Até TVs a cabo concluem: o mundo é dos néscios! Julho 1, 2009
Posted by joaolendea in Uncategorized.Tags: brasília, cinema, gilmar mendes, idiotas, trânsito, woody allen
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“voche non fiu este jaqueto no cadeira?” O simpático senhor acima acompanhou o autor ao cinema
Estatisticamente falando, não há para onde correr: o mundo é habitado, em esmagadora maioria, por idiotas. Simples assim. De vários tipos e em níveis alarmantes de imbecilidade. E, infelizmente, sou um deles. Adepto declarado do empirismo clássico, já comprovei. Todo mundo que se obriga a passar preciosos momentos da vida ao lado de cretinos irrecuperáveis, não pode ser mesmo muito mais do que um pobre imbecil. Mas não vamos tratar já de minhas fraquezas, sobretudo depois de eu ter sido agraciado com um boletim médico que me concedeu alta da casa de repouso.
Apenas para ficar em um exemplo, poderia aqui lembrar da tradicional política americana para demonstrar, matematicamente, minha teoria: um idiota foi eleito e reeleito presidente dos Estados Unidos por milhões de outros idiotas. Para comprovar minha tese, no entanto, sugiro que façamos como Gilmar Mendes, elegante ministro do STF e beiçola nas horas vagas: saiamos às ruas. É no fervilhante e caótico mundo urbano que encontraremos farto material para estudo.
Você, amado leitor, deve ser um otimista incorrigível, como já o fui. Mas abra os olhos e veja por si mesmo. Está no trânsito? Olhe para o lado esquerdo. Não importa o número de carros trafegando. Mesmo com apenas meia dúzia de veículos, sempre, sempre, haverá um solícito cidadão dirigindo a 40 km do lado esquerdo da via quando a velocidade média é de 60 km. São motoristas que, em geral, utilizam o espelho interno para retocar a maquiagem ou para se ver cantando clássicos do quilate de Encontrar Alguém, do Jota Quest, enquanto se imaginam encontrando essa alma caridosa. Mas faz sentido: Por qual motivo ele(a) deveria dirigir devagar à direita quando pode tornar o trânsito muito mais excitante fazendo isso na faixa da esquerda?
Outro rico local para observação de idiotia em estado bruto são as famosas ‘tesourinhas’ de Brasília, o “atalho” para chegar às superquadras. Observe um engarrafamento, cada vez mais comum até nas largas pistas da capital. Preste atenção aos carros que estão parados, esperando a vez para pegar a via principal. Olhe novamente e verá que não estão tão parados assim. Sempre, sempre haverá uma pessoa de intelecto singular colocando, com eficiência, o carro na frente do seu, que, ao menos em tese, teria a preferência. Por outro lado, na situação contrária, quando você está esperando para entrar na via, olhar e pedir educadamente a vez pode não ser o bastante: sempre haverá aqueles que irão acelerar nervosamente e colar na traseira do carro à frente para assegurar o merecido lugar que espertinhos e joões-sem-braço como você tentam, a todo custo, roubar.
Meus amigos do hospício costumavam repetir que nunca fui uma pessoa razoável. Que fiquei neurótico. De fato, todas as vezes que me lembrava das noites de diversão no cinema, a úlcera dava um chute no meu estômago, dando início a uma série de espasmos que duravam até a chegada de Djalmão, o segurança. Sim, minha neurose espantaria Woody Allen. Por um tempo, fui convencido de que minha implicância havia passado dos limites. Semana passada, constatei a dura realidade. O que passou mesmo do limite foi minha frágil sanidade, ao assistir, no cinema, o filme Intrigas de Estado. E, para aqueles que ainda insistem que néscios são um privilégio tupiniquim, vejam este emocionante relato:
Pouco antes do início da sessão, fui ao banheiro. Ao sair, esbarrei em um senhor. Para ser gentil, segurei a porta. O que não havia percebido ainda foi a expressão de contrariedade em seu rosto por, suspeitei, estar impedindo sua passagem aos mictórios. “Que impaciente”, pensei. “Será que fui mal compreendido?” Bingo. Já na sala, me acomodei. Minutos depois, entrou o senhor, que se dirigiu a uma poltrona duas fileiras atrás da minha. Parou na frente de um casal e logo deu uma bronca, caprichando no português: “voche non fiu esto jaqueto no cadeira?” “Vi, sim”, respondeu a moça. “Mas não pegamos o seu assento. Estamos sentados ao lado de onde estava o casaco. Este lugar é público, senhor”. “Son of a bitch!”, bradou o simpatia de volta, revelando a cidadania americana.
