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Reminiscências de Vitinho das Neves Brasil: a bola da vez!

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Brasil: ponta de lança no setor de serviços?

Otimistas de plantão não se cansam da cantilena de que o Brasil é a bola da vez. Diante do esfacelamento do cenário econômico mundial, desde a crise que jogou na lama a confiança cega na mão invisível do Dr. Smith, o País fortaleceu suas reservas internacionais e aprimorou os fundamentos da economia. Ao mesmo tempo, continuou gerando empregos. “O Brasil está bombando” tornou-se um mantra mais poderoso que o refrão de My Sweet Lord. Há quem discorde. Segundo a turma do “deixa dilson, Bresser”, as taxas de crescimento dos últimos dois anos flagraram o gigante desfilando com algo “meia bomba” nas mãos.

Vital das Neves não joga nesse time. É desses nós cegos que amam entoar “O que é, O que é”, de Gonzaguinha, nas mesas de bar, e se emocionam assistindo aos jogos do Boca Junior em nome da Cooperação Sul-Sul. Ávido por um bom embate político, Vitinho sonhava com a hora de voltar à Brasília e esfregar na cara de seus amigos de infância – hoje todos demistas – um fato: o Brasil não só é a bola da vez, como também a ponta de lança do setor de serviços.

No início de abril, Vitinho finalmente desembarcou na capital, onde cedeu aos apelos de sua disposição insaciável para ingerir generosas porções de sebo de carne. Ele aprendera a lição com o russo Tulik: se não entupir, imediatamente, ao menos duas artérias e não gerar mornas flatulências, não se pode afirmar com segurança que a iguaria – no caso, sebo de paca – é saborosa.

Das Neves decidiu começar pelo Cachorro que Rosna – templo da alta gastronomia brasiliense – e saborear um espetinho de tatu petrificado. Convencido pelo irmão, o ortodoxo Flavinho Ferreira, acabou numa das novas hamburguerias da cidade, a Miolo Mole, no Pier 21.

Alertado por Ferreira, Vitinho não deu muita bola aos boatos sobre a qualidade do atendimento nos bares e restaurantes de Brasília.

“As coisas mudaram muito, Vitinho. Aqui, empresários inauguram restaurantes com a mesma devoção com que atiram pela latrina a já pífia qualidade do serviço.”

“Falou bonito! Aprendeste a ler, Flavinho! Fico feliz. Mas isso é balela, rapaz. Fui criado nessa cidade. Aqui, sempre sou tratado como se estivesse em casa.”

Na verdade, Vitinho confiava nos dividendos de seu trabalho sobre o pensador Mussum, cuja abrangência sócio-política rendeu elogios de discípulos do saudoso Celso Furtado, como Maria da Conceição Tavares. Isso atraiu alguma fama e certa inveja entre pelegos do sindicalismo local.

“Além disso”, prosseguiu, “o Brasil é referência no cenário internacional. Vamos mostrar como receber esses gringos na Copa de 2014!”.

Flavinho, que vinha desenvolvendo uma personalidade cicloide semelhante à do proprietário do maravilhoso Britan Bar, o pé sujo Bar do Zé, no Rio de Janeiro (tema de futuro texto neste espaço), não titubeou:

“Isso não tem nada a ver com alfabetização, criatura abjeta. Aponto um fato. E não me recordo de nossa mãe escarrando no nosso misto quente. Quanto ao Brasil, você está febril. Até meu cachorro discorda da condução da política econômica. O Brasil está travado! O ano que vem será um desastre!”, berrou Flavinho, a plenos pulmões, atraindo olhares na porta da lanchonete.

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Em Brasília, a gentileza no atendimento vem em primeiro lugar

Das Neves sabia que a paciência de Ferreira era mais frágil que o novo técnico do Flamengo. Percebeu também que a exposição, pelo irmão, de suas tendências desenvolvimentistas, o deixaria vulnerável a ataques de radicais neoliberais. Eles estavam em pleno Pier 21, um território hostil para Vitinho. Por isso, fingiu que não entendeu e deu de ombros, rezando para que Flavinho não irrompesse em um ataque de fúria.

Na hamburgueria, o garçom chegou e surpreendeu-se com a rapidez de Flavinho Ferreira ao fazer o pedido, com orientações específicas:

“Dois hambúrgueres de tripa de mico, por favor. No meu caso, apenas gostaria de pedir que a maionese não venha no sanduíche. Acrescente um ovo encharcado de óleo, por obséquio, e traga dois palitos para que eu possa higienizar meus dentes com dignidade.”

Passados 40 minutos, o garçom chegou com os sanduíches. Em um terceiro prato, havia um ovo mergulhado em uma poça de gordura.

“O que é isso?”, perguntou um impaciente Flavinho.

“Me parece um ovo, encharcado em banha de porco, como o senhor pediu.”

“Mas não pedi o ovo fora do sanduíche.”

“Pediu sim, senhor. Está aqui, anotado…”

Flavinho acionou o triturador de ouvidos, ou seja, a própria matraca:

“Meu jovem incauto, eu pedi que a maionese viesse à parte, o que não aconteceu. Aí, me deparo com esse ovo solitário. Será que deixaram o ovo solto na esperança de que irá metamorfosear-se numa galinha para ajudar no atendimento?”

