Lula e a “Voz do Brasil 2.0″ Agosto 31, 2009
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Para parte da nossa nobre imprensa, este homem não tem direito de surfar na blogoesfera
A coisa funciona assim: Se Obama faz, é sinal de que o democrata é um homem moderno e atento ao maravilhoso mundo da tecnologia. Obama mostra que é um progressista ao abrir um estreito canal de comunicação com a população por meio da internet. Mas se é o Lula quem faz… Bem, a coisa muda um pouco de figura. O presidente brasileiro estreou hoje um blog na internet e também colocou um vídeo no YouTube, onde fala rapidamente da proposta do blog (www.blog.planalto.gov.br).
Pois bem. Não se passaram nem 24 horas da estreia do blog (que, ao que parece, caiu pela quantidade de acessos) para nossa democrática imprensa nos abrir os olhos. Ouvi a CBN por apenas cinco minutos. Mas foi o suficiente. Trataram logo de desmascarar o maquiavélico plano conduzido pela assessoria de imprensa do Planalto, capitaneada por Franklin Martins. O que nos Estados Unidos é um canal de comunicação fundamental entre a Casa Branca e o povo americano virou, em nosso encantando país, a “Voz do Brasil 2.0”, um atalho para a propaganda oficial, uma via não de comunicação, mas um instrumento para servir ao “aparelhamento do Estado”… Há um cheiro de desespero dos Mesquita, dos Marinho e dos Frias no ar? Fico me perguntando onde isso vai parar. Depois meus amigos dizem que eu tenho delírio de perseguição, que sou paranóico…
Britpop: o último fenômeno de massas no Reino Unido Agosto 6, 2009
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A festa nunca termina. E todos beberam desta garrafa...
por Fernando B. Cruz
Damon Albarn, do Blur (e também cérebro por trás dos Gorillaz e do The Good, The Bad and The Queen), é, para muitos, um desgraçado arrogante. É dele a frase, dita em meados dos anos 90: “se ser punk significava se livrar dos hippies, então estou me livrando do grunge”. Mas é como dizia Philippe Seabra: “arrogância é bom, desde que você tenha talento para bancá-la”. Caso de Albarn. Entre 1993 e 1994, Damon ligou as engrenagens que permitiram a entrada em cena de bandas que iriam renovar a estética combalida da música britânica. E isso só se faz com talento. Surgia o Britpop, expressão cunhada pela imprensa britânica e que passou a ser repetida exaustivamente pelos tablóides da ilha e mundo afora.
Pois bem. Rebobinemos a fita. No início dos anos 90, após o desaparecimento dos Stone Roses e das loucuras dos Happy Mondays, a cena inglesa parecia perdida no meio da avalanche grunge de Nirvana e Pearl Jam, que dominava os quatro cantos do planeta, inclusive o Brasil. As bandas da época (Ride, My Bloody Valentine) olhavam para os sapatos e produziam excelente música de guitarras, mas, para o bem ou mal, não estabeleciam conexão com as massas. E ninguém tomava conhecimento do novo som que saía das salas de ensaio e pubs espalhados pela Grã-Bretanha.
O documentário Seven Ages of Rock ilustra bem a situação do rock britânico na época. Por volta de 1993, o Brit Wards, que premiava os destaques do cenário musical britânico, celebrava nomes como os de Annie Lennox, Rod Stewart e Phil Collins, não importando muito o fato de que alguns deles não lançavam nada de novo há anos. O espaço para novas bandas era nenhum. Por isso, o semanário New Musical Express, numa decisão arriscada (e que se mostraria acertada) lançou uma campanha para que o Suede, uma banda nova e obscura, se apresentasse no palco do Brits. Reza a lenda que o lobby, apoiado maciçamente pelos jovens leitores do semanário, fez tal efeito que, no fim, a organização do evento implorou pela presença da banda. A provocativa apresentação do grupo, que tocou a sinistra e explosiva Animal Nitrate, foi considerada por muitos o marco daquilo que estava por vir: uma leva de excitantes bandas novas empunhando guitarras estridentes e cantando sobre jovens e para jovens.
A panela de pressão underground estava fora de controle. Da noite para o dia, bandas desconhecidas tomaram de assalto as paradas de sucesso, disparando um processo que culminaria com a música indie derrubando medalhões da música das paradas e tomando as rédeas do mainstream, semelhante ao dos EUA anos antes. O sucesso abriu as portas para Suede e Blur, que vieram acompanhados de Oasis, Pulp, Supergrass, Ash e outros grupos. Live Forever, Girls and Boys e Alright, para ficar apenas em exemplos batidos, invadiram as salas de estar. Na sequência, veio a chamada segunda divisão, com Kula Shaker, Ocean Colour Scene, Menswear, Cast e muitos outros.
