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Howie Casey: nos primórdios da beatlemania – 1

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Howie Casey na porta de sua casa em Bournemouth

Quando morei em Londres, entre uma andança e outra atrás de violões e discos de vinil, fiquei muito amigo de uma talentosa cantora de soul, Maureen Anderson. Numa de minhas voltas ao Reino Unido, no começo da década, fui até a casa de Maureen para uma visita. Falando casualmente sobre o quanto eu gostava dos Beatles e de como a música deles havia me contaminado de maneira irremediável, Maureen acabou me revelando que era amiga do “cara que recepcionou os Beatles em Hamburgo”, Howie Casey, até hoje muito amigo de Paul McCartney. Fiquei sem dormir durante alguns dias pensando em como estava a apenas um cara de conhecer o velho Paul. Por isso, tomei coragem e pedi que me apresentasse a Casey. Disse que queria entrevistá-lo.

Creio que em função da amizade entre eles, Howie topou me receber. Por e-mail, avisei o editor da revista Senhor F, Fernando Rosa. Achei que ele gostaria de colocar a entrevista em seu site. Para minha surpresa, ele ficou tão animado que achou melhor mandar a pauta para a revista Bizz. Falou com os editores, que demonstraram interesse. De minha parte, nem esperei confirmação: fui para a casa do saxofonista no dia combinado.

O que se seguiu não foi exatamente o esperado. Primeiro, estava claro que ele não iria me apresentar ao ex-baixista dos Beatles. Obviamente, também havia certa relutância em tocar no próprio assunto ‘Beatles. Sabendo que ele era alguém que conviveu com eles antes de fazerem sucesso, eu esperava que pudesse me contar alguma história bombástica. Mas sendo alguém tão próximo de Paul McCartney, Howie não abaixaria a guarda tão facilmente.

No fim, as coisas se equilibraram um pouco. Com alguma insistência, consegui que ele falasse sobre alguns assuntos que viraram tabu no círculo interno dos Beatles, como a saída de Pete Best e a prisão de Paul no Japão. A entrevista, gigantesca, acabou nunca indo parar nas páginas da Bizz. Para meu orgulho, foi manchete da Senhor F. Eu havia sugerido ao Fernando que desse uma editada e cortasse algumas partes, mas ele se recusou a fazê-lo. Como a entrevista não estava mais na rede, achei por bem recuperá-la, na íntegra, neste blog. Abaixo, temos a introdução e a primeira parte. O resto segue embaixo, em outros três blocos. Boa leitura.

Howie Casey (esquerda) e os Seniors: a caminho de Hamburgo

por Fernando B. Cruz

Hamburgo, 1960. No minúsculo palco de um fumacento e mal iluminado clube de striptease do bairro de Saint Pauli, quatro moleques ingleses se esforçam, desesperadamente, para chamar a atenção de dançarinas e marinheiros embriagados. Para isso, empunham guitarras e cantam, com empenho, músicas estranhas àquele público, números de rock’n’roll, uma espécie de blues mais acelerado. Em resposta, piadas, insultos e até cerveja são atirados ao palco com desdém. Uma demonstração de que os garotos não mereciam crédito. Afinal, quem poderia acreditar que aquele grupo de branquelos britânicos, recém-batizado de Beatles, teria qualquer chance de ao menos gravar um disco?

O saxofonista Howie Casey, do então chamado Derry & The Seniors, grupo conterrâneo e companheiro dos Beatles naqueles tempos de dureza e diversão, reconhece que a primeira vez que os viu, ainda em Liverpool, não achou que fossem bons. Mas não tardou até que mudasse de idéia. “Quando vi os Beatles tocando no Indra (em Hamburgo), percebi que haviam progredido 100% ou mais”, revela. Localizado pela reportagem de Senhor F na cidade onde mora atualmente, em Bournemouth, no sul da Inglaterra, Howie, hoje com 63 anos, foi testemunha ocular e pedra importante na sedimentação dos pilares nos quais o rock se estruturou a partir dos anos 60 na Grã-Bretanha.

Liderando a primeira banda de rock de Liverpool a gravar um disco e praticamente revelando aos alemães o estilo inglês de tocar – os Seniors também foram o primeiro grupo de Liverpool a se apresentar em Hamburgo, lugar que em pouco tempo se tornaria palco de uma vigorosa cena musical – Howie viu e sentiu na pele os efeitos provocados por aquele novo e frenético jeito de se fazer música. “Depois do estouro do rock’n’roll na América, a coisa se espalhou por Liverpool como fogo, mudando tudo radicalmente em menos de um ano. A molecada simplesmente pirou”, relembra.

Em entrevista exclusiva concedida a Senhor F, Howie Casey disseca seu passado e recupera memórias da história do rock, com a qual sua vida se confunde. Músico de talento, o saxofonista relembra o início da carreira em Hamburgo, a explosão da beatlemania e a descoberta e a paixão pelo soul. Revela também o privilégio de colaborar em discos de grupos da estatura do Who (Quadrophenia) e Wings (Band On The Run). Por fim, Casey entrega os  bastidores de histórias (agora) hilárias como a prisão de Paul McCartney no Japão e opina sobre assuntos polêmicos, a exemplo da saída de Pete Best dos Beatles. “Se ele (Best) era tão ruim, por que todas as bandas queriam tê-lo como baterista quando saiu dos Beatles?”. A seguir, a íntegra da entrevista, feita na sala de estar da casa do músico durante uma agradável de tarde de fim do outuno inglês, regada a chá preto e biscoitos.

Parte I:  O rock’n’roll incendeia Liverpool e os Beatles invadem Hamburgo

Capa do disco de Howie Casey & The Seniors

Senhor F – O que levou você  a ser um saxofonista?