“Olha, seu malcriado…”, balbuciou o garçom, cabisbaixo, a voz trêmula.

Sem aviso prévio, o surto psicótico deu sinais de arrefecimento. Flavinho se acalmou:

“Por favor, o senhor poderia colocar de volta esse ovo no sanduíche e trazer a maionese fora dele?”

“O senhor quer uma porção de maionese?”

“Por obséquio.”

Vitinho nem piscava. Alheio à confusão do irmão, abocanhava com prazer o sanduíche, os olhos vidrados, enquanto pedaços de tripa de mico escorriam de seus lábios melados de gordura.

O prato de Flávinho enfim chegou. Ele comeu o sanduíche de modo pausado, observando-o com seriedade. Era de uma metodologia acadêmica. Outros 40 minutos depois, o garçom chegou com a conta. Flavinho arregalou os olhos:

“Dez reais por uma porção de maionese? Que é parte do sanduíche?”

“Lamento, mas o senhor afirmou que gostaria de uma porção de maionese. Perguntei para ter certeza.”

“Sim! A que eu tinha direito! Só que fora do sanduíche! Chame o gerente, por favor.”

O gerente se aproximou.

“Que negócio é esse de cobrar por essa maionese verde catarro que vem no sanduíche?”, inquiriu Flavinho.

“Senhor, abaixe o tom de voz. Esse é um restaurante de família. O senhor pediu ou não pediu a maionese?”

Flavinho repetiu a historieta do ovo perdido no prato e da maionese no pote.

“Lamento, senhor. Mas a maionese será cobrada e os senhores irão pagar por ela. Se recusarem, serei obrigado a chamar o Souza.”

“Mas quem é esse Souza, pelo amor de Santo Cristo???”

“Chega de conversa. Os senhores já causaram muito transtorno. Nosso garçom foi visto chorando na cozinha após sua interferência.”

“Interferência?? Isso é jeito de você falar?”

“Interferência em nosso ambiente de paz e prosperidade. E agora os senhores irão pagar caro. Souza, venha cá. Esses delinquentes abusaram da nossa boa vontade. Certifique-se do pagamento da conta e coloque esses vigaristas na rua.”

Vitinho revirou os olhos, incrédulo. Paz e prosperidade??!? Seria uma pegadinha?  Pensou na possibilidade de aquilo ser um ataque sob encomenda, uma retaliação por sua vibrante luta política por mais lustro na careca de José Serra. Foi interrompido quando o corpulento chefe de cozinha o agarrou pela gola.

– Os senhores pediram ou não pediram maionese?

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Souza, Vitinho das Neves e a hora da verdade: “o Sr.pediu ou não pediu maionese?”

Antes que pudesse responder, Vitinho já estava com a cara no chão, o nariz roçando as escavadeiras que partiam dos dedos do pé direito de Souza, enfiado em um velho chinelo de couro.

Com o pé sobre a cabeça de Vitinho, Souza não teve dificuldade em sacudir o diminuto Flavinho e abrir sua carteira. Depois de tirar R$ 80,00 de dentro, deu-lhe um soco na boca do estômago e arremessou os dois para fora do estabelecimento sem muita dificuldade.

“Pagamos 80 pratas por uma conta de 40…”, balbuciou Flavinho, ajoelhado no chão, as mãos sobre a barriga.

“O extra fica por conta dos danos morais”, informou Souza. “Os tempos são outros, a Copa do Mundo está aí e não podemos mais nos dar ao luxo de atender clientes que não sabem como tratar os proprietários. O Brasil é a bola da vez no novo tabuleiro da geopolítica mundial.”

Ainda esbaforido em função do cruzado desferido por Souza, Flavinho virou-se para Vitinho das Neves, que estava deitado no chão, ajeitando a rala cabeleira:

“E agora, você ainda acha que vamos arrebentar na Copa do ano que vem?”

Vitinho sentou na calçada, sacudiu a poeira da roupa e sorriu:

“Claro, meu jovem. E é bom que os hooligans ingleses se comportem ou terão de se ver com o Souza.”

Globo News: canal sugere que novo presidente da UNE é gagá!

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Segundo a Globo News, a UNE carregava as bandeiras do povo brasileiro. E a emissora?

Segundo a Globo News, a UNE carregava as bandeiras do povo brasileiro. E a emissora?

Não dá mesmo para ficar sonolento quando assisto ao canal Globo News. O canal não pára de surpreender com os espasmos de cretinice aguda jorrados diariamente no programa Estúdio I. Desta vez, o show nem ficou por conta das usuais intervenções da notável pensadora e cientista política Lúcia Hippolito, que sempre me fazem pular da poltrona de tanta exaltação. Ela foi coadjuvante.

