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Juventude transviada: reminiscências de Vitinho das Neves – parte II. O rock redime!

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Vitinho das Neves: esbórnia nos tempos de Goiânia?

Vitinho das Neves: esbórnia nos tempos de Goiânia?

O dia era sexta-feira e não havia dúvida: Vitinho das Neves estava seco para tomar uma gelada. O moleque “gostoso”, como o chamava a querida Vera Lu, além de “saber receber” – seja lá o que isso significasse – era bom de copo. Por isso tinha uma sede constante. De modo que fomos bater no Rock’n’Roll, o pé sujo da Asa Norte cujos jovens locais exalavam pura poesia pelos poros. Invariavelmente, presenteavam  os frequentadores com perfomances de air guitar e generosas golfadas de vômito no banheiro. Aquilo era para privilegiados. Mas desta vez, Vitinho se recusou a falar de política e tocar no nome de Mussum ou dos “crápulas do PSDB”. Queria sentir apenas as boas vibrações do rock.


“I wanna rock’n’roll all niiiight”, urrou, ao chegar. “Como nos velhos tempos! A gente era muito louco, não era? Sempre aprontávamos todas. Lembra quando fizemos aquele show em Goiânia? Aquilo faria o pulha do Keith Richards tremer naquelas calças psicodélicas de babaca”, disse, depois de virar um copo de Skol. “Ou o Arnaldo Baptista ficar são. A gente era pura dinamite!” Vitinho havia entrado na Missão Pus depois de ser expulso da consagrada Baita Clitóride anos antes, sob sérias acusações de ter molestado uma barata em um quarto de hotel de Abadiânia. Apesar do revés para a imagem da banda e de Vitinho e do início de um processo legal (isso resultaria na fuga do músico do país, a exemplo do cineasta Roman Polanski. Poucos sabem é que esse foi o verdadeiro motivo de sua ida para a Índia), o episódio nunca foi inteiramente comprovado.

“É, Vitinho, era mesmo”, concordei, meio incerto da veracidade daquelas declarações. Afinal, estivéramos em Goiânia uma vez, para um único show e num moquifo cuja platéia de três pessoas exigia que tocássemos músicas dos Ramones, banda da qual Vitinho não era exatamente fã. Pelas minhas recordações, a cena mais “louca” (para não dizer surreal), de que podia me lembrar foi quando saímos, eu, Vitinho e os dois produtores do show para comprar o jantar do grupo. Eles chegaram em suas motos. Vitinho mostrou-se meio constrangido e hesitou em subir na garupa de uma delas. Afinal, nunca havia andado de moto. Mas logo foi interrompido em sua meditação: “Está esperando o que, garoto?”, perguntou o produtor (e saudoso) Marcão Adrenalina, enquanto acelerava sua máquina. Sem escolha, Vitinho decidiu acabar com aquele tormento.

Foi quando subiu na garupa e agarrou Marcão Adrenalina por trás. Com suas longas madeixas ao vento e um farto bigode bem penteado, Adrenalina, que tinha cara (só a cara) de poucos amigos, não titubeou e virou-se bruscamente: “Que negócio é esse rapaz?”, a ponta do longo bigode encostando nas narinas de Vitinho. “O que?”, retrucou ele, amedrontado. “Essa mão boba em cima de mim!”  “Mas onde vou me segurar?”, balbuciou o jovem guitarrista. “Tem uma grade aí atrás, moleque. Tá me estranhando por causa do cabelo comprido? Comigo não tem dessa veadagem não”.

Uma bomba chamada Ronaldo Lagartixa

De volta ao presente, Vitinho continuava a relembrar as histórias de groupies e outras presepadas imaginárias de que tanto se orgulhava. Falava sem parar e de modo articulado, o que até me fez cogitar se aquilo tudo não teria ocorrido de fato. Aí o louco da história seria eu. Por via das dúvidas, achei melhor não relembrá-lo do episódio da moto. Afinal, como diria meu amigo e colega de banda, Pluto, as lembranças poderiam ser apenas uma “reconstrução histórica” da minha cabeça oca. Embora eu desconfiasse de que esse não era o caso. Fui subitamente puxado dos domínios daquela reminiscência bizarra e bolorenta, pois, à frente do velho televisor, estava uma das figuras mais incompreendidas e, talvez, por isso mesmo, mais temidas do rock brasiliense: Ronaldo Lagartixa.

