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Reminiscências de Vitinho das Neves Brasil: a bola da vez!

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Brasil: ponta de lança no setor de serviços?

Otimistas de plantão não se cansam da cantilena de que o Brasil é a bola da vez. Diante do esfacelamento do cenário econômico mundial, desde a crise que jogou na lama a confiança cega na mão invisível do Dr. Smith, o País fortaleceu suas reservas internacionais e aprimorou os fundamentos da economia. Ao mesmo tempo, continuou gerando empregos. “O Brasil está bombando” tornou-se um mantra mais poderoso que o refrão de My Sweet Lord. Há quem discorde. Segundo a turma do “deixa dilson, Bresser”, as taxas de crescimento dos últimos dois anos flagraram o gigante desfilando com algo “meia bomba” nas mãos.

Vital das Neves não joga nesse time. É desses nós cegos que amam entoar “O que é, O que é”, de Gonzaguinha, nas mesas de bar, e se emocionam assistindo aos jogos do Boca Junior em nome da Cooperação Sul-Sul. Ávido por um bom embate político, Vitinho sonhava com a hora de voltar à Brasília e esfregar na cara de seus amigos de infância – hoje todos demistas – um fato: o Brasil não só é a bola da vez, como também a ponta de lança do setor de serviços.

No início de abril, Vitinho finalmente desembarcou na capital, onde cedeu aos apelos de sua disposição insaciável para ingerir generosas porções de sebo de carne. Ele aprendera a lição com o russo Tulik: se não entupir, imediatamente, ao menos duas artérias e não gerar mornas flatulências, não se pode afirmar com segurança que a iguaria – no caso, sebo de paca – é saborosa.

Das Neves decidiu começar pelo Cachorro que Rosna – templo da alta gastronomia brasiliense – e saborear um espetinho de tatu petrificado. Convencido pelo irmão, o ortodoxo Flavinho Ferreira, acabou numa das novas hamburguerias da cidade, a Miolo Mole, no Pier 21.

Alertado por Ferreira, Vitinho não deu muita bola aos boatos sobre a qualidade do atendimento nos bares e restaurantes de Brasília.

“As coisas mudaram muito, Vitinho. Aqui, empresários inauguram restaurantes com a mesma devoção com que atiram pela latrina a já pífia qualidade do serviço.”

“Falou bonito! Aprendeste a ler, Flavinho! Fico feliz. Mas isso é balela, rapaz. Fui criado nessa cidade. Aqui, sempre sou tratado como se estivesse em casa.”

Na verdade, Vitinho confiava nos dividendos de seu trabalho sobre o pensador Mussum, cuja abrangência sócio-política rendeu elogios de discípulos do saudoso Celso Furtado, como Maria da Conceição Tavares. Isso atraiu alguma fama e certa inveja entre pelegos do sindicalismo local.

“Além disso”, prosseguiu, “o Brasil é referência no cenário internacional. Vamos mostrar como receber esses gringos na Copa de 2014!”.

Flavinho, que vinha desenvolvendo uma personalidade cicloide semelhante à do proprietário do maravilhoso Britan Bar, o pé sujo Bar do Zé, no Rio de Janeiro (tema de futuro texto neste espaço), não titubeou:

“Isso não tem nada a ver com alfabetização, criatura abjeta. Aponto um fato. E não me recordo de nossa mãe escarrando no nosso misto quente. Quanto ao Brasil, você está febril. Até meu cachorro discorda da condução da política econômica. O Brasil está travado! O ano que vem será um desastre!”, berrou Flavinho, a plenos pulmões, atraindo olhares na porta da lanchonete.

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Em Brasília, a gentileza no atendimento vem em primeiro lugar

Das Neves sabia que a paciência de Ferreira era mais frágil que o novo técnico do Flamengo. Percebeu também que a exposição, pelo irmão, de suas tendências desenvolvimentistas, o deixaria vulnerável a ataques de radicais neoliberais. Eles estavam em pleno Pier 21, um território hostil para Vitinho. Por isso, fingiu que não entendeu e deu de ombros, rezando para que Flavinho não irrompesse em um ataque de fúria.

Na hamburgueria, o garçom chegou e surpreendeu-se com a rapidez de Flavinho Ferreira ao fazer o pedido, com orientações específicas:

“Dois hambúrgueres de tripa de mico, por favor. No meu caso, apenas gostaria de pedir que a maionese não venha no sanduíche. Acrescente um ovo encharcado de óleo, por obséquio, e traga dois palitos para que eu possa higienizar meus dentes com dignidade.”

Passados 40 minutos, o garçom chegou com os sanduíches. Em um terceiro prato, havia um ovo mergulhado em uma poça de gordura.