No programa de ontem (21/07), um dos focos de “análise” do time de descolados da emissora foi a UNE, União Nacional dos Estudantes. O apresentador Eduardo Grillo informou em tom solene que o novo presidente da entidade, Augusto Chagas, é, do alto de seus 27 anos, um “estudante profissional” e que não liga de ser chamado assim nem “para o fato de a entidade receber recursos do governo Lula”. Grillo não se conteve e deixou escorrer o veneno. Com a foto de Augusto com os dois polegares para cima, ouvimos sua voz em off : “Este é Augusto Chagas, esbanjando juventude em seus 27 anos”. A legenda me deixou mais atônito ainda: “NOVO PRESIDENTE, MAS NEM TANTO – UNE elege “estudante profissional”. (Espere aí. Ele é velho? Existe idade certa para ser estudante? Pensei no quanto observar “profissionalismo” deste nível é edificante, ainda mais em tempos desse novo jornalismo sem diploma e sem vergonha…)

Corte para uma foto da bandeira da UNE.  “E esta é a UNE. Mais de 70 anos. Carregando as principais bandeiras do povo brasileiro”. É mesmo? Provavelmente. Mas fiquei meio “grilado” (desculpe o trocadilho, jornalista e apresentador Eduardo) e não consegui evitar algumas perguntas aos meus espantados botões (como diria Mino Carta): Seriam essas bandeiras as da liberdade de expressão e de imprensa ignoradas pela Globo nos anos de chumbo? Seriam as bandeiras dos que levantaram a voz contra um governo assassino e torturador, mas que a Globo convenientemente silenciou na hora de reportar os fatos em troca de benesses e concessões televisivas? Ou seriam as bandeiras de uma imprensa justa e imparcial, as mesmas que evaporaram no jornalismo da emissora quando o povo tomou as ruas do país em 1984, exigindo as Diretas? Talvez fossem ainda as bandeiras do amadurecimento do processo de transição democrática, esquecidas pela Globo quando da edição das imagens do debate presidencial de 1989, fator decisivo para a eleição do “caçador de marajás” Fernando Collor. Fiquei na dúvida.

Grillo apontou o fato de que as imagens de arquivo mostram os estudantes sofrendo violência policial. E disse que a UNE sobreviveu à Era Vargas, aos prédios incendiados e aos estudantes mortos nos anos de chumbo. Ressaltou também que a entidade entrou na Nova República “sem se distanciar do seu papel crítico” e lembrou os  protestos dos caras-pintadas, exigindo o impeachment de Collor, aquele apoiado pela emissora em 1989. E disparou: “O presidente Lula parece que não se lembra. Afinal, não vê muito problema em abraçar e elogiar o antigo rival. E Augusto Chaves, por sua vez, não vê problema em não só apoiar como em receber dinheiro do governo Lula. Como diria Caetano Veloso, alguma coisa está fora de ordem…”

O que está fora de ordem é o jornalismo praticado pela emissora. Rasteiro, tacanho, preconceituoso, parcial e mal-intencionado. Comprometido com interesses políticos muito distantes da prática do ofício. Falando claro: comprometido com a eleição de José Serra em 2010, mesmo com os sinais cada vez mais fortes de que a candidatura do tucano pode naufragar.

Para fechar, vamos ao comentário feito pela ‘cientista política’ Lúcia Hippolito, logo após o Grillo Falante ter se pronunciado: “No meu tempo a gente apanhava da polícia”. Como assim? Uma entidade que representa estudantes tem de sofrer repressão para ter legitimidade? E prosseguiu: “Em 70 anos de história, é a primeira vez que um presidente da República vai a um congresso da UNE”. E isso é ilegal? Arbitrário? Uma entidade de estudantes não pode apoiar governo nenhum? Se a UNE elegesse um presidente da República do PCdoB deveria instantaneamente deixar de apoiar o infeliz depois das eleições? Novamente, indago aos meus botões, que chacoalham de um lado para outro mas parecem não encontrar uma resposta. Com certeza, Lúcia Hippolito a tem.

De Volta Para o Futuro!

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A incrível história dos Aerovons e do disco ‘Resurrection’, gema perdida no tempo
* por Fernando B. Cruz

The aerovons

Capa do disco Resurrection, dos Aerovons

Como tantos adolescentes americanos naqueles últimos anos da década de 60, Tom Hartman era um ‘beatlemaníaco’ convicto. Os Aerovons, banda liderada pelo moleque de 17 anos, tocavam as canções do quarteto britânico com uma maestria invejada por muitos veteranos. Apresentavam-se com relativo sucesso em festinhas e pequenos clubes de Saint Louis, Missouri. Uma rotina não muito promissora seguida à risca pelas bandas locais. Mas isso estava perto de mudar.


Sonhando com o dia em que sentiria de perto o gosto da ‘swinging London’ dos heróis Lennon e McCartney, Hartman sentou-se ao piano e compôs World of You, uma balada ‘beatle’ incrivelmente refinada e de um apurado senso pop para alguém tão jovem. Com a demo da canção nas mãos, a mãe de Hartman (cujos dois irmãos, Billy e Mike, também tocavam no grupo), conseguiu despertar o interesse da Capitol, representante americana da EMI. A ponto de a gravadora imediatamente oferecer seus estúdios na Califórnia para o grupo gravar. A reação do garoto causou surpresa: “Não, não queremos soar como os Beach Boys. Queremos ir para Abbey Road”.

Mais surpreso ficou Hartman, que não podia acreditar no que estava acontecendo. A EMI não só concordou em mandar os Aerovons para Londres como colocou o grupo em contato direto com Roy Featherstone, representante dos Beatles na gravadora. Resultado: em setembro de 1968, o quarteto partiu para a Inglaterra. Pronta para capitalizar em cima de seus garotos, a mãe-empresária marcou um encontro com a Decca, famoso selo que rejeitou os Beatles anos antes. Ao ouvir World of You, o executivo Dick Rowe foi direto: “bem, não vamos cometer o mesmo erro duas vezes”.