Howie Casey – Quando eu era criança, o rock’n’roll ainda não havia acontecido, o que nós tínhamos de mais próximo era o blues e o jazz, do qual por sinal virei fã. A guitarra ainda não tinha a importância que passou a ter com a chegada de Chuck Berry, Bill Halley e Elvis. Um dia, eu e mais dois amigos resolvemos montar uma banda para conseguir algumas garotas. Era o grande lance: ter algum prestígio poderia facilitar nossa vida com as garotas! Quis ser baterista porque tinha um certo status na época, mas aí um dos caras falou “eu sou o batera!” Pensei então que poderia tentar o sax. Mas só passei a tocar mesmo quando servi o exército.

Senhor F – E como foi a transição para o rock’n’roll, quando você montou a sua banda?

Howie Casey – Eu montei a minha banda (Derry & The Seniors) no final de 59. A formação era eu no saxofone, Derry Wilkie nos vocais, Jeff Wallington na bateria, Billy Hughes, guitarra rítmica e vocais, Brian Griffiths na guitarra solo e Phil Whitehead no baixo. O que aconteceu foi que depois do estouro do rock’n’roll na América, a coisa se espalhou por Liverpool como fogo, mudando tudo radicalmente em menos de um ano. Nessa época (entre 59 e 60), a molecada simplesmente pirou, fazendo de tudo para aprender a tocar. Nada mais parecia importar.

Senhor F – A sua banda logo se destacou na cena, conseguindo apresentações e contatos. Como foi o encontro com Allan Williams e os Beatles?

Howie Casey – Allan Williams era o gerente de um café chamado Jacaranda e, mais tarde, do clube Blue Angel. Naquela época era um problema, a polícia costumava invadir os pubs por volta de 11 e meia da noite para verificar se ainda havia gente bebendo depois das últimas ordens. Eles colocavam papel celofane em volta dos copos de cerveja que ainda estivessem cheios depois do horário marcado, enrolavam um elástico em volta e pegavam aquilo para mostrar como “evidência”. Terrível (risos)! Então era complicado porque as pistas de dança fechavam entre 11 e meia e meia-noite, mas o bar fechava antes, 10 e meia. A maioria das pessoas enchia a cara para poder manter o pique até meia-noite. Mas, voltando ao Alan, no Blue Angel havia dois andares. No andar de cima, tinha um pianista e no de baixo, as bandas de rock. Um dia ele falou que conhecia um cara, Larry Parnes, que estava indo para Liverpool procurar bandas de apoio para participar de shows dos cantores dele. Os cantores tinham nomes como Dicky Pride, Duffy Power, era sempre Power, Pride, Gentle (Johnny Gentle, para quem os Beatles abriram shows na desastrosa primeira turnê que fizeram fora de Liverpool, na Escócia, ainda com o nome de Silver Beatles). Esses cantores apareciam na TV e a idéia dele era pegar bandas baratas de Liverpool e levá-las para lugares como Blackpool, não longe de Liverpool, no verão, para tocar. Os grupos tocariam quase de graça para abrir os shows. Ele promoveu uma audição no clube com várias bandas. Estavam lá o Big Three, a gente, Rory Storm, todos querendo o emprego. E havia uma banda nova, uns estudantes de arte que ninguém tinha visto e que conheciam o Allan. Eram o que viria a ser conhecido como os Beatles.

Senhor F – Não eram Beatles ainda, eram?

Howie Casey – Não, eram os Silver Beatles.

Estes moleques petulantes compareceram a uma audição sem baterista

Senhor F – É verdade que quando os viu pela primeira vez você achou que eles não eram bons?

Howie Casey – Bem, todo mundo conhece a história e ficou fácil falar “ah, você disse que os Beatles não eram bons, blá blá blá” (faz voz de quem está debochando). O fato é que… Já contei isso tantas vezes (risos)… Mas vamos colocar a coisa nestes termos, nós (os Seniors) não éramos exatamente profissionais, mas tínhamos mais experiência do que eles e a maioria das bandas. Os Beatles chegaram para a sessão sem baterista, estavam lá John, Paul, George e Stu (Stutcliff, amigo de John e baixista do grupo na época) e acho que eles pediram ao baterista do Big Three, um músico muito bom, um dos melhores de Liverpool, para tocar com eles. Ele topou dar uma força e, verdade seja dita, a presença dele fez com que eles soassem melhor do que eram de fato. A verdade é que eu não reparei muito neles, era apenas mais uma banda, estávamos todos interessados em conseguir o trabalho. Ao final da audição, Alan Williams nos disse que iríamos tocar. Os Beatles também foram chamados para tocar com Johnny Gentle. Mas por alguma razão o “nosso” cantor não estava no show! Então fomos ver Allan Williams, Derry e eu. A história ficou famosa porque ele disse que entramos lá para bater nele, o que é uma grande mentira, era o Allan sendo melodramático (Howie gargalha)! Está nos livros! Disse que eu cheguei com mãos de gigante – gigante, eu! (Howie tem pouco mais de 1,80), o levantei contra a parede e Derry o empurrou pela porta! Tudo conversa. Na importa, algumas pessoas gostam desse tipo de história. Mas fomos lá porque largamos nossos empregos e estávamos desesperados. E ele disse “não se preocupem, nós vamos para Londres”. Ele conseguiu dois carros e alguns dias depois, pegamos nossos amplificadores, o sax e fomos para lá. A idéia era tocar no Two Ice Coffee Bar, em Soho (Londres), um lugar famoso onde bandas tocavam durante o dia e à noite. Chegamos lá e nos sentimos meio estúpidos, tipo “o que vamos fazer lá? Vamos ser descobertos?” Allan conversou com o cara que gerenciava o lugar e ele, meio relutante, disse “ah, tudo bem, vamos deixar eles tocarem, mas não vão nos dar nenhum lucro”. A gente desceu, havia algumas pessoas e uma banda levando um som tipo Shadows, bem vestidos, com os movimentos de guitarra e tudo mais. A gente era só um bando de estúpidos e desajeitados garotos de Liverpool. Pensamos “que droga, eles vão rir na nossa cara”. Mas tocamos e foi tudo bem, Derry fez um bom trabalho, ele era bom para lidar com o público. Na platéia, estava Bruno Koschmider, dono do Kaiserkeller, em Hamburgo, e ele estava procurando por uma banda para substituir a banda de Tony Sheridan, que havia se mudado para um outro clube, o Top Ten. Na banda de Tony Sheridan, havia um cantor negro americano e naturalmente ele (Bruno) queria uma banda inglesa que tivesse um cantor negro para substituí-la. E, claro, lá estávamos nós com um cantor negro, tocando rock’n’roll. Bruno não falava inglês muito bem e a gente não sabia quase nada de alemão, então um cara que trabalhava num restaurante suíço do outro lado da rua e que sabia inglês nos ajudou com o contrato. Fechamos para ganhar 15 libras por semana cada um, o que não era de todo ruim.

