Os filhos de John Lennon

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por Fernando B. Cruz

 

 

 

 

 

 

capa da biografia de John Lennon

capa da biografia de John Lennon

“Não confunda minhas músicas com a sua vida. Sou só um cara que escreve canções”. As duas frases acima foram ditas por John Lennon e podem ser conferidas no documentário Imagine, de 1988. Ao minimizar com a habitual franqueza a importância da própria obra para um fã que rondava a sua casa, no início dos anos 70 (à época das sessões de gravação do álbum homônimo), Lennon não tinha ideia de como suas músicas ainda afetariam não apenas uma legião de fãs, mas gerações de compositores, décadas depois de sua morte. Ironicamente, muitos destes compositores talvez nem percebam a dimensão da, digamos, “interferência” do ex-beatle no modo como eles e muitos outros escrevem música. Acabo de ler um livro que ajuda a lançar alguma luz sobre o assunto, a biografia John Lennon, A Vida, lançada recentemente no Brasil.

Como toda boa biografia deve ser, o livro, um calhamaço de mais de 800 páginas, escrito pelo inglês Philip Norman e editado pela Companhia das Letras, não apenas é o mais completo relato da vida de Lennon, como também dimensiona e humaniza, com habilidade, o artista por trás da mundialmente aclamada figura pública. Além de pontos obscuros ou pouco conhecidos da vida do músico, como a infância, a relação com a mãe e a história de peças-chave praticamente desconhecidas, como o pai, Freddie Lennon, o livro nos apresenta um John Lennon muito mais vulnerável do que muitos fãs poderiam imaginar.

Que ele era um sujeito controverso não é novidade para ninguém. Mas é intrigante observar a exposição da vida de alguém que alternava espírito de liderança, dentro e fora dos Beatles, e uma abundante produção de canções geniais com, por exemplo, pânico de subir no palco e uma vergonha colossal da própria voz. O desgosto com o seu timbre de voz era tão grande que Lennon sentia-se constrangido em ouvir a versão dos Beatles para Twist and Shout. Considerava sua interpretação, que imortalizou a canção e alterou os rumos da história do rock, pobre.

Há várias outras pequenas histórias, como as do período que se convencionou chamar de Lost Weekend. Naquela época, em meados da década de 70, entre uma bebedeira e outra, John Lennon costumava visitar a amiga e diretora da gravadora Rocket, de Elton John, Sharon Lawrence. No livro, ela se recorda das conversas travadas pelos dois. Sentado no sofá do escritório dela, Lennon costumava perguntar: “Você acha que ainda consigo gravar um disco que seja um sucesso?” “Às vezes (ele) me espantava com a falta de confiança que tinha em si mesmo”, relata. Para alguém que havia conquistado o planeta e reafirmado sua supremacia por meio de cada disco lançado pelos Beatles depois de 1964, uma revelação como essa não deixa de causar espanto.

John_Lennon_1

E o que isso tem a ver com o primeiro parágrafo deste texto? Bem, tudo. Simplesmente porque boa parte da obra da maioria dos compositores que admiro se relaciona, em alguma medida, com a expressão artística da insegurança pessoal. E, sem dúvida, John Lennon foi um verdadeiro mestre ao fazer de seus temores e incertezas um veículo para fazer arte. Sean Lennon, filho de John e também músico, surpreende ao fazer uma das mais profundas análises da obra do pai sob esse ponto de vista.


Segundo Sean, a insegurança pessoal de John “foi uma desvantagem que ele usou a seu favor. Ele inventou um jeito inseguro de fazer canções – “Sou um perdedor e não sou o que pareço ser (I’m a Loser) ou Help”, avalia, na entrevista concedida a Philip Norman para o livro. “Ele (Lennon) dizia que Bob Dylan o ensinou a escrever na primeira pessoa sobre sua vida real, mas Dylan nunca escreveu uma cancão que revelasse suas emoções daquele jeito. Dylan sempre observa as emoções das outras pessoas. É como se fosse um jornalista – não está dizendo que é bom ou mau – mas apenas articulando algo que está no ar e botando no papel”.


E arremata: “o modo como um homem se sentia inseguro e se questionava do jeito que meu pai o fazia em suas canções é um fenômeno pós-moderno. Artistas como Mozart ou Picasso nunca o fizeram; é algo que só aconteceu a partir da Segunda Guerra. E isso é algo que lhe pertence, aquele sentimento de insegurança que tantos outros compositores de canções desde então vêm tentando copiar. Ele inventou isso”.

Ele está certo. Quando Lennon abandonou os Beatles, não deixou para trás apenas os yeah yeah yeahs, a psicodelia e as experimentações de estúdio. Ele mergulhou fundo em si mesmo para lidar com recalques e traumas de uma vida atormentada. E, em certa medida, com sua insegurança. O resultado foi Plastic Ono Band, um petardo de 11 canções cruas e dolorosas, verdadeiras fraturas expostas, responsáveis pela inauguração de um novo período na história do rock.

Plastic Ono Band: disco fundamental dos anos 70

Plastic Ono Band: disco fundamental dos anos 70

Sempre me pareceu inacreditável que músicas aparentemente tão simples e tocadas de maneira tão despojada pudessem ter tanta força, como atestam as viscerais Mother, Isolation e Working Class Hero, para ficar apenas em três exemplos (o documentário Plastic Ono Band, da série de DVDs Classic Albums, traz os bastidores da gravação do disco, com depoimentos de músicos como Klaus Voormann e engenheiros de som. Vale conferir).