Lagartixa era vocalista do grupo Finca a Pica e era considerado uma figura no mínimo controversa: durante os shows do grupo, seus discursos, recheados de referências bíblicas à polarização ideológica entre o lustro da careca de Zé Serra e a peruca de Dilma Rousseff, geravam reações adversas, levando uma parte da platéia a tratá-lo quase como um messias (algo que não se via desde Renato Russo). E a outra… Bem, voltemos à narração desta excitante história. Lagartixa posicionou-se em pé, bebericando uma Caracu ao mesmo tempo em que parecia estudar os trejeitos do guitarrista Brian May, do Queen, no clipe da música Save Me. “Bom! O som é meio abaitolado, mas esse sabe tocar guitarra!”, disparou. “Concordam?”, encarou o pessoal nas mesas com os olhos esbugalhados. A maioria apenas assentiu com a cabeça. Ninguém se atreveu a falar.

Ronaldo Lagartixa: ameaça à paz ou telento diplomático à beira da extinção?

Ronaldo Lagartixa: ameaça à paz ou telento diplomático à beira da extinção?

Outros clipes foram se alternando na “programação” e, com eles, ia mudando o humor de Lagartixa. Às vezes emocionava-se com uma banda pela qual nutria simpatia. Mas também ocorria de ficar indignado com a postura, por exemplo, de um grupo como o Poison. Depois de uma sucessão de clipes de bandas farofa, cuja música ganhava o crescente desprezo de Lagartixa, a coisa mudou de figura: veio The Number of the Beast, do Iron Maiden. E Lagartixa perdeu o controle: “AÍ, MOLECADA DE RAIMUNDOS!!! VÃO APRENDER A TOCAR!!!!” E passou a ‘tocar’ nota por nota o solo da música, enquanto encarava os presentes, inebriado em êxtase.

Mas foi na música Smoke on the Water, do Deep Purple, que o caldo entornou: “Blackmore! Esse fazia minha alma pegar fogo!” Vitinho, que fitava Lagartixa com um misto de medo e inveja, talvez pela postura despojada e, sobretudo, verdadeira, do cantor, soltou, quase involuntariamente: “ainda faz, não? Ele não morreu…” Lagartixa pareceu ter sido atingido por um raio. “QUEM DISSE ISSO?”

O homem veio andando em nossa direção, ainda incerto de qual mesa havia partido tamanho atrevimento. No meio do caminho, ouviu uma conversa numa mesa. Eram os cineastas Marcelo Furão e Rene Sampaio. Furão referia-se alegremente ao prêmio de Sampaio pelo curta Sinistro, no Festival de Brasília. Mas sinistro mesmo era o olhar de Lagartixa, que tratou de cortar o papo: “Não quero saber quem é cineasta ou quem levou porra de prêmio. Quero saber quem vai me encarar!!!”

Vitinho decidiu que deveria intervir e acabar com aquela insanidade. “Você quer levantar voo, Lagartixa?”, perguntou ele, tirando coragem não se sabe de onde. “Que conversa é essa, imbecil desmiolado?”, devolveu Lagartixa. Se aproximou e agarrou o guitarrista pela gola, praticamente suspendendo-o do chão.  “Quem vai voar é você, inseto insolente!”

Antes que eu ou qualquer um naquele bar pudesse fazer alguma coisa para evitar que Vitinho iniciasse a formidável experiência de se transformar numa bola de basquete e quicasse pelas mesas, ele gemeu, olhando para o chão: “cacildis…” A expressão endiabrada de Lagartixa mudou:  “o que você disse?” Seus olhos subitamente umedeceram e as mãos afrouxaram a gola de Vitinho. “Onde você ouviu isso?”, inquiriu Lagartixa. “Onde ouvi isso? Eu escrevi sobre isso”, grunhiu Vitinho, sentindo as forças lhe retornando. Seu interlocutor não podia acreditar: “Você é Vital das Neves, autor de “Cacildis”, “Crioulo é a Tua Véia” e “Eu vou me Pirulitar”? “Precisamente”, respondeu Vitinho, o peito agora estufado e os ombros inchando em direção ao teto.