Sabendo do interesse da Decca, a EMI tratou de fechar logo com o grupo. No mesmo dia, um incrédulo Tom Hartman foi levado ao clube The Speakeasy (um dos lugares mais badalados pelos artistas britânicos na época), onde conheceu Paul McCartney. Aquilo era mais do que um sonho. “Foi o momento mais incrível da minha vida até então”, revelou o músico ao jornal britânico ‘The Guardian’.

Em março de 69, os Aerovons voltaram a Londres para as gravações do que viria a ser o álbum Resurrection. Hartman mostrou que era mais do apenas um bom músico fanático pelos Beatles. Além de compor boa parte do repertório do álbum ali mesmo no estúdio, o guitarrista-pianista ainda produziu quase todo o disco (que também teve o dedo de Norman Smith, engenheiro de som dos Beatles, morto ano passado), elaborando intrincados arranjos de cordas e orquestrações para suas delicadas canções (veja abaixo texto sobre o disco). Claro que uma ajuda extra sempre era bem-vinda. Os Beatles estavam em meio às sessões de Abbey Road e, segundo o menino-prodígio, eram muito solícitos: “Se tivéssemos alguma dúvida sobre algum timbre ou sonoridade, podíamos perguntar a George Harrison”.

E ainda havia tempo para recreação. Sempre que podia, Hartman dava um jeito de fuçar o equipamento de seus ídolos. Um dia, sozinho no lendário estúdio 2, encontrou o acordeão utilizado nas sessões de gravação de We Can Work It Out. “Toquei a parte do acordeão na canção e levei um susto, porque parecia que o disco estava sendo tocado de verdade”, escreveu Hartman em seu diário. “Era desconcertante, aquela era a sala de onde saiu tudo aquilo”.


Outra vantagem era poder desfrutar do privilégio de ver clássicos sendo gravados na sala ao lado. Os Aerovons puderam assistir às gravações de Yer Blues e Sexy Sadie (ainda em 68) e ouviram em primeira mão versões não mixadas de Across The Universe e Oh Darling. Um choque para Hartman, que imediatamente compôs Resurrection e Say Georgia, músicas completamente influenciadas pelas duas canções de Lennon e McCartney, respectivamente.


Sem inspiração? peça uma ajuda a estes jovens na sala ao lado

Problemas para gravar? peça uma ajudinha a estes jovens no estúdio ao lado

Com o disco em andamento, a EMI apostava mais e mais fichas na banda. O orçamento de Resurrection chegou a 35 mil libras, um número impressionante (Sgt Peppers custou 50 mil libras) para os padrões da época. “Os rumores na gravadora eram de que os garotos eram ótimos e que eles seriam os próximos Beatles”, contou o engenheiro de gravação Alan Parsons à imprensa britânica. “Todos na EMI estavam muito certos disso”, afirmou ele, que trabalhou com os Beatles e com os próprios Aerovons. Infelizmente, todos estavam errados.

Enciumado pela liderança natural de Hartman sobre o grupo, o guitarrista Pete Edholm foi mandado de volta a Saint Louis pela gravadora. Para piorar, o baterista Mike Lombardo entrou em depressão profunda ao descobrir que estava sendo traído pela mulher. Como por feitiço, os Aerovons desmoronaram diante de Hartman, num atropelo semelhante ao do grupo Wonders, no filme de Tom Hanks.


Ao perceber que o grupo não teria condições de sobreviver ao lançamento do disco, a EMI decidiu engavetar o projeto. Apenas dois singles haviam sido lançados. Por alguma razão inexplicável, Resurrection passou décadas congelado para, ironicamente (como sugere o título), voltar a vida em 2003. O álbum saiu na Inglaterra pelo selo RPM. Uma injustiça tardiamente reparada. Tom Hartman, hoje com 58 anos, jamais teve a chance de montar outro grupo e desenvolver a sonoridade registrada em Resurrection, uma gema perdida no tempo.


Resurrection: uma coleção de belas canções


The Aerovons

The Aerovons

É natural que bons compositores comecem imitando os seus ídolos na criação de suas primeiras canções. E é mais natural ainda que essas músicas não sejam lá grande coisa, se comparadas ao material produzido em alguns anos de ofício. Basta ver o que os adolescentes Paul e John compuseram antes de se tornarem os senhores absolutos do pop mundial: Hello Little Girl (Lennon) e Like Dreamers Do (McCartney), uma musica da qual o baixista dos Beatles diz sentir uma certa “vergonha”. Por isso, chega a ser espantoso que Tom Hartman, aos 17, tenha escrito um punhado de canções que demonstram uma maturidade inacreditável, mesmo com a evidente influência ‘beatle’.


Resurrection, disco produzido (pasmem!) pelo próprio Hartman, traz doze faixas e mais quatro bônus, incluindo a demo de World of You, a emocionante balada que rendeu o contrato de gravação ao grupo. Com um belo arranjo de cordas e piano, World Of You mostra onde o grupo poderia ter chegado se não tivesse acabado. Os Aerovons, em sua quase ingênua busca pelo som do quarteto de Liverpool, nos oferecem, acima de tudo, qualidade.