Senhor F – Foi o seu primeiro show fora de Liverpool?

Howie Casey – Eu estive na Alemanha, na época em que servi, tocando na banda do exército. Nós fizemos algumas apresentações, mas nada parecido com aquilo. O engraçado de tudo é que a gente não tinha permissão para trabalhar, eles não arranjaram visto. Saímos de Liverpool para a Holanda e de lá pegamos um trem para Hamburgo. Quando o trem parou para o controle de passaporte, eles olharam para os instrumentos, olharam para a nossa cara e perguntaram o que a gente iria fazer lá. Respondemos: “somos turistas, mas trouxemos nossos instrumentos para curtir melhor a viagem”. E eles, “claro, claro. Todo mundo fora do trem (risos)!” A gente saiu, ficamos ali na plataforma, sem dinheiro, cansados da longa viagem e pensando no que fazer. Ligamos para o Kaiserkeller e, como era dia, é claro que estava fechado. Ligamos para o Alan, na Inglaterra, “Alan, eles vão mandar a gente de volta”. E o Alan, “fiquem aí mesmo, vou ligar para a casa do Bruno”. O Bruno tinha suas conexões, sabe como é, o cara era dono de clubes de striptease, não diria que era um mafioso, mas conhecia muita gente, tinha até amigos na polícia. Bruno falou “deixem eles entrar e eu vou conseguir os vistos de trabalho quando chegarem”. Pegamos outro trem e finalmente chegamos em Hamburgo. Mas, no final, nunca conseguimos os vistos! Tocamos em Hamburgo todo aquele tempo sem permissão (risos)!

Senhor F – Nenhuma das bandas que foram para Hamburgo tinha?

Howie Casey – Não. Quando saímos do Kaiserkeller e fomos convidados para o Top Ten, eles nos disseram “vocês precisam conseguir visto, vão à embaixada e acertem tudo”. Mas pelo fato de que estávamos tocando há uns três meses sem visto, não conseguimos. Quando chegamos lá tomaram nossos passaportes e disseram “vocês vão pra casa”. Simplesmente fomos deportados da Alemanha (risos)! Chegamos lá, uau, a primeira banda de rock de Liverpool na Alemanha e acabamos deportados!

Senhor F – Mas vocês voltaram depois.

Howie Casey – Eu voltei, mas não com os Seniors, com o Kingsize Taylor.

Senhor F – Qual era a grande diferença entre a cena de Hamburgo e de Liverpool?

Howie Casey – Bom, a garotada de lá  era bem descolada, tinham estilo, mas musicalmente, não havia muitas bandas de rock’n’roll. Havia uma boa banda que se aproximou da gente, chamada The Bats, mas eu não me lembro de ter visto muitas bandas alemãs. Tenho certeza de que havia músicos, mas não moleques formando bandas. Mais tarde, quando eu voltei para entrar no Kingsize, acho que em 1962, havia muitas outras bandas, como The Rattles. O negócio é que os grupos britânicas tinham a vantagem da língua, nós falamos a mesma língua dos americanos e, bem, eles também falam a mesma língua que nós falamos (risos) e isso fazia a diferença. Os garotos (alemães) sofreram uma forte influência de todas aquelas bandas britânicas, além das americanas, é claro, porque o Star Club costumava apresentar The Everly Brothers, Little Richard, Fats Domino, Jerry Lee Lewis, Ray Charles, Bo Dilley, grandes artistas americanos. E as bandas britânicas abriam os shows.

Senhor F – Quando os Beatles chegaram em Hamburgo, vocês já estavam tocando no Kaiserkeller. Como foi esse início, as jam sessions? O Stu participou de jams com o seu grupo nos intervalos, não?

Howie Casey – Os Beatles chegaram para tocar no Indra, que era um bar muito pequeno, na verdade um clube de streaptease. Havia um palco minúsculo no canto (aponta para o canto da parede da sala da casa, uma área de cerca de dois metros). Junto ao balcão, os alemães chegavam para tomar umas cervejas e ver os shows das dançarinas. E os caras colocaram os pobres dos Beatles naquele canto para tocar (risos).