Mas nem tudo era festa. A despeito da qualidade inegável das primeiras bandas e de o “movimento” ser responsável pelo volta do orgulho de um “jeito de ser britânico” da juventude, o preço logo seria cobrado. Sem aviso prévio, como que para comprovar o que Damon havia dito, os americanos e seu grunge viraram inimigos mortais na ilha britânica. Todos estavam tomados pela nova febre que tornava, do nada, um grupelho fajuto como Menswear apto a vender mais do que o Nirvana ou se achar melhor do que qualquer grupo americano de qualidade. A campanha nacional orquestrada em parte pela imprensa para celebrar o orgulho britânico estava indo longe demais. A necessidade de rotular e colocar todos no mesmo saco como um produto de supermercado não tardaria a colocar tudo por água abaixo.
Supergrass: consistência e qualidade até os dias de hoje
Além de grupos farsescos conquistarem sua fatia no mercado, arrotando uma qualidade artística que não tinham, políticos também associavam sua imagem ao oba-oba do Cool Britannia, que de cool já não tinha muito. Não à toa, a ascensão de Tony Blair ao cargo de primeiro-ministro, em 1997, foi politicamente articulada com a disseminação da ideia de que o espírito inovador e jovem do britpop também estava presente nas ideias e no modelo de governo dos trabalhistas. Política e rock’n’roll? Algo parecia fora do eixo. E estava. O champanhe não tardaria a azedar. (O livro The Last Party, de John Harris, analisa com precisão o período ao contextualizar a ascensão dos trabalhistas e o super estrelato de Noel Gallagher, Damon Albarn, Brett Anderson e cia).
Em 1997, depois de alguns álbuns considerados clássicos e outros nem tanto, a festa chegava ao fim. O ano serviu de plataforma para o lançamento de discos sombrios e destoantes como Ok Computer, do Radiohead, Ladies and Gentlemen, We Are Floating in Space, do Spiritualized e Urban Hymns, do The Verve. Isso, somado ao fiasco de Be Here Now, o terceiro do Oasis, deixava um gosto de ressaca no ar. A imprensa ainda esperava por um sinal para entender que o doente, o britpop, na verdade já era um moribundo com o pé na cova. Mas a bomba já tinha sido detonada no começo do ano, justamente por Damon Albarn e sua patota como álbum Blur. A capa amarela trazia a foto do que parecia ser um paciente em cima de uma maca num hospital.
Ao flertar com o rock americano de Pavement e asseclas, o grupo deu o adeus definitivo ao britpop e à disputa pela supremacia das paradas, travada com o Oasis. Ironicamente, um dos singles do disco, Song 2 deu ao grupo um inédito primeiro lugar nas paradas americanas, sucesso que obviamente reverberou no Brasil, fiel seguidor do mercado da terra do tio Sam.
A imprensa percebeu a fria em que se metera e tratou de tirar o time de campo. O termo britpop passou a ser motivo de piada nos mesmos tablóides que um ou dois anos antes pautavam repórteres para saber até que horas Damon e Justine Frischmann (do Elastica) haviam enchido a cara em Camden Town. Com a mesma voracidade com que cunhou o termo e encheu os ouvidos de todos com o assunto, a mídia cuspiu os restos mortais da “cena” no prato de leitores pelos quatro cantos, incluídos aí os colunistas musicais brasileiros copiadores da “bíblia” New Musical Express. Ou seja, aí ficou fácil esquecer o que havia de qualidade no tal “movimento” e falar mal dos grupos e da cena se tornou o esporte da hora. Depois que todo mundo deu sua cheirada numa carreira de Alright e mamou nas tetas de Wonderwall, os moderninhos do post rock foram à forra.
E qual seria então a herança de uma cena que aglutinou talento, arrogância, boas melodias, cheiradores de pó profissionais e política? Bem, há um legado no mínimo interessante. Para começar, a década de 90 diferenciava-se de maneira brutal das cenas dos anos 70 e 80, que quase sempre negavam musicalmente a década anterior. Os grupos mais legais dos anos 90 conseguiram juntar estilos incompatíveis e, portanto, inaceitáveis, por exemplo, para os padrões da cena 80, como o punk e o rock sessentista, o glam e o pós punk, o folk e o dance. A improvável união de punk com anos 60, particularmente, foi o cerne de grandes composições escritas por pelo menos três grupos durante o período embrionário do britpop: Oasis, Blur e Supergrass.
O lirismo urbano do Blur invocava o estilo de crônica pop eternizado por Ray Davies (com suas observações sarcásticas sobre a pitoresca sociedade britânica) e aliava sonoridades sessentistas à crueza pós-punk (Pop Scene, Bank Holiday, Parklife). O talento dos rapazes abria espaço também para belas e assobiáveis melodias (End of a Century, To The End, This is a Low). Isso sem falar em gemas posteriores como Beetlebum e Look Inside America, canções com força suficiente para garantir ao Blur um lugar no panteão de ouro do rock inglês.