O grupo brinda o ouvinte com preciosidades como With Her, que, assim como The Years lembra a fase acústica de A Hard Day’s Night, a nostálgica e melancólica Words From a Song, além de She’s Not There, Quotes and Photos e Everything Is Alright. Os únicos escorregões (se é que se pode dizer isso de um pequeno gênio que não podia conter a satisfação de ouvir músicas  ainda inéditas de seus ídolos), ficam por conta da faixa-título, parente de Across The Universe e Say Georgia, quase uma nova versão de Oh Darling.


Bobagem. O que Resurrection revela é uma banda que se comprometeu a escrever grandes canções num curtíssimo período de existência. Não tivessem passado pelo infortúnio não-merecido, os Aerovons poderiam figurar hoje entre bandas clássicas como Hollies ou Byrds . E esse texto seria completamente desnecessário.


Ouça: World of You

Ouça: Quotes and Photos

* O texto foi escrito originalmente para a revista eletrônica Senhor F. Agradeço a Cristovão “Ocean” por ter esquecido comigo, há alguns anos, o disco dos Aerovons que lhe dei de presente. Sem ele, não haveria áudio para este post. Gracias, Cristóvão!


Os filhos de John Lennon

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por Fernando B. Cruz

 

 

 

 

 

 

capa da biografia de John Lennon

capa da biografia de John Lennon

“Não confunda minhas músicas com a sua vida. Sou só um cara que escreve canções”. As duas frases acima foram ditas por John Lennon e podem ser conferidas no documentário Imagine, de 1988. Ao minimizar com a habitual franqueza a importância da própria obra para um fã que rondava a sua casa, no início dos anos 70 (à época das sessões de gravação do álbum homônimo), Lennon não tinha ideia de como suas músicas ainda afetariam não apenas uma legião de fãs, mas gerações de compositores, décadas depois de sua morte. Ironicamente, muitos destes compositores talvez nem percebam a dimensão da, digamos, “interferência” do ex-beatle no modo como eles e muitos outros escrevem música. Acabo de ler um livro que ajuda a lançar alguma luz sobre o assunto, a biografia John Lennon, A Vida, lançada recentemente no Brasil.

Como toda boa biografia deve ser, o livro, um calhamaço de mais de 800 páginas, escrito pelo inglês Philip Norman e editado pela Companhia das Letras, não apenas é o mais completo relato da vida de Lennon, como também dimensiona e humaniza, com habilidade, o artista por trás da mundialmente aclamada figura pública. Além de pontos obscuros ou pouco conhecidos da vida do músico, como a infância, a relação com a mãe e a história de peças-chave praticamente desconhecidas, como o pai, Freddie Lennon, o livro nos apresenta um John Lennon muito mais vulnerável do que muitos fãs poderiam imaginar.

Que ele era um sujeito controverso não é novidade para ninguém. Mas é intrigante observar a exposição da vida de alguém que alternava espírito de liderança, dentro e fora dos Beatles, e uma abundante produção de canções geniais com, por exemplo, pânico de subir no palco e uma vergonha colossal da própria voz. O desgosto com o seu timbre de voz era tão grande que Lennon sentia-se constrangido em ouvir a versão dos Beatles para Twist and Shout. Considerava sua interpretação, que imortalizou a canção e alterou os rumos da história do rock, pobre.

Há várias outras pequenas histórias, como as do período que se convencionou chamar de Lost Weekend. Naquela época, em meados da década de 70, entre uma bebedeira e outra, John Lennon costumava visitar a amiga e diretora da gravadora Rocket, de Elton John, Sharon Lawrence. No livro, ela se recorda das conversas travadas pelos dois. Sentado no sofá do escritório dela, Lennon costumava perguntar: “Você acha que ainda consigo gravar um disco que seja um sucesso?” “Às vezes (ele) me espantava com a falta de confiança que tinha em si mesmo”, relata. Para alguém que havia conquistado o planeta e reafirmado sua supremacia por meio de cada disco lançado pelos Beatles depois de 1964, uma revelação como essa não deixa de causar espanto.

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E o que isso tem a ver com o primeiro parágrafo deste texto? Bem, tudo. Simplesmente porque boa parte da obra da maioria dos compositores que admiro se relaciona, em alguma medida, com a expressão artística da insegurança pessoal. E, sem dúvida, John Lennon foi um verdadeiro mestre ao fazer de seus temores e incertezas um veículo para fazer arte. Sean Lennon, filho de John e também músico, surpreende ao fazer uma das mais profundas análises da obra do pai sob esse ponto de vista.


Segundo Sean, a insegurança pessoal de John “foi uma desvantagem que ele usou a seu favor. Ele inventou um jeito inseguro de fazer canções – “Sou um perdedor e não sou o que pareço ser (I’m a Loser) ou Help”, avalia, na entrevista concedida a Philip Norman para o livro. “Ele (Lennon) dizia que Bob Dylan o ensinou a escrever na primeira pessoa sobre sua vida real, mas Dylan nunca escreveu uma cancão que revelasse suas emoções daquele jeito. Dylan sempre observa as emoções das outras pessoas. É como se fosse um jornalista – não está dizendo que é bom ou mau – mas apenas articulando algo que está no ar e botando no papel”.