Senhor F – O que acontecia por lá, além dos shows? Brigas e coisas do tipo? Imagino que não devia ser o tipo de lugar para o qual você levaria a sua mãe (risos)…

Howie Casey – Claro que não (risos)! O lugar existia para o sexo. Toda aquela área, (o bairro) St. Pauli, estava ligada à indústria do sexo. Tudo o que você quisesse, podia conseguir lá.

Senhor F – Isso inclui encrenca também.

Howie Casey – É claro, porque havia gangues em certas áreas e o Bruno Koschmider tinha gente trabalhando para ele no bar, gente que estava pronta para brigar. Ele era um cara poderoso naquela área, podemos dizer. E aqueles gangsters não brigavam com outros (gangsters), eles batiam nos clientes que não pagavam a conta. Era comum você ver gente pobre sentando e o garçom “uma cerveja?”, e antes que você se sentasse havia uma cerveja na mesa! Os preços eram altos e, claro, você tinha que pagar. E na Alemanha não se paga a cada cerveja consumida, a conta vem no final. Então, depois de um tempo, já bêbados, eles não aceitavam pagar porque achavam que era muito mais do que estavam esperando. Aí criavam caso. O próximo passo era (faz gesto de quem está esmurrando alguém) e o cara era chutado por todo o lugar. Do palco dava para ver a confusão. Eu me lembro de uma vez em que estava tocando e vi um cara apanhando de uns quatro ou cinco garçons. Eles o levaram para a gerência eu pensei, “que sacanas!” Tirei meu saxofone, entrei no escritório e eles estavam socando o cara em volta do quarto. Falei para pararem, eu, o “herói do dia”. Aí levei o cara para fora.

Senhor F – Isso foi no Kaiserkeller.

Howie Casey – Foi. E eles simplesmente olharam para mim e riram. Achavam aquilo muito engraçado, porque poderiam ter me enchido de porrada sem o menor problema, se quisessem. Mas aquilo era demais, muita covardia com o cara.

Senhor F – Se você não fosse músico contratado, provavelmente estaria em encrenca.

Howie Casey – Os músicos de Koschmider eram protegidos, essa era uma das leis, éramos intocáveis. Pelo que eu sei, pouquíssimos músicos apanharam. Mas sabendo disso, os músicos se comportavam mal porque estavam garantidos.

Ouça o som dos Seniors: http://www.youtube.com/watch?v=QCbUuBSz6U0

Howie Casey: nos primórdios da beatlemania 2

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Parte II: Stu Sutcliffe, a polêmica saída de Pete Best e o quase estouro dos Seniors

Tempos de dureza: os Beatles em Hamburgo, ainda com Pete Best e Stu Sutcliffe

Senhor F – Fale um pouco mais sobre as jams.

Howie Casey – Os Beatles encerravam mais cedo do que a gente no Indra, por volta de meia-noite ou uma da manhã e a gente ia pelo menos até as duas. Na verdade, dependia muito, se a casa estivesse cheia, tocávamos por mais tempo. Mas eles costumavam aparecer depois do Indra. Aí tocávamos, John, eu, Paul… quem estivesse por perto.

Senhor F – Vocês ficaram chegados?

Howie Casey – Sim, passamos a conhecê-los melhor. Eles eram mais novos, eu já havia servido o exército e eles eram da escola de arte, havia uma diferença de idade. Se estivesse vivo, John faria 60, eu vou fazer 64, então era coisa de três ou quatro anos. George tinha 16, 17 anos, foi até por causa disso que ele voltou pra casa (os Beatles foram deportados de Hamburgo antes de o guitarrista completar 18 anos). O fato é que eu não os conhecia direito em Liverpool, mas acabamos nos dando bem em Hamburgo. Existem umas histórias de que havia rivalidade entre as bandas, o que é uma grande bobagem. Havia competição, mas num nível normal.

Senhor F – Fale-me sobre Stu. O nível musical dele era muito baixo, não?

Howie Casey – A primeira vez que eu o vi tocando (na audição com Larry Parnes) ele realmente virou-se para a parede e ficou meio, hum (faz cara de quem está constrangido)… Mas, ao mesmo tempo, tinha um visual muito legal. Quando foi para Hamburgo, ele mesmo admitiu que estava longe de ser o músico da banda, os músicos eram John, Paul e George. Acho que no fundo ele sempre soube que aquilo não seria para ele… (em 1962, Stuart Sutcliffe morreu de hemorragia cerebral em Hamburgo, ao lado da namorada Astrid Kirchherr, menos de um ano antes de a banda gravar o primeiro compacto).

Senhor F – E quanto a Pete Best? Uma das alegadas razões pelas quais ele foi expulso da banda é que ele não era bom o suficiente.

Howie Casey – Bem, a gente costumava tocar bastante juntos e, pelo que eu sei, Pete era, pelo menos na época, suficientemente bom para tocar com os Beatles. Há muita coisa além dessa história… Ringo era mais espalhafatoso. Mas a verdade é que Pete Best era o beatle mais popular na época, as garotas simplesmente o amavam, ele era bonitão.

Senhor F – Você acha que foi a razão para tirarem ele?

Howie Casey – Quem sabe? Eu não era da banda. Houve rumores.

Senhor F – Ele não era um baterista de jazz, digamos assim, mas segurava.

Howie Casey – Era um baterista. Nosso baterista tocava melhor do que ele, o baterista do Big Three era melhor, havia alguns bateristas melhores do que ele, mas, comparado à  média dos bateristas da época ele era bom. A questão é: se ele era tão ruim, por que todas as bandas queriam tê-lo como baterista quando saiu dos Beatles? Porque ele era um trunfo, e não apenas porque era um baterista razoável, mas porque tinha um grande fã-clube pessoal, as pessoas gostavam dele, especialmente as garotas. Ele fazia um tipo meio James Dean. Mas eu não sei…

Senhor F – Quando você o viu tocando no Kaiserkeller, você o achou razoável.

