mais juntos. Na verdade eu sempre gostei muito da música negra americana, primeiro com o início do rock’n’roll, o blues. Depois, no meio dos anos 60, com o surgimento da soul music, eu pirei. Me identifiquei profundamente com aquilo. Você tem grandes cantores, os metais… Eu gostava do que os Beatles estavam fazendo, gostava dos mods também, mas aquilo se tornou a minha música, o que eu queria tocar. Sempre foi, de uma certa maneira. Todas as bandas que eu tive era um pouco isso, cantores negros, os instrumentos de sopro, minha ex-mulher também era uma cantora de soul… Quando eu voltei para a Inglaterra eu entrei para outra banda, liderada por Roy Young, muito conhecido na cena rock’n’roll dos nos 50. Era a resposta britânica para Little Richard. Até hoje ele canta como Little Richard, toda aquelas notas altas… A banda era fantástica e me abriu muitas portas como músico de estúdio, porque muita gente ia nos assistir, como o produtor Tony Viscontti. Ele me convidou para várias sessões de estúdio. Nos anos 70, Tony estava co-produzindo Band On The Run para os Wings e ele disse ao Paul “conheço um dos saxofonistas que pode tocar no álbum, Howie Casey”.  A reação do Paul foi: “Howie Casey, você está brincando?” Me chamaram na hora.

Senhor F – Então não foi o Paul quem o chamou?

Howie Casey – Não, foi o Tony, porque àquela altura havíamos perdido completamente o contato. É, porque os Beatles eram famosos demais, era outro estilo de vida… Eu estava apenas trabalhando como músico. Toquei em Jet e Band on the Run. Quando acabamos a sessão, Paul disse aos músicos de estúdio: “valeu, pessoal. Howie, você poderia ficar para mais umas sessões?” Respondi que sim, fui até meio blasé, porque já estava acostumado a sessões de estúdio. Gravamos, recebi meu pagamento, 30 libras, e o disco vendeu seis milhões de cópias de cara.

Senhor F – O disco virou um clássico.

Howie Casey – Sim. Depois, decidiram fazer a turnê, quando eu me separei da minha segunda mulher. Me ligaram do escritório do Paul, MPL, perguntando se eu gostaria de participar. E eu “deixe-me ver…” Topei na hora (risos).

Senhor F – Você achava fácil trabalhar com ele?

Howie Casey – Sim. O disco Band On The Run não foi difícil de fazer, musicalmente falando e o Paul é o tipo de músico que sabe o que quer. Ele não escreve partituras, então costumava sentar ao piano e dizer “quero essa melodia para o sax, essa para o trompete…” Em Silly Love Songs, por exemplo, ele fez isso. Ou então ele cantarolava o trecho do solo. É um cara muito talentoso. Mas aceita sugestões dos músicos, é aberto.

Senhor F – E a turnê?

Howie Casey – Fizemos duas, sendo que a segunda terminou num desastre completo.

Senhor F – Como foi isso?

Howie Casey – Bem, o Paul foi preso no Japão. Estávamos todos reunidos no hotel, encontramos outros músicos que tinham ido para as apresentações, acho que um trompetista e outro saxofonista. Ficamos ali, conversando e bebendo, “turnê nova, que bacana!” De repente um dos empresários do escritório entra com uma cara… E todo mundo “e aí, como vai?” E ele, “Paul foi preso (risos)!” E a gente, “claro, claro (mais risos)!”, porque a gente costumava fazer piadas uns com os outros o tempo todo. Pensamos que era mais uma.