Desde então, descendentes diretos dessa linhagem lennoniana de fazer canções apareceram aos montes, artistas que sintonizaram no canal de suas canções sentimentos de inadequação, dúvida e insegurança sem, no entanto, resvalar para o sentimentalismo pueril. Claro, alguns em maior ou menor grau, com mais ou (muito) menos talento. Mas isso é outra história.


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  1. Fernando,
    Adorei o texto. O livro do Norman é realmente revelador.
    E esse Lennon fragilizado o torna uma figura ainda mais admirável e amada. Era um gênio, inseguro, confuso, raivoso e profundamente… humano. Eu fiquei ainda mais fã do artista. E compreendo melhor o homem. O texto ficou excelente.
    Abraço

  2. Concordo contigo. Acho que esse é um dos grandes trunfos desse livro. E até acredito que seja um dos fatores pelos quais Yoko tenha ficado descontente com o resultado final.

    Obrigado pela visita e comentário.

    Um abraço.

  3. Prick, muito bom o texto. Só trocaria o depoimento do Sean por alguém “mais inseguro” do que está falando pra ficar coerente com os bons músicos influenciados por John “Lenin”. “Nobody told me that would be sons like these…”

  4. Son,
    Eu até pensei em falar de músicos influenciados por John Lenin, inclusive amigos nossos. Mas fiquei com medo de gerar protestos… Sobre o Sean, concordo. Mas é que a avaliação dele ficou redonda, não?

  5. Ótimo texto, Fernando, com uma qualidade e profundidade que só poderiam provir de um especialista em Beatles como você.
    O único ponto negativo são os vocábulos em inglês na sua troca de e-mails com o Cristóvão (rs).
    Parabéns.

    abç.

  6. Bem vindo ao clube, Pinduca. Oceano, quem disse que Sean é seguro? Japonesinho tímido, comedor de moqueca.
    Eu andava irritado com os Beatles pós Beatles, mas, Fernando/João (João não perdeu o acento? E idéia, perdeu?), vc amenizou aquele mala sem alça. Vou ouvir o disco com outros “olhos”.
    Vc já leu aquele texto daquele cara (prometo passar a referência completa depois) sobre Altamont (e Let it Bleed) ser o fim do sonho dos anos 60?
    Recomendo. É um belo texto, mesmo pra um beatlemaníaco-pouco-stoniano. E acho que tem tudo a ver com esse seu sobre John. Havia um certo desencanto no ar e ao mesmo tempo um certo pragmatismo. Acho que John captou e capitaneou ambos.
    Eu estava pra escrever um texto sobre as confusões que John aprontou em NYC, as presepadas, mas principalmente as políticas. Ele era ao mesmo tempo fascinado e fascinante por pela cidade. Entre os dois gigantes, nenhum escapou ileso. Mas esse seu texto tá tão inspirado que acho que vou desencanar.
    Escreve vc.
    Abração!
    Luma

  7. Caro joaolendea,
    Correndo o risco de errar, mas acertando ainda assim: o texto sobre Altamont = fim dos sonho dos anos 60 está em um dos artigos de “A última transmissão” de Greil Marcus publicado pela Conrad.
    Se não estiver, não tem problema, pq o livro é fantástico!
    Forte abraço!
    Luma

  8. Pois é, Luma. Comecei a ler o livro “Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones – a gravação do disco “Exile on Main St.” (presente do Pinduca) e o autor fala logo no início que havia alguma coisa no ar no início da década de 70. Tudo estava fora de controle e o fim da inocência dos anos 60 era iminente As mortes de vários músicos, começando pelo Brian Jones, os Stones afundados na heroína e, claro, Altamont… Não li esse texto mas o livro é esse mesmo? O assunto Lennon dá corda para vários textos. Esses anos de ativismo político em NY são uma bela faceta e acho que você deveria escrever!

    Abração e valeu a visita!

  9. Sobre o Temporada no Inferno, bem lembrado, a introdução é bacana, mesmo.
    Vou te contar o final hehehe Morre todo mundo, menos os stones. Os caras têm um pacto com o demo.
    Acho que acertei o nome do livro, pq o de Lester Bangs eu não gostei, nem terminei. Mais um pra minha lista de unanimidades que não gosto. Achei chato bagarai.
    Mas se não for, vale a pena ler, pq o cara é foda de bom.
    Valeu, meu velho!
    Luma

  10. Estou com o livro em mãos. O texto sobre o fim dos anos 60 também é a introdução do livro do Greil Marcus. Já folheei esse livro mas ainda não havia lido. Tá na lista…

  11. Legal, Fernando. Boa análise da personalidade de John, realmente instigante, controverso, genial. Também fiquei interessado, a partir de seu texto, em ler o livro. Deve ser bem interessante. Um abraço e mais uma vez parabéns pelos textos!!!

  12. Fala, Marcelo! Recomendo a leitura. Se quiser, te empresto o livro. E valeu pelo comentário!

    Cremo, grande garoto! Como tá o orkut?

    abraços!

  13. Pingback: Os filhos de John Lennon (via Blog do João Lêndea) « Olímpio Cruz Neto

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