Howie Casey – Claro. Aliás, a primeira vez que vi os Beatles no Indra, percebi que eles haviam progredido 100% ou mais em relação à época da audição. Estavam muito, muito melhores. Eu pensei “estão muito bons agora”. Voltando ao Stu, a razão pela qual ele tocou na minha banda foi porque Koschmider disse que não queria intervalos nos shows. A gente tocava 45 minutos, tinha um intervalo de 15 minutos, para então tocar mais 45. E assim ia. Eu não sei o que era, mas naquela época, na Alemanha, o público simplesmente sumia nos intervalos. A música parava, ligavam o jukebox e eles começavam a sair. E a gente, “ei, não acabamos, voltem!” Aí quando outras pessoas paravam na porta para dar uma olhada, o cara gritava “toquem, toquem!”, e começávamos a pular e a dançar. Aí eles entravam, “vamos dar uma olhada nesses idiotas ingleses”. O que o Bruno fez então foi dividir a minha banda ao meio para que a música não parasse. Claro que a gente não gostou. “Que? que merda”, foi a nossa reação. Mas não podíamos discutir porque queríamos ficar lá. Ele trouxe então um baterista alemão de jazz e a formação ficou Derry, Stu, eu e o Stan nos teclados. A outra banda era o resto dos Seniors, os dois guitarristas e o baterista. Então quando acabávamos, eles começavam imediatamente. A música não parava e os alemães acabavam ficando.

Senhor F – Vocês foram a primeira banda de Liverpool a assinar contrato com uma gravadora. Como foi isso?

Howie Casey – Bem, voltamos para Liverpool e mudamos a formação. Um outro vocalista se juntou à banda, passamos ter dois cantores, o pianista saiu e arranjamos outro baterista e baixista também.

Senhor F – Uma reforma geral.

Howie Casey – É, mais ou menos. O novo vocalista, Freddie Fowell, era ator, um cara mais velho, que havia participado de alguns filmes quando era jovem, como Violent Playground. Ele era muito bom, muito engraçado. Ele depois mudou o nome para Freddie Starr e hoje é um grande comediante na Grã-Bretanha, uma estrela. Mas voltando, o que aconteceu foi que o empresário dele conseguiu uma audição para ele tentar um contrato com a gravadora Phillips.

Senhor F – Isso foi em 62?

Howie Casey – Não, antes, 61. Aí o Freddie disse que não queria ir sozinho e sugeriu que a banda fosse junto. Fomos para o estúdio da gravadora em Marble Arch, em Londres e o produtor falou “vamos ver o que vocês podem fazer”. Estávamos suando muito, nervosos (risos), mas tocamos e eles disseram “ok, nós assinamos vocês”. Nunca perguntamos quanto ganharíamos, apenas dissemos “claro” (risos). Naquela época o twist estava em alta e o produtor nos disse para escrever material naquele estilo. Topamos, porque twist era apenas uma variação do rock’n’roll … Escrevemos então músicas “fáceis”, voltamos ao estúdio e gravamos ao vivo em uma tarde. Chegamos por volta de meio-dia, gravamos e voltamos para Liverpool no mesmo dia. O próximo passo foi mudar o nome da banda, eles queriam que mudássemos. Ainda era Derry & The Seniors, mas estávamos com dois vocalistas. Não poderia ser Derry, Freddie & The Seniors. Então eles disseram “Howie, você é o líder, a banda deveria se chamar de Howie Casey & The Seniors. “Tudo bem”, respondi. Foi legal, encheu o meu ego, mas os outros dois ficaram numa boa porque não significou preferência por um vocalista em detrimento do outro. O disco saiu e eu me lembro de ter ouvido uma das faixas, Double Twist, na rádio Luxemburg, a rádio pop da época. Era uma música de 100, 200 quilômetros por hora, ninguém podia dançar aquilo (risos)! Mas a sensação era “uau, estamos no caminho”.

Senhor F – A banda se separou no mesmo ano?

Howie Casey – O disco foi gravado em 61 e foi lançado em 62. O grupo acabou naquele ano. Mas antes de acabar, gravamos mais umas faixas. Gravamos uma música chamada Twist At The Top. O disco é chamado assim, mas não tem nenhuma música com esse título.

Senhor F – O que aconteceu? Por que vocês acabaram?

Howie Casey – Por uma série de coisas. A gravadora disse que a gente precisava de uma companhia para agenciar a banda, mas não conhecíamos ninguém em Londres. Arranjaram então um empresário para trabalhar para a banda em Londres. Mas o trabalho foi feito fora da Grande Londres, num lugar que eles chamaram de Twist At The Top. Era no topo de uma grande loja, tinha um clube chamado Room at the top, onde tocamos regularmente por cerca de um mês. Tocamos em outros lugares também no sul e no norte, Lancashire, País de Gales. À essa altura, a banda estava ótima, os shows eram fantásticos com os dois cantores, mas o que aconteceu foi uma coisa pessoal… Minha namorada ficou grávida. Naquela época, se você engravidasse alguém, tinha que casar. E foi o que eu fiz. E como ela estava grávida, não queria que eu ficasse ausente por muito tempo. Fiquei sem opção, precisava arrumar um emprego. Então eu disse ao pessoal que estava saindo do grupo. Os caras me ligavam direto, “Howie, estamos com ofertas para shows”, e eu, “não vai dar, preciso ficar para cuidar da minha mulher e do bebê”. Àquela altura, os Beatles tinham assinado com Brian Epstein para empresariá-los. Brian também estava assinando com o Big Three e Gerry & The Pacemakers. Aí eu recebi um telefone do DJ Bob Wooler: “Howie, Brian quer ter uma conversa com você sobre a banda”.