E arremata: “o modo como um homem se sentia inseguro e se questionava do jeito que meu pai o fazia em suas canções é um fenômeno pós-moderno. Artistas como Mozart ou Picasso nunca o fizeram; é algo que só aconteceu a partir da Segunda Guerra. E isso é algo que lhe pertence, aquele sentimento de insegurança que tantos outros compositores de canções desde então vêm tentando copiar. Ele inventou isso”.

Ele está certo. Quando Lennon abandonou os Beatles, não deixou para trás apenas os yeah yeah yeahs, a psicodelia e as experimentações de estúdio. Ele mergulhou fundo em si mesmo para lidar com recalques e traumas de uma vida atormentada. E, em certa medida, com sua insegurança. O resultado foi Plastic Ono Band, um petardo de 11 canções cruas e dolorosas, verdadeiras fraturas expostas, responsáveis pela inauguração de um novo período na história do rock.

Plastic Ono Band: disco fundamental dos anos 70

Plastic Ono Band: disco fundamental dos anos 70

Sempre me pareceu inacreditável que músicas aparentemente tão simples e tocadas de maneira tão despojada pudessem ter tanta força, como atestam as viscerais Mother, Isolation e Working Class Hero, para ficar apenas em três exemplos (o documentário Plastic Ono Band, da série de DVDs Classic Albums, traz os bastidores da gravação do disco, com depoimentos de músicos como Klaus Voormann e engenheiros de som. Vale conferir).


Desde então, descendentes diretos dessa linhagem lennoniana de fazer canções apareceram aos montes, artistas que sintonizaram no canal de suas canções sentimentos de inadequação, dúvida e insegurança sem, no entanto, resvalar para o sentimentalismo pueril. Claro, alguns em maior ou menor grau, com mais ou (muito) menos talento. Mas isso é outra história.


Globo News volta a presentear telespectador!

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Comentário de Sandra de Sá, na cobertura da cerimônia de despedida de Michael Jackson, logo após perfomance de Stevie Wonder: “Você olha e percebe que essa não é uma tristeza infeliz!” Mais um feliz comentário perpetuado por dona de Sá… Descanse em paz, Michael, se conseguir…

Conseguirá ele descansar em paz?

Michael Jackson: Conseguirá ele descansar em paz?

Flavinho Ferreira e a Idade da Razão

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Flavinho, no dia em que recebeu alta do manicômio e foi informado das boas novas: "we salute you!

Flavinho, no dia em que recebeu alta e foi informado das boas novas: "we salute you!!"

Flavinho Ferreira é um velho amigo dos tempos de manicômio. Recentemente, foi solto. O pai, o sempre simpático seu Di Paula, achou por bem acomodá-lo num confortável apartamento de uma área das quatrocentos, região residencial de Brasília. Sozinho, diga-se. O irmão do baterista, Vital das Neves, que sempre fez questão de não usar o sobrenome Ferreira para decolar na carreira artística, já estava há tempos instalado na Índia, onde havia estudado cítara e agora ministrava aulas sobre História e Teoria do Mau Humor Francês num conceituado conservatório. Corre a lenda que a recente morte do guru Maharishi foi um trauma insuperável para Vitinho, como era carinhosamente chamado pelos amigos de cachaça e esbórnia. Tanto que ele, desolado, teria parado de cantar seus famosos repentes (orgulhosamente ensinados por seu Di Paula) em praça pública, em troca de bolinhas de gude. O fato é que ninguém sabe ao certo. O assunto virou tabu na família.


Mas voltemos ao fabuloso e promissor mundo de Flavinho Ferreira. Seu Di Paula avaliou que esta seria uma maneira de Flavinho atravessar, com desenvoltura, a difícil e temida trilha rumo a uma vida adulta e responsável. E até, quem sabe, o garoto pararia de revelar a quem aparecesse na sua frente que na verdade é (e sempre foi) Sir Paul McCartney. Na verdade, o grande desafio de Flavinho, além do novo mundo lá fora, seria lidar com o mundo lá dentro, tanto de sua cabeça avariada, quanto de seu novo apartamento. Quanto aos seus conhecidos acessos de loucura, os mais chegados não viam muito problema. Para que existia telefone? Ou os discos do Journey? Afinal, o refrão de Don’t Stop Believing tinha propriedades curativas para Flavinho. Assim, o rapaz topou o desafio.


Flavinho não demorou a ligar para os amigos e contar as boas novas. Queria celebrar. Para minha sorte, fui incluído, semana passada, na lista de dois privilegiados convidados para ir a um dos maiores berços da etiqueta e requinte brasilienses, o bar Piauí. Clube seleto: eu e o estrangeiro Tom (Tonho, para os mais chegados), professor de japonês na Cultura Nipônica e também outro desmiolado bem próximo de Flavinho. Quando ele apareceu, logo o saudamos com o velho e ritmado grito de guerra: “Fla, Fla, Fla Fla Fla Fla, ah Fla Fla Fla, Flavão, ah Fla Fla Fla Fla Flavão!”, referência à clássica Surfin’ Bird, dos Trashmen, mais conhecida na versão dos Ramones (sempre que ouvia, Flavinho abria um largo sorriso e logo emendava a batida da canção na mesa, mesmo sem nunca ter achado nenhuma das duas bandas grande coisa. Era mais uma demonstração de sua invejável generosidade).