Senhor F – Era uma boa piada…

Howie Casey – É, só que não era! Ele havia ido com Linda e as crianças separadamente. A história é que já haviam inclusive cancelado uma turnê japonesa anos antes por causa disso, as autoridades japonesas disseram que ele não podia tocar lá por causa de problemas com drogas. Então na segunda vez houve uma série de articulações com os políticos para fazer a coisa andar. Quando eles chegaram, foram recepcionados e tudo, “seja bem-vindo senhor McCartney, esperamos que os shows sejam um sucesso”. Apenas por formalidade, escolheram uma das malas dele para abrir. E qual era? Justamente a que continha bagulho! E era um saco imenso! Me disseram que, se eles quisessem, poderiam conseguir aquilo no Japão em vez de trazer de fora… Se tivessem olhado outra mala, nada teria acontecido, mas com aquele saco de maconha… Não havia nada que pudessem fazer. E estava na parte de cima da mala, eles poderiam ter colocado nos fundos, mas não. Devem ter fumado e simplesmente colocaram o saco de volta. Um desastre (risos)! Paul assumiu a culpa e foi preso. Todos ficaram apavorados, estavam falando que ele poderia ficar preso por anos, coisas desse tipo. E tudo que nós podíamos fazer era sentar e esperar. Pelo que eu me lembro ele ficou preso uns dez dias. Ficávamos no hotel, bebendo e esperando as novidades. Gente de influência foi acionada para ajudá-lo, como o senador Edward Kennedy – Paul é muito popular, conhece muita gente – e tentar fazer o governo japonês liberá-lo. Na prisão, deram permissão para ele ter um violão e só. Ele ficou com uns japoneses, não havia cadeiras, todos ficavam agachados! A comida era apenas arroz e eles a serviam assim (faz gesto de quem põe um prato no chão). Até que conseguiram que fosse deportado. A polícia o levou e ele foi colocado na classe econômica de um vôo. É claro que quando as portas se fecharam ele foi colocado na primeira classe (risos)! Acho que o episódio o deixou um pouco traumatizado. Você pode imaginar, toda aquela coisa da sociedade japonesa sobre honra…Para eles é muito importante. A verdade é que Paul teve sorte, de uma certa maneira, porque poderia ter ficado preso por muito tempo.

Senhor F – E esse foi o fim da turnê.

Howie Casey – Acho que sim, não me lembro bem. Tínhamos 11 datas no Japão e não fizemos nenhuma. Mas todos os músicos receberam seus cachês.


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Flavinho Ferreira e a Idade da Razão

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Flavinho, no dia em que recebeu alta do manicômio e foi informado das boas novas: "we salute you!

Flavinho, no dia em que recebeu alta e foi informado das boas novas: "we salute you!!"

Flavinho Ferreira é um velho amigo dos tempos de manicômio. Recentemente, foi solto. O pai, o sempre simpático seu Di Paula, achou por bem acomodá-lo num confortável apartamento de uma área das quatrocentos, região residencial de Brasília. Sozinho, diga-se. O irmão do baterista, Vital das Neves, que sempre fez questão de não usar o sobrenome Ferreira para decolar na carreira artística, já estava há tempos instalado na Índia, onde havia estudado cítara e agora ministrava aulas sobre História e Teoria do Mau Humor Francês num conceituado conservatório. Corre a lenda que a recente morte do guru Maharishi foi um trauma insuperável para Vitinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos de cachaça e esbórnia. Tanto que ele, desolado, teria parado de cantar seus famosos repentes (orgulhosamente ensinados por seu Di Paula) em praça pública, em troca de bolinhas de gude. O fato é que ninguém sabe ao certo. O assunto virou tabu na família.


Mas voltemos ao fabuloso e promissor mundo de Flavinho Ferreira. Seu Di Paula avaliou que esta seria uma maneira de Flavinho atravessar, com desenvoltura, a difícil e temida trilha rumo a uma vida adulta e responsável. E até, quem sabe, o garoto pararia de revelar a quem aparecesse na sua frente que na verdade é (e sempre foi) Sir Paul McCartney. Na verdade, o grande desafio de Flavinho, além do novo mundo lá fora, seria lidar com o mundo lá dentro, tanto de sua cabeça avariada, quanto de seu novo apartamento. Quanto aos seus conhecidos acessos de loucura, os mais chegados não viam muito problema. Para que existia telefone? Ou os discos do Journey? Afinal, o refrão de Don’t Stop Believing tinha propriedades curativas para Flavinho. Assim, o rapaz topou o desafio.