Vitinho foi abraçado por Lagartixa, que agora chorava copiosamente. “Esses formidáveis estudos mudaram minha vida!! Eles são a base de meus discursos nos shows do Finca a Pica! É uma honra conhecê-lo!”, berrou. “Não se apoquente, garoto”, disse Vitinho, esquecendo-se de que era pelo menos 10 anos mais novo do que Lagartixa e de que quase havia levado umas bolachas dele. “Esta é apenas minha parca contribuição para tirar o país deste lastimável estado de subdesenvolvimento”. E emendou um de seus eloquentes discursos pela libertação de Nelson Mandela, que consistia em: “MADIBA!!! MADIBA!!! MADIBA!!!!”. E assim bradou, de cima de uma mesa, para delírio dos locais, que agora o reverenciavam como a um rock star. O único debilóide no recinto que achava que Madiba estava solto há mais de uma década era eu.

Vitinho, após momento de catarse no bar Rock'n'Roll

Vitinho, após momento de catarse no bar Rock'n'Roll

Minhas lucubrações não mais importavam, elas é que não faziam sentido. Pois a lição estava lá nas nossas fuças para quem quisesse ver: Não se pode fugir de si mesmo. Vitinho agora sabia disso. De minha parte, não deixei de observar a fina ironia por trás daquilo. Por meio de seus estudos, Vitinho, um roqueiro de araque e prostrado, influenciara um dos maiores nomes da história da música de Brasília sem se dar conta. E agora encontrava a glória ao unir dois mundos distintos, política e rock’n’roll. O aprendiz era na verdade o mestre. Se estivessem vivos, Renato Russo e Marcão Adrenalina, ele próprio um devoto do modo rock’n’roll de se fazer política, estariam orgulhosos.


Quanto a Ronaldo Lagartixa, este subiu na mesa de Vitinho (que agitava os braços e batia cabeça para a plateia, agora ensandecida), enxugou as lágrimas e fulminou, os braços em volta de Vitinho: “Antes de mais nada, gostaria de agradecer a… TUDO!!!!! VIVA  MUSSUM!!!! VIVA SÉRGIO CABEÇA!!!!(*) VIVA O SENHOR!!!” Os aplausos e gritos da multidão, que, aquela altura, já ocupava a rua inteira, pareciam supersônicos. Já esta pobre testemunha ocular que vos escreve continuava a patinar na própria estupidez. Aquilo me fez lembrar do talentoso poeta Lonely Bob, irmão de Pluto, que um dia vaticinou, em mensagem aos ignorantes: “O caminho é longo”. Mais do que nunca, aquele, definitivamente, era o meu caso. Que a sapiência de Compadre Washington me ilumine.


Nota do moderador: O autor avisou que não se desculpará com os preguiçosos pelo texto longo. “Lições de vida como esta não podem ser resumidas”, me confidenciou.

* Gentilmente cedido pelo amigo Marcelo Araújo


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Juventude transviada: reminiscências de Vitinho das Neves – parte I

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Vitinho das Neves, um incansável ativista

Vitinho das Neves: mais do que um rostinho bonito, um incansável ativista

Há alguns anos, recebi o telefonema de um grande amigo, Vital das Neves, o velho boa praça e pau-de-cachaça Vitinho. Estava de férias em Brasília. Vitinho vinha se queixando de stress, sentia-se angustiado por não conseguir aglutinar, no conservatório onde era professor, na Índia, os alunos em torno do conteúdo de seu curso de História e Teoria do Mau Humor Francês. Parecia não haver interesse dos indianos pelo assunto e ele não conseguia compreender porque aqueles seres espiritualmente refinados preferiam discutir em classe o peso cultural da traseira de Scarlett Johansson a estudar o valor filosófico de um francês soltando os cachorros em algum desavisado na fila do pão. Além disso, desenvolveram certa resistência aos assuntos da política, outra paixão de Vitinho. “Esses indianos…”, pensava. No fundo, ele temia uma desistência em massa.