Senhor F – E o que aconteceu?

Howie Casey – E eu disse “a banda acabou, eu não posso, cara”. Grande idiota! Fui perceber que havia cometido um grande erro um ano depois e foi como eu voltei para a música. Eu estava trabalhando em um pequeno supermercado. Um dia me dei conta: “este sou eu?” Naquela época, todas as bandas que eu conhecia, os Beatles, Gerry, todos estavam tocando no rádio e eu trabalhando num supermercado. “Peraí, isso não está certo”, concluí. Aí recebi uma oferta do Kingsize Taylor para tocar no Starr Club (em Hamburgo) e disse para a minha mulher, “estou com essa oferta, vai ser dinheiro fixo, eu posso te mandar e tudo”. A verdade é que ela não estava nem aí e acabou topando. Voltei ao supermercado e falei “aqui estão as chaves, não virei na segunda, tchau”.

Senhor F – Foi o melhor a ser feito.

Howie Casey – Bem, eu poderia ser poderoso no setor de supermercados agora (risos)! Nunca se sabe! Então entrei para o Kingsize.

Senhor F – E como foi com o Kingsize?

Howie Casey – Nós nos conhecíamos de Liverpool, então foi fácil. Musicalmente era diferente, eles tinham mais cantores, eram quatro ou cinco. Faziam muita harmonia com a voz, o que era ótimo, algo completamente novo para mim. Enquanto os Seniors tinham como estilo Little Richard, eles estavam mais para Chucky Berry, Carl Perkins. Tocamos por um ano no Starr Club e abrimos para o Chucky Berry na primeira turnê que ele fez na Grã-Bretanha, lançamos um single, chamado Stupidity, fizemos apresentações na TV… Ter tocado com Chuck Berry foi uma coisa… Era “uau, estamos tocando com Chuck!” Depois, começamos a ter problemas de dinheiro, não estávamos recebendo o esperado. O dinheiro simplesmente não estava entrando. Na verdade, houve desentendimentos porque tinha gente recebendo mais do que devia e quem estava recebendo mais se recusou a dividir com os outros. Basicamente a banda foi gradualmente se dissolvendo. Àquela altura, era fácil sair de uma banda e entrar em outra.

Howie Casey: nos primórdios da beatlemania – 3

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Parte 3: o reencontro com Paul McCartney, Wings e a prisão do ex-beatle no Japão

Os metais dos Wings (sentido horário): Tony Dorsey, Howie Casey, Thaddeus Richard e Steve Howard

Senhor F – Foi quando você decidiu virar músico de estúdio?

Howie Casey – Bem, não se decide isso de uma hora para hora, foi algo que aconteceu, para a minha sorte. Eu voltei da Alemanha para a Inglaterra, entrei para uma banda de Birmigham e fomos tocar em Paris, Milão, várias cidades na Suíça, França. Já era outra coisa, estávamos tocando soul naquela época, tocamos até 1969, quando minha segunda mulher ficou grávida. Eu sou bom nisso (risos)! Era uma boa banda que nos rendeu muito, mas que acabou também. De volta à Inglaterra, me mudei para Londres e comecei a fazer sessões de estúdio. Aí ficou fácil porque conheci muita gente, as pessoas me viam tocando e faziam os convites.

Senhor F – Como você viu todas aquelas mudanças na segunda metade dos anos 60, a cena mod, a psicodelia, os Beatles fazendo Sgt. Peppers…

Howie Casey – Foram grandes mudanças, mas acho que tudo depende muito do tipo de música que você gosta. Os Beatles começaram a mudar as coisas, com o Sgt. Peppers…

Senhor F – Mas você não se envolveu muito…

Howie Casey – Com os Beatles? Não, havíamos perdido contato. Eu costumava vê-los de tempos em tempos e era sempre “como vai?”, mas não tocávamos mais juntos. Na verdade eu sempre gostei muito da música negra americana, primeiro com o início do rock’n’roll, o blues. Depois, no meio dos anos 60, com o surgimento da soul music, eu pirei. Me identifiquei profundamente com aquilo. Você tem grandes cantores, os metais… Eu gostava do que os Beatles estavam fazendo, gostava dos mods também, mas aquilo se tornou a minha música, o que eu queria tocar. Sempre foi, de uma certa maneira. Todas as bandas que eu tive era um pouco isso, cantores negros, os instrumentos de sopro, minha ex-mulher também era uma cantora de soul… Quando eu voltei para a Inglaterra eu entrei para outra banda, liderada por Roy Young, muito conhecido na cena rock’n’roll dos nos 50. Era a resposta britânica para Little Richard. Até hoje ele canta como Little Richard, toda aquelas notas altas… A banda era fantástica e me abriu muitas portas como músico de estúdio, porque muita gente ia nos assistir, como o produtor Tony Viscontti. Ele me convidou para várias sessões de estúdio. Nos anos 70, Tony estava co-produzindo Band On The Run para os Wings e ele disse ao Paul “conheço um dos saxofonistas que pode tocar no álbum, Howie Casey”.  A reação do Paul foi: “Howie Casey, você está brincando?” Me chamaram na hora.

Senhor F – Então não foi o Paul quem o chamou?