Flavinho não demorou a ligar para os amigos e contar as boas novas. Queria celebrar. Para minha sorte, fui incluído, semana passada, na lista de dois privilegiados convidados para ir a um dos maiores berços da etiqueta e requinte brasilienses, o bar Piauí. Clube seleto: eu e o estrangeiro Tom (Tonho, para os mais chegados), professor de japonês na Cultura Nipônica e também outro desmiolado bem próximo de Flavinho. Quando ele apareceu, logo o saudamos com o velho e ritmado grito de guerra: “Fla, Fla, Fla Fla Fla Fla, ah Fla Fla Fla, Flavão, ah Fla Fla Fla Fla Flavão!”, referência à clássica Surfin’ Bird, dos Trashmen, mais conhecida na versão dos Ramones (sempre que ouvia, Flavinho abria um largo sorriso e logo emendava a batida da canção na mesa, mesmo sem nunca ter achado nenhuma das duas bandas grande coisa. Era mais uma demonstração de sua invejável generosidade).


 Flavinho recorre aos conselhos do sábio. "Por que morar sozinho você quer?", indagou o sóbrio Yoda ao jovem padawan

Flavinho recorre aos conselhos do sábio. "Por que morar sozinho você quer?", indagou o sóbrio Yoda ao jovem padawan

“Diga lá, Flavinho!”, gritei. “E aí, rapaziada! Ouçam essa: Estou de mudança para o apê do meu pai! Não é fantástico?”, anunciou, a própria encarnação da euforia. Enquanto reproduzia na mesa, com maestria, a introdução de Rosana, do Toto, Flavinho tratou de contar os planos para a mudança. Os móveis que seriam distribuídos nos três cômodos e na sala; o fantástico praticável de bateria que iria decorar um dos quartos; e, o mais importante: os pôsteres do Asia, as amadas fronhas do Super-Homem e os bonecos do Falcon e do mestre Yoda, estes últimos responsáveis por trazer frescor e sabedoria ao ambiente. “É, a vida do Flavinho vai respirar novos ventos”, pensei com meus botões. Não disfarcei um sorriso de contentamento.

“Só preciso organizar os horários do almoço”, esclareceu ele. “Como assim, Flavinho? Hora de almoço não é universal? Das 12h às 14h?”, perguntou Tonho. “Não, quis dizer organizar com a minha mãe”, disse, demonstrando alguma irritação por não ter sido compreendido. Um silêncio sepulcral deslizou sobre o ambiente. Eu e Tonho  trocamos olhares. Ninguém tinha coragem de abrir a boca. Mais alguns instantes daquela tortura escandalosa. E nada. Flavinho nos encarava, agora com ar de poucos amigos. “Peraí, você vai almoçar na casa da sua mãe todo dia?”, assoprei, finalmente, a nebulosa nuvem da incerteza. “Esse é o plano”, disse Flavinho, enquanto bebericava sua cerveja predileta, a alemã Dummkopf. “Você não tem fogão, jovem?”, Tonho perguntou, visivelmente assombrado. “Tenho, claro”.

Tonho não deixou que o talentoso baterista prosseguisse: “Flavinho, por que você não aproveita e toma também o café da manhã por lá?”, disparou, mal segurando a gargalhada. A resposta foi automática: “Cedo demais, pô”. “Faz o seguinte”, emendou Tonho: “vai todo dia na noite anterior. Dorme lá que você consegue pegar o café e o pão fresquinhos!” Não aguentei. Quase despenquei da cadeira de tanto rir. Mas Flavinho não achou tanta graça. “Vocês estão viajando. Não sabem de p#*@ nenhuma mesmo! Se eu fizesse…” Parou de falar um instante. “Se eu fizesse isso… Espera aí… Até que… Não é má ideia…” Mais uma pausa. “Não, não! O que é isso? Para que eu me mudaria, então?”, disse, agora sem hesitações.


“Excelente pergunta, Flavinho. Excelente pergunta”, foi a resposta, em uníssono. Flavinho encerrou abruptamente o batuque de It’s Hard for me to Say I’m Sorry, do Chicago, dando uma última virada e acertando com apurada técnica o prato de sua bateria imaginária. Aí, pediu a conta. “Melhor repensar todo este assunto”, concluiu. Depois, levantou-se, deixando Tonho e eu sentados, olhando para o fundo de nossos copos. Pensei na sábia e agora pertinente observação feita por nosso guia, The Dude, no Grande Lebowski: “friends like these, huh Gary?” “That’s right, Dude”. Tudo o que precisávamos agora era evitar os sopapos de um colérico seu Di Paula.