Também sentia falta da época divertida em que atirava suas bolinhas de gude nos transeuntes de Nova Délhi e de seus viscerais discursos pela libertação de Nelson Mandela. Vitinho era um orador apaixonado. Seu último grande discurso, no tocante ao líder sul-africano, data de 2005. “Soltem o homem! E vamos logo com isso!!!”, bradava, num articulado e destemido tom revolucionário, para quem estivesse passando.

Contudo, depois desse período seminal, o máximo que conseguiu balbuciar em praça pública foram algumas palavras sobre o insuperável legado de Mussum na política brasileira, apesar de sua avaliação de que sempre haveria resistência a um pensamento tão progressista. Por isso, foi um choque para Vitinho quando descobriu que parlamentares tucanos vinham lendo seus ensaios sobre o rei do mé e preparavam, em segredo, uma investida para a campanha presidencial de 2006, inspirada neles.


“Crioulo é a tua véia” e “Eu vou me pirulitar”, dois estudos redigidos por Vitinho sobre as ideias de Mussum, foram, na verdade, a base do programa de governo do PSDB na campanha daquele ano. Não logrou êxito mas, aparentemente, também não foi descartado. Rumores dão conta de que o governador José Serra pretende fundir o modelo de desenvolvimento contido em “Eu vou me pirulitar” com o mais recente, “Cacildis”, para criar um programa inteiramente novo e virar o jogo em 2010, a despeito da torcida contra de lulistas invejosos.

Vitinho e a política. Como Celso Furtado, este homem enxergava e compreendia o Brasil profundo. Suas ideias são viáveis? Vitinho acredita que sim. Graças a seus estudos sobre o pensador Mussum, um modelo de desenvolvimento socialmente avançado está à disposição da tucanada

Como Celso Furtado, este homem enxergava o Brasil profundo. Suas ideias são viáveis? Vitinho acredita que sim. Graças a seus estudos sobre o pensador Mussum, um modelo de desenvolvimento socialmente avançado foi apropriado pelo tucanato

Apesar de toda a luta e ativismo da política, aliados à vida acadêmica, Vitinho estava desencantado. Portanto, o que importava naquele momento era estar com a família na velha Brasólia, como era chamada a capital por nosso amigo carioca, o biruta profissional Amaretto. Assim, depois de sua ligação, o terreno estava pronto para mais uma noite regada a cerveja, amendoins, flatulências com aroma de ovo e boas, boas risadas. Iria recarregar suas energias. Marcamos no bar Rock’n’Roll, um pé-sujo que agregava a nata dos maiores desocupados de Brasília (hoje, tristemente, desativado). Percebi, no entanto, que as flatulências sairiam mais facilmente do que as risadas.

“E aí, Vitinho, quais as novas?”, perguntei. “Soube que você anda meio desanimado na Índia. Que é isso, rapaz? Levante essa bola!” Ele riu, com a bola, de fato, meio murcha. Aí falou um pouco de sua vida por lá e contou uma ou outra história sobre as novas pesquisas no campo da alta costura. Ele não parava. “A melhor maneira de consertar o mundo é manualmente”, disse, olhando fixamente para mim.

Antes que eu pudesse emitir algum som, eis que surge, da carcomida tela de um televisor, pendurado na parede do bar e amarrado às entranhas de um pré-histórico vídeo cassete, os acordes de Crazy Little Thing Called Love, do Queen. Vitinho deixou escapar um sorriso no canto da boca, enquanto assistia aquelas desgastadas imagens que, de tão borradas, me davam a convicção de que quem segurava o microfone era Saddam Hussein. “Que foi, Vitinho?” Ele agora tinha um olhar enigmático. “Grande música!” “Sim, é mesmo”, concordei, querendo saber o que estava por trás daquilo.