Howie Casey – Não, foi o Tony, porque àquela altura havíamos perdido completamente o contato. É, porque os Beatles eram famosos demais, era outro estilo de vida… Eu estava apenas trabalhando como músico. Toquei em Jet e Band on the Run. Quando acabamos a sessão, Paul disse aos músicos de estúdio: “valeu, pessoal. Howie, você poderia ficar para mais umas sessões?” Respondi que sim, fui até meio blasé, porque já estava acostumado a sessões de estúdio. Gravamos, recebi meu pagamento, 30 libras, e o disco vendeu seis milhões de cópias de cara.

Senhor F – O disco virou um clássico.

Howie Casey – Sim. Depois, decidiram fazer a turnê, quando eu me separei da minha segunda mulher. Me ligaram do escritório do Paul, MPL, perguntando se eu gostaria de participar. E eu “deixe-me ver…” Topei na hora (risos).

Senhor F – Você achava fácil trabalhar com ele?

Howie Casey – Sim. O disco Band On The Run não foi difícil de fazer, musicalmente falando e o Paul é o tipo de músico que sabe o que quer. Ele não escreve partituras, então costumava sentar ao piano e dizer “quero essa melodia para o sax, essa para o trompete…” Em Silly Love Songs, por exemplo, ele fez isso. Ou então ele cantarolava o trecho do solo. É um cara muito talentoso. Mas aceita sugestões dos músicos, é aberto.

Senhor F – E a turnê?

Howie Casey – Fizemos duas, sendo que a segunda terminou num desastre completo.

Senhor F – Como foi isso?

Howie Casey – Bem, o Paul foi preso no Japão. Estávamos todos reunidos no hotel, encontramos outros músicos que tinham ido para as apresentações, acho que um trompetista e outro saxofonista. Ficamos ali, conversando e bebendo, “turnê nova, que bacana!” De repente um dos empresários do escritório entra com uma cara… E todo mundo “e aí, como vai?” E ele, “Paul foi preso (risos)!” E a gente, “claro, claro (mais risos)!”, porque a gente costumava fazer piadas uns com os outros o tempo todo. Pensamos que era mais uma.

Senhor F – Era uma boa piada…

Howie Casey – É, só que não era! Ele havia ido com Linda e as crianças separadamente. A história é que já haviam inclusive cancelado uma turnê japonesa anos antes por causa disso, as autoridades japonesas disseram que ele não podia tocar lá por causa de problemas com drogas. Então na segunda vez houve uma série de articulações com os políticos para fazer a coisa andar. Quando eles chegaram, foram recepcionados e tudo, “seja bem-vindo senhor McCartney, esperamos que os shows sejam um sucesso”. Apenas por formalidade, escolheram uma das malas dele para abrir. E qual era? Justamente a que continha bagulho! E era um saco imenso! Me disseram que, se eles quisessem, poderiam conseguir aquilo no Japão em vez de trazer de fora… Se tivessem olhado outra mala, nada teria acontecido, mas com aquele saco de maconha… Não havia nada que pudessem fazer. E estava na parte de cima da mala, eles poderiam ter colocado nos fundos, mas não. Devem ter fumado e simplesmente colocaram o saco de volta. Um desastre (risos)! Paul assumiu a culpa e foi preso. Todos ficaram apavorados, estavam falando que ele poderia ficar preso por anos, coisas desse tipo. E tudo que nós podíamos fazer era sentar e esperar. Pelo que eu me lembro ele ficou preso uns dez dias. Ficávamos no hotel, bebendo e esperando as novidades. Gente de influência foi acionada para ajudá-lo, como o senador Edward Kennedy – Paul é muito popular, conhece muita gente – e tentar fazer o governo japonês liberá-lo. Na prisão, deram permissão para ele ter um violão e só. Ele ficou com uns japoneses, não havia cadeiras, todos ficavam agachados! A comida era apenas arroz e eles a serviam assim (faz gesto de quem põe um prato no chão). Até que conseguiram que fosse deportado. A polícia o levou e ele foi colocado na classe econômica de um vôo. É claro que quando as portas se fecharam ele foi colocado na primeira classe (risos)! Acho que o episódio o deixou um pouco traumatizado. Você pode imaginar, toda aquela coisa da sociedade japonesa sobre honra…Para eles é muito importante. A verdade é que Paul teve sorte, de uma certa maneira, porque poderia ter ficado preso por muito tempo.

Senhor F – E esse foi o fim da turnê.

Howie Casey – Acho que sim, não me lembro bem. Tínhamos 11 datas no Japão e não fizemos nenhuma. Mas todos os músicos receberam seus cachês.


Howie Casey: nos primórdios da beatlemania – 4

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Parte IV: Rockestra e The Who

À frente da Rockestra, Paul McCartney, ao lado de Pete Townshend; ao fundo, Howie Casey (o segundo, sentido horário)

Senhor F – Você tocou na Rockestra, projeto de Paul McCartney, com John Paul Jones, Pete Townshend, entre outros. Como foi trabalhar com eles, em especial com o Who?

Howie Casey – Foi muito divertido ter participado da Rockestra com todos aqueles músicos… Com o Who, bem, eu toquei algumas músicas do filme Quadrophenia. O engraçado é que nunca vi o filme (risos). Antes disso, eu toquei num álbum solo do baixista John Entwistle, chamado Mad Dog – In Loving Memory Of Rock´n’Roll. Acabei viajando com o Who em algumas turnês pelo Estados Unidos, mas tive que sair da banda porque fui chamado para fazer a segunda turnê mundial do Paul McCartney. É claro que Pete Townshend não ficou muito contente com a notícia (risos).

Senhor F – O que ele disse?