E onde o opulento mequetrefe resolveu se sentar? Claro, atrás deste pobre diabo. Para uma pessoa normal, isso não seria problema. Mas para mim, gato escaldado e acostumado a crises respiratórias no início de toda sessão, sempre por medo de algum boçal sentar na poltrona de trás, aquilo foi um presságio de que algo grandioso estava por vir. Premonição que se confirmaria, como veremos. Logo chegou uma senhora e sentou-se com ele, trazendo um balde descomunal de pipoca e balas. Ah, minha deliciosa noite de agonia estava apenas começando…
Não houve perda de tempo: logo nos primeiros cinco minutos de projeção, abriram o saco de balas, com o barulho percussivo do plástico furando meus tímpanos. Dali para frente, é seguro dizer que poucas vezes vivi emoções tão intensas numa sala de cinema. O barulho da pipoca mastigada, ressoando no meu crânio… Os pés gordos no sapato, se refestelando, ora no encosto da minha poltrona, ora no chão, dando pequenas sapateadas, sempre acompanhadas de uma gostosa gargalhada… As inspiradas e brilhantes opiniões sobre o filme, com oportunas intervenções sobre o estado do ator Russel Crowe, cuspidas no meu pescoço… Algo como “ele parece tão mais velho para a idade dele, não?” “Está acabado”. É, está mesmo. Mas vai estar menos do que você quando eu levantar dessa cadeira.
Antes fosse. “Sir, do you think it is possible for you to be quiet?” (“Senhor, poderia ficar quieto?”), pedi, no tom mais ameno que encontrei. “Get lost”, grunhiu (“sai fora” em bom português), me encarando. De fato, eu estava perdido. Faltava apenas uma hora e meia para o final da sessão mas já começava a me faltar o ar. Tomado pela emoção, levantei para uma investida mais eficiente quando senti o chão amolecer e a vista ficar turva. Enquanto cambaleava pela sala, ouvi o gringo, aos berros, exigir que eu saísse da frente: “Get out of the way, get out, stupid!!!” “Claro”, pensei. “Estou atrapalhando o filme dele!” Foi quando, gentilmente, perdi os sentidos. Acordei, ainda sedado, no hospital. A teoria fora comprovada mais uma vez, tendo a mim mesmo como objeto de estudo. Aquela sala tinha ficado pequena demais para dois idiotas de notável estirpe.
Nota do moderador: o autor mereceu a investida do americano. É uma criatura paranóica. Chegou um dia a confundir o próprio irmão, coincidentemente na mesma sala de cinema que ele, com um perigoso assediador da cidade. Quando abordado pelo desprevenido rapaz, quase partiu para as vias de fato.
Fala, Fernando. Seus textos estão cada vez melhores, por tirar a palavra das nossas bocas. Essa do cinema é típica. Também quase tenho crises nervosas com aqueles casais que não param de conversar o filme inteiro, com aqueles dementes que atendem ao celular no meio da sessão e com aquela molecada que vai para o cinema pra tudo, menos pra assistir a um filme. Massa. Agora essa história do americano é verdadeira?
Grande Marcelo. Celulares são uma história à parte. Daria para escrever um livro só contando casos assim. Sim, o americano existe! Claro que o desmaio do senhor Lêndea pode ter sido produto da imaginação. Mas o mais incrível foi o encontro sem querer com o irmão desprevenido: aconteceu de verdade!
Abração e obrigado pelo comentário!
Hahahaha!!! Fernando, eu sei das suas paranóias “cinemísticas”!
Pois é, João Lêndea não teve um colapso nervoso à toa! Seu histórico é antigo!
Bjos e valeu!
Cara, sensacional. Adorei o texto. Você acerta na mosca: o mundo é dos NETs, my brother. Outra: nunca, eu digo nunca, deixe de olhar para os lados quando entrar no cinema. A próxima vítima pode ser… Você.
É, meu jovem… Fui vítima… de você!
Abração!
[...] Para ler o resto deste desabafo, clique aqui: [...]
Já passei por situações parecidas, Fernando. Cheguei a levar bronca em voz alta de uma senhora lá no Parkshopping, porque estava com o pé meio (eu disse meio) encostado numa poltrona que ficava a duas cadeiras de distância da dela.
Pelo seu relato, acho que essa história deve ter acontecido no Cinemark. Já ouvi muita gente reclamar da falta de educação do público que frequenta as salas do Pier 21. Também sinto agonia com o lance da pipoca, mas é inevitável. Eu mesmo sou um desses chatos comedores de pipoca às vezes (rs).
abs.
abs.
Acertou na mosca, Pinduca! Pier 21. Neste cenário, a pipoca é o de menos. Chutes na cadeira e a conversa é que matam…
abração!
Excelente!
sensacional
Marta e Grace, obrigado pelo carinho!
beijos!
Olá,
estou reativando o meu blog sobre cinema, o Imagem em Movimento, dessa vez no endereço: http://www.christianjafas.wordpress.com
um abraço,
Christian