 Flavinho recorre aos conselhos do sábio. "Por que morar sozinho você quer?", indagou o sóbrio Yoda ao jovem padawan

Flavinho recorre aos conselhos do sábio. "Por que morar sozinho você quer?", indagou o sóbrio Yoda ao jovem padawan

“Diga lá, Flavinho!”, gritei. “E aí, rapaziada! Ouçam essa: Estou de mudança para o apê do meu pai! Não é fantástico?”, anunciou, a própria encarnação da euforia. Enquanto reproduzia na mesa, com maestria, a introdução de Rosana, do Toto, Flavinho tratou de contar os planos para a mudança. Os móveis que seriam distribuídos nos três cômodos e na sala; o fantástico praticável de bateria que iria decorar um dos quartos; e, o mais importante: os pôsteres do Asia, as amadas fronhas do Super-Homem e os bonecos do Falcon e do mestre Yoda, estes últimos responsáveis por trazer frescor e sabedoria ao ambiente. “É, a vida do Flavinho vai respirar novos ventos”, pensei com meus botões. Não disfarcei um sorriso de contentamento.

“Só preciso organizar os horários do almoço”, esclareceu ele. “Como assim, Flavinho? Hora de almoço não é universal? Das 12h às 14h?”, perguntou Tonho. “Não, quis dizer organizar com a minha mãe”, disse, demonstrando alguma irritação por não ter sido compreendido. Um silêncio sepulcral deslizou sobre o ambiente. Eu e Tonho  trocamos olhares. Ninguém tinha coragem de abrir a boca. Mais alguns instantes daquela tortura escandalosa. E nada. Flavinho nos encarava, agora com ar de poucos amigos. “Peraí, você vai almoçar na casa da sua mãe todo dia?”, assoprei, finalmente, a nebulosa nuvem da incerteza. “Esse é o plano”, disse Flavinho, enquanto bebericava sua cerveja predileta, a alemã Dummkopf. “Você não tem fogão, jovem?”, Tonho perguntou, visivelmente assombrado. “Tenho, claro”.

Tonho não deixou que o talentoso baterista prosseguisse: “Flavinho, por que você não aproveita e toma também o café da manhã por lá?”, disparou, mal segurando a gargalhada. A resposta foi automática: “Cedo demais, pô”. “Faz o seguinte”, emendou Tonho: “vai todo dia na noite anterior. Dorme lá que você consegue pegar o café e o pão fresquinhos!” Não aguentei. Quase despenquei da cadeira de tanto rir. Mas Flavinho não achou tanta graça. “Vocês estão viajando. Não sabem de p#*@ nenhuma mesmo! Se eu fizesse…” Parou de falar um instante. “Se eu fizesse isso… Espera aí… Até que… Não é má ideia…” Mais uma pausa. “Não, não! O que é isso? Para que eu me mudaria, então?”, disse, agora sem hesitações.


“Excelente pergunta, Flavinho. Excelente pergunta”, foi a resposta, em uníssono. Flavinho encerrou abruptamente o batuque de It’s Hard for me to Say I’m Sorry, do Chicago, dando uma última virada e acertando com apurada técnica o prato de sua bateria imaginária. Aí, pediu a conta. “Melhor repensar todo este assunto”, concluiu. Depois, levantou-se, deixando Tonho e eu sentados, olhando para o fundo de nossos copos. Pensei na sábia e agora pertinente observação feita por nosso guia, The Dude, no Grande Lebowski: “friends like these, huh Gary?” “That’s right, Dude”. Tudo o que precisávamos agora era evitar os sopapos de um colérico seu Di Paula.

Até TVs a cabo concluem: o mundo é dos néscios!

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“voche non fiu esto jaqueto no cadeira?” O simpático senhor acompanhou o autor ao cinema

“voche non fiu este jaqueto no cadeira?” O simpático senhor acima acompanhou o autor ao cinema

Estatisticamente falando, não há para onde correr: o mundo é habitado, em esmagadora maioria, por idiotas. Simples assim. De vários tipos e em níveis alarmantes de imbecilidade. E, infelizmente, sou um deles. Adepto declarado do empirismo clássico, já comprovei. Todo mundo que se obriga a passar preciosos momentos da vida ao lado de cretinos irrecuperáveis, não pode ser mesmo muito mais do que um pobre imbecil. Mas não vamos tratar já de minhas fraquezas, sobretudo depois de eu ter sido agraciado com um boletim médico que me concedeu alta da casa de repouso.

Apenas para ficar em um exemplo, poderia aqui lembrar da tradicional política americana para demonstrar, matematicamente, minha teoria: um idiota foi eleito e reeleito presidente dos Estados Unidos por milhões de outros idiotas. Para comprovar minha tese, no entanto, sugiro que façamos como Gilmar Mendes, elegante ministro do STF e beiçola nas horas vagas: saiamos às ruas. É no fervilhante e caótico mundo urbano que encontraremos farto material para estudo.

Você, amado leitor, deve ser um otimista incorrigível, como já o fui. Mas abra os olhos e veja por si mesmo. Está no trânsito? Olhe para o lado esquerdo. Não importa o número de carros trafegando. Mesmo com apenas meia dúzia de veículos, sempre, sempre, haverá um solícito cidadão dirigindo a 40 km do lado esquerdo da via quando a velocidade média é de 60 km. São motoristas que, em geral, utilizam o espelho interno para retocar a maquiagem ou para se ver cantando clássicos do quilate de Encontrar Alguém, do Jota Quest, enquanto se imaginam encontrando essa alma caridosa. Mas faz sentido: Por qual motivo ele(a) deveria dirigir devagar à direita quando pode tornar o trânsito muito mais excitante fazendo isso na faixa da esquerda?