Howie Casey – Eu disse “Olha, Pete, eu vou ter que ir tocar com o Paul, você sabe…” E ele, “sim, claro” (faz cara de irritação)… Falei a ele, “pode deixar, vou colocar um grande saxofonista no meu lugar”. Indiquei o cara que tocou no The Dark Side Of The Moon, do Pink Floyd, Dick Parry. Dick e eu nos conhecíamos de longa data, costumávamos trabalhar bastante juntos. Mas quando acabou a turnê do Paul, eles não me deram o emprego de volta (gargalhadas)!

Senhor F – Você pediu?

Howie Casey – Pedi! E aí Dick falou “É, cara, eles ficaram meio revoltados porque você foi com o McCartney e agora querem que eu fique (risos)!

Senhor F – Pete Townshend não parece ser um cara muito fácil.

Howie Casey – Não, ele é um cara muito bacana, tranqüilo, com quem eu gostei muito de trabalhar. Tem um ótimo senso de humor.

Senhor F – Você tocou com os maiores nomes da história do rock. Que artistas e bandas você gostou mais de trabalhar e se relacionar, pessoal e profissionalmente?

Howie Casey – Poxa, é difícil, toquei com tanta gente… São diferentes períodos da sua vida, você muda de idéia o tempo todo… Eu diria que todos foram bons de uma maneira ou de outra. Nunca gostei de coisas tipo, “Ah, ele é o melhor saxofonista do mundo, o melhor cantor do mundo”. Isso é errado porque não se pode julgar esse tipo de coisa e tudo depende de gosto pessoal.

Senhor F – Concordo. Mas o que você gostou de ter feito, independente de qualidade?

Howie Casey – As coisas que eu adorei fazer: The Seniors, minha primeira banda, porque era tudo muito divertido. Não éramos os maiores músicos do mundo, mas foi ótimo ter tocado com eles; Depois podemos pular para a banda que eu tive quando comecei a tocar soul, The Crew, uma grande banda; A banda de Roy Young era brilhante também; É óbvio que os Wings estão incluídos nesta lista; The Who, porque era algo totalmente diferente, incluindo o perigo de ficar surdo (risos); A banda Paice, Ashton and Lord (conhecida pela sigla PAL), que era fantástica: Jon Lord, músico maravilhoso (mais famoso por seu trabalho no Deep Purple), Ian Paice, grande baterista (idem) e Tony Ashton, um cara divertidíssimo e muito talentoso. Essa foi provavelmente uma das melhores bandas, musicalmente falando. Experimentavam muito e o melhor era que o espaço estava sempre aberto aos outros músicos. Sempre podíamos chegar e dizer “acho que deveríamos fazer desse jeito”. Geralmente eles acatavam numa boa, era ótimo, você sentia que estava contribuindo. Muito legal. Com a banda de Roy Young foi a mesma coisa. Quando me juntei à banda, no começo dos anos 70, comecei a ajudar na composição do material para os álbuns e foi um período muito rico.

Senhor F – Com quem você está tocando hoje?

Howie Casey – Tenho minha própria banda, Howie Casey’s All Stars. São músicos que vivem perto da minha área. Tocamos pela Inglaterra em teatros e casas noturnas e tem sido legal, porque a banda é muito boa. Semana passada, tocamos em Londres, voltando ao Paul MacCartney de novo, num evento relacionado ao Buddy Holly. Como ele (Paul) possui os direitos autorais das músicas de Buddy, todos os anos eles fazem uma noite dedicada a ele. Várias celebridades comparecem ao evento, imprensa, integrantes de bandas… Neste ano eu não sabia que ia tocar. Me ligaram do escritório do Paul e perguntaram se eu poderia trazer o sax. Normalmente eu não levo, apenas vou e me divirto, tomo uns drinques… Mas topei. Tem uma coisa engraçada nessa história. Anunciaram meu nome e subi ao palco para tocar. Ouvi gritos na frente do palco, e havia uma luz enorme na minha cara, de modo que eu não conseguia ver nada. De repente surge essa figura do meio da plateia e vem para a frente do palco, na minha frente, assim (faz um gesto de quem está reverenciando, agachado), Foi aí que eu vi que era o Paul… Quando eu saí do palco, ele continuou atrás de mim, gritando Howie, Howie! Uma figura. Então ele me apresentou a namorada, Heather, que toca saxofone, e me perguntou se eu poderia dar a ela lições de sax (Howie também é professor do instrumento). Ela toca, lê música, mas quer se aprofundar. Acho que vou dar as aulas.

Senhor F – Você toca jazz, participa de jams?

Howie Casey – Sim, participo de jam sessions aqui mesmo. Mas sendo músico, é meio complicado ganhar dinheiro fazendo apenas isso. Mas sempre estou tocando jazz, é uma coisa que está sempre presente. Sempre pratico com discos de jazz, eu toco todos os dias.

Senhor F – Última pergunta: você acompanha a atual cena de rock na Inglaterra, ou mesmo nos Estados Unidos?

Howie Casey – É meio complicado dizer, eu devo confessar que fiquei meio preguiçoso nesse sentido. Acho que chega um ponto na vida em que você não pode saber de tudo o que está acontecendo na cena musical, mas de vez em quando até ouço. Não saio mais por aí comprando discos de tudo que sai. Acho que muito dos músicos mais velhos têm essa tendência de criticar os mais novos porque “não são tão bons como no meu tempo” e coisas do tipo, o que não é justo, na verdade. Não podemos esquecer que há excelentes novos músicos de jazz na Inglaterra, nos Estados Unidos, Brasil…

Senhor F – Você conhece música brasileira?

Howie Casey – Conheço pouco. Gosto de bossa nova, tenho alguns discos do Tom Jobim.