“O que é isso?”, perguntou um impaciente Flavinho.

“Me parece um ovo, encharcado em banha de porco, como o senhor pediu.”

“Mas não pedi o ovo fora do sanduíche.”

“Pediu sim, senhor. Está aqui, anotado…”

Flavinho acionou o triturador de ouvidos, ou seja, a própria matraca:

“Meu jovem incauto, eu pedi que a maionese viesse à parte, o que não aconteceu. Aí, me deparo com esse ovo solitário. Será que deixaram o ovo solto na esperança de que irá metamorfosear-se numa galinha para ajudar no atendimento?”

“Olha, seu malcriado…”, balbuciou o garçom, cabisbaixo, a voz trêmula.

Sem aviso prévio, o surto psicótico deu sinais de arrefecimento. Flavinho se acalmou:

“Por favor, o senhor poderia colocar de volta esse ovo no sanduíche e trazer a maionese fora dele?”

“O senhor quer uma porção de maionese?”

“Por obséquio.”

Vitinho nem piscava. Alheio à confusão do irmão, abocanhava com prazer o sanduíche, os olhos vidrados, enquanto pedaços de tripa de mico escorriam de seus lábios melados de gordura.

O prato de Flávinho enfim chegou. Ele comeu o sanduíche de modo pausado, observando-o com seriedade. Era de uma metodologia acadêmica. Outros 40 minutos depois, o garçom chegou com a conta. Flavinho arregalou os olhos:

“Dez reais por uma porção de maionese? Que é parte do sanduíche?”

“Lamento, mas o senhor afirmou que gostaria de uma porção de maionese. Perguntei para ter certeza.”

“Sim! A que eu tinha direito! Só que fora do sanduíche! Chame o gerente, por favor.”

O gerente se aproximou.

“Que negócio é esse de cobrar por essa maionese verde catarro que vem no sanduíche?”, inquiriu Flavinho.

“Senhor, abaixe o tom de voz. Esse é um restaurante de família. O senhor pediu ou não pediu a maionese?”

Flavinho repetiu a historieta do ovo perdido no prato e da maionese no pote.

“Lamento, senhor. Mas a maionese será cobrada e os senhores irão pagar por ela. Se recusarem, serei obrigado a chamar o Souza.”

“Mas quem é esse Souza, pelo amor de Santo Cristo???”

“Chega de conversa. Os senhores já causaram muito transtorno. Nosso garçom foi visto chorando na cozinha após sua interferência.”

“Interferência?? Isso é jeito de você falar?”

“Interferência em nosso ambiente de paz e prosperidade. E agora os senhores irão pagar caro. Souza, venha cá. Esses delinquentes abusaram da nossa boa vontade. Certifique-se do pagamento da conta e coloque esses vigaristas na rua.”

Vitinho revirou os olhos, incrédulo. Paz e prosperidade??!? Seria uma pegadinha?  Pensou na possibilidade de aquilo ser um ataque sob encomenda, uma retaliação por sua vibrante luta política por mais lustro na careca de José Serra. Foi interrompido quando o corpulento chefe de cozinha o agarrou pela gola.

– Os senhores pediram ou não pediram maionese?

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Souza, Vitinho das Neves e a hora da verdade: “o Sr.pediu ou não pediu maionese?”

Antes que pudesse responder, Vitinho já estava com a cara no chão, o nariz roçando as escavadeiras que partiam dos dedos do pé direito de Souza, enfiado em um velho chinelo de couro.

Com o pé sobre a cabeça de Vitinho, Souza não teve dificuldade em sacudir o diminuto Flavinho e abrir sua carteira. Depois de tirar R$ 80,00 de dentro, deu-lhe um soco na boca do estômago e arremessou os dois para fora do estabelecimento sem muita dificuldade.

“Pagamos 80 pratas por uma conta de 40…”, balbuciou Flavinho, ajoelhado no chão, as mãos sobre a barriga.

“O extra fica por conta dos danos morais”, informou Souza. “Os tempos são outros, a Copa do Mundo está aí e não podemos mais nos dar ao luxo de atender clientes que não sabem como tratar os proprietários. O Brasil é a bola da vez no novo tabuleiro da geopolítica mundial.”

Ainda esbaforido em função do cruzado desferido por Souza, Flavinho virou-se para Vitinho das Neves, que estava deitado no chão, ajeitando a rala cabeleira:

“E agora, você ainda acha que vamos arrebentar na Copa do ano que vem?”

Vitinho sentou na calçada, sacudiu a poeira da roupa e sorriu:

“Claro, meu jovem. E é bom que os hooligans ingleses se comportem ou terão de se ver com o Souza.”

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