Outro rico local para observação de idiotia em estado bruto são as famosas ‘tesourinhas’ de Brasília, o “atalho” para chegar às superquadras. Observe um engarrafamento, cada vez mais comum até nas largas pistas da capital. Preste atenção aos carros que estão parados, esperando a vez para pegar a via principal. Olhe novamente e verá que não estão tão parados assim. Sempre, sempre haverá uma pessoa de intelecto singular colocando, com eficiência, o carro na frente do seu, que, ao menos em tese, teria a preferência. Por outro lado, na situação contrária, quando você está esperando para entrar na via, olhar e pedir educadamente a vez pode não ser o bastante: sempre haverá aqueles que irão acelerar nervosamente e colar na traseira do carro à frente para assegurar o merecido lugar que espertinhos e joões-sem-braço como você tentam, a todo custo, roubar.

Meus amigos do hospício costumavam repetir que nunca fui uma pessoa razoável. Que fiquei neurótico. De fato, todas as vezes que me lembrava das noites de diversão no cinema, a úlcera dava um chute no meu estômago, dando início a uma série de espasmos que duravam até a chegada de Djalmão, o segurança. Sim, minha neurose espantaria Woody Allen. Por um tempo, fui convencido de que minha implicância havia passado dos limites. Semana passada, constatei a dura realidade. O que passou mesmo do limite foi minha frágil sanidade, ao assistir, no cinema, o filme Intrigas de Estado. E, para aqueles que ainda insistem que néscios são um privilégio tupiniquim, vejam este emocionante relato:

Pouco antes do início da sessão, fui ao banheiro. Ao sair, esbarrei em um senhor. Para ser gentil, segurei a porta. O que não havia percebido ainda foi a expressão de contrariedade em seu rosto por, suspeitei, estar impedindo sua passagem aos mictórios. “Que impaciente”, pensei. “Será que fui mal compreendido?” Bingo. Já na sala, me acomodei. Minutos depois, entrou o senhor, que se dirigiu a uma poltrona duas fileiras atrás da minha. Parou na frente de um casal e logo deu uma bronca,  caprichando no português: “voche non fiu esto jaqueto no cadeira?” “Vi, sim”, respondeu a moça. “Mas não pegamos o seu assento. Estamos sentados ao lado de onde estava o casaco. Este lugar é público, senhor”. “Son of a bitch!”, bradou o simpatia de volta, revelando a cidadania americana.

E onde o opulento mequetrefe resolveu se sentar? Claro, atrás deste pobre diabo. Para uma pessoa normal, isso não seria problema. Mas para mim, gato escaldado e acostumado a crises respiratórias no início de toda sessão, sempre por medo de algum boçal sentar na poltrona de trás, aquilo foi um presságio de que algo grandioso estava por vir. Premonição que se confirmaria, como veremos. Logo chegou uma senhora e sentou-se com ele, trazendo um balde descomunal de pipoca e balas.  Ah, minha deliciosa noite de agonia estava apenas começando…

Não houve perda de tempo: logo nos primeiros cinco minutos de projeção, abriram o saco de balas, com o barulho percussivo do plástico furando meus tímpanos. Dali para frente, é seguro dizer que poucas vezes vivi emoções tão intensas numa sala de cinema. O barulho da pipoca mastigada, ressoando no meu crânio… Os pés gordos no sapato, se refestelando, ora no encosto da minha poltrona, ora no chão, dando pequenas sapateadas, sempre acompanhadas de uma gostosa gargalhada… As inspiradas e brilhantes opiniões sobre o filme, com oportunas intervenções sobre o estado do ator Russel Crowe, cuspidas no meu pescoço… Algo como “ele parece tão mais velho para a idade dele, não?” “Está acabado”. É, está mesmo. Mas vai estar menos do que você quando eu levantar dessa cadeira.

Antes fosse. “Sir, do you think it is possible for you to be quiet?” (“Senhor, poderia ficar quieto?”), pedi, no tom mais ameno que encontrei. “Get lost”, grunhiu (“sai fora” em bom português), me encarando. De fato, eu estava perdido. Faltava apenas uma hora e meia para o final da sessão mas já começava a me faltar o ar. Tomado pela emoção, levantei para uma investida mais eficiente quando senti o chão amolecer e a vista ficar turva. Enquanto cambaleava pela sala, ouvi o gringo, aos berros, exigir que eu saísse da frente: “Get out of the way, get out, stupid!!!” “Claro”, pensei. “Estou atrapalhando o filme dele!” Foi quando, gentilmente, perdi os sentidos. Acordei, ainda  sedado, no hospital. A teoria fora comprovada mais uma vez, tendo a mim mesmo como objeto de estudo. Aquela sala tinha ficado pequena demais para dois idiotas de notável estirpe.

Nota do moderador: o autor mereceu a investida do americano. É uma criatura paranóica. Chegou um dia a confundir o próprio irmão, coincidentemente na mesma sala de cinema que ele, com um perigoso assediador da cidade. Quando abordado pelo desprevenido rapaz, quase partiu para as vias de fato.