“Isso não está passando aqui à toa”, disse, arregalando os olhos. “Você sabia que Freddie Mercury era indiano?”, perguntou, agarrando meus pulsos com força.  “Calma, rapaz. Não, não sabia desse fato impressionante”, respondi. “Quando Bob Geldof chamou o Queen para tocar no Live Aid (famoso festival que arrecadou milhões de jujubas e caixas de valium para Brian Wilson, em 1985), Freddie resistiu muito à ideia de ser associado à política (postura comum até hoje no meio musical, especialmente no atual rock de Brasília)”.


“Não sabia. Mas e daí?”, perguntei. “Como assim e daí, molóide? Freddie carregava a apatia no sangue. Pense no Maharishi. O mais próximo que chegou do ativismo político foi quando tentou, sem êxito, é verdade, faturar a irmã de Mia Farrow, Prudence. Ou Ravi Shankar: era dele aquela cítara enfiada goela abaixo de Paul McCartney pelo chapa George durante as sessões de Let It Be. Mas tirando isso…”

“Mas e o Gandhi?”, interrompi. “Ah, esse era um animal”, respondeu Vitinho. “O que??? O que é isso, Vitinho?” “Um animal político, você não me deixou completar. E veja onde aquele pacifismo e a Satyagraha (a busca pela verdade), o levaram… Tomou uma azeitona na orelha, e à queima roupa (Nota do moderador: cuidado ao pronunciar ou escrever essa palavra – mesmo com ‘y’ – na internet: você pode ser a próxima vítima do Estado policial. O toque é de Gilmar Mendes, injustiçado e beiçola quando provocado).


Em família. Da esquerda para a direita: dona Heloá, seu Di Paula, Vitinho das Neves e a irmã Lavínia. Embaixo, o irmão Flavinho Ferreira ensaia uma coreografia (no centro), ladeado pelo autor e outra coleguinha de hospício

Em família. Da esquerda para a direita: dona Eloá, seu Di Paula, Vitinho das Neves e a irmã Lavínia. Embaixo, o irmão Flavinho Ferreira ensaia uma coreografia (no centro), ladeado pelo autor e outra coleguinha de hospício

Não respondi. As coisas pareciam não fazer sentido, mas preferi não tecer comentários. Ponderei se Vitinho não estaria perto de um colapso nervoso, uma vez que ainda estava no primeiro copo de cerveja e não dizia coisa com coisa. Perto dele, naquele instante, eu e o irmão, Flavinho Ferreira, éramos o próprio espírito do bom senso, a balança da justiça, a expressão viva do equilíbrio, para usar as palavras de sua bela irmã, Lavínia.

Sem entender patavinas do que estava acontecendo, perguntei assim mesmo: “o que você pretende fazer, Vitinho?” “Só um homem é capaz de me ajudar”, respondeu. “Quem?”, quis saber. “Doc Brown?” Ele ficou impaciente. “Ora, que pergunta. É claro que estou falando de Mussum. Quero revisar e publicar tudo que eu escrevi dele, inclusive o inédito “Quero morrer pretis se eu estiver mentindo”. Acredito que poderei tranformar as bases das articulações políticas, tanto na Índia quanto no Brasil. Inclusive no que diz respeito à libertação de Madiba (Mandela para os chegados). Mas, antes, preciso desvincular meus estudos e a imagem dele daqueles tucanos larápios. Seu legado político não merecia esse aviltamento”. Tomei um susto. “É, Vitinho, até que a sua loucura ainda transpira alguma sanidade…”, pensei, olhando para meus velhos sapatos. Seu Di Paula já tinha motivos para se orgulhar do filho ensaísta.


Nota do moderador: por motivos de viagem e de doença (alô, influenza), este texto, iniciado por João Lêndea na semana passada, só pôde ser disponibilizado hoje, 29 de julho. Trata-se do aniversário de 15 anos da morte do inesquecível Mussum. Uma inacreditável coincidência ou um golpe do destino? …  Não sabemos. A ele, nossa humilde homenagem.