Capa de um dos livros de John Harris sobre o assunto. O orgulho nacional virou rapidamente motivo de piada
Já o Oasis conseguia, em apenas três minutos, associar a arrogância e a sujeira estridente dos Sex Pistols aos vocais arrastados de John Lennon na fase psicodélica dos Beatles (Supersonic, Rock’n’Roll Star, Cigarettes and Alcohol). Noel Gallagher também parecia lapidar uma capacidade ímpar para compor hinos instantâneos, canções beatlescas que jogariam o Oasis nas cercanias do rock de arena (Live Forever, Don’t Look Back in Anger, Champagne Supernova levaram o Oasis a bater recordes de público em estádios). Paul Weller, o padrinho mod da nova cena e ele mesmo protagonista, foi o primeiro a definir Don’t Look Back in Anger como um “clássico absoluto”, antes mesmo de sair o single.
O mesmo Weller, que em 1995 lançou o excelente Stanley Road (tema de futuro post neste espaço) também aprovou o som feito por um trio de Oxford, Supergrass. Segundo o mod father, o grupo tinha bom gosto para compor e os integrantes sabiam tocar seus instrumentos, o que era um luxo naqueles tempos de boy bands. O Supergrass tinha a energia juvenil de um Buzzcooks, riffs de guitarra stonianos e um pé no no glam de Marc Bolan e seu T.Rex (Caught By The Fuzz, Lenny, Mansize Rooster). Não demorou para ganharem as paradas mundiais com a eletrizante Alright.
Glam esse que também serviria de inspiração para a sonoridade do Suede. As letras de Brett Anderson enchiam de brilho e melancolia os decadentes subúrbios londrinos, embaladas nos riffs de guitarra de Bernard Buttler (So Young, Animal Nitrate, Metal Mickey).
Tudo isso, no entanto, não serviria para explicar por si só o fenômeno de massas que foi o Britpop. Sob o aspecto musical, é sempre curioso observar como esses grupos absorveram e se apropriaram tão bem de estilos tão díspares. Do ponto de vista social, entretanto, a chave está no fato de que estes artistas cantaram sua tribo, como pregava o escritor russo Maxim Gorky. Ou seja, captaram os anseios e a urgência dos jovens da época e os transformaram, com uma qualidade autoral às vezes beirando o excepcional, na trilha sonora de toda uma nação. E isso não é pouco.
13 músicas
1- Blur – Blue Jeans
2- Oasis – Masterplan
3- Suede – My Dark Star
4- Supergrass – Mansize Rooster
5- Ocean Colour Scene – Riverboat Song
6- Ash – A Life Less Ordinary
7- Pulp – Disco 2000
8- The Verve – History
9- Elastica – Vaseline
10- Cornershop – People Power
11- Paul Weller _ Changing Man
12- The Charlatans – Just When Your Thinking Things Over
13- Kula Shaker – Hey Dude
Juventude transviada: reminiscências de Vitinho das Neves – parte I Julho 29, 2009
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Vitinho das Neves: mais do que um rostinho bonito, um incansável ativista
Há alguns anos, recebi o telefonema de um grande amigo, Vital das Neves, o velho boa praça e pau-de-cachaça Vitinho. Estava de férias em Brasília. Vitinho vinha se queixando de stress, sentia-se angustiado por não conseguir aglutinar, no conservatório onde era professor, na Índia, os alunos em torno do conteúdo de seu curso de História e Teoria do Mau Humor Francês. Parecia não haver interesse dos indianos pelo assunto e ele não conseguia compreender porque aqueles seres espiritualmente refinados preferiam discutir em classe o peso cultural da traseira de Scarlett Johansson a estudar o valor filosófico de um francês soltando os cachorros em algum desavisado na fila do pão. Além disso, desenvolveram certa resistência aos assuntos da política, outra paixão de Vitinho. “Esses indianos…”, pensava. No fundo, ele temia uma desistência em massa.
Também sentia falta da época divertida em que atirava suas bolinhas de gude nos transeuntes de Nova Délhi e de seus viscerais discursos pela libertação de Nelson Mandela. Vitinho era um orador apaixonado. Seu último grande discurso, no tocante ao líder sul-africano, data de 2005. “Soltem o homem! E vamos logo com isso!!!”, bradava, num articulado e destemido tom revolucionário, para quem estivesse passando.
Contudo, depois desse período seminal, o máximo que conseguiu balbuciar em praça pública foram algumas palavras sobre o insuperável legado de Mussum na política brasileira, apesar de sua avaliação de que sempre haveria resistência a um pensamento tão progressista. Por isso, foi um choque para Vitinho quando descobriu que parlamentares tucanos vinham lendo seus ensaios sobre o rei do mé e preparavam, em segredo, uma investida para a campanha presidencial de 2006, inspirada neles.
“Crioulo é a tua véia” e “Eu vou me pirulitar”, dois estudos redigidos por Vitinho sobre as ideias de Mussum, foram, na verdade, a base do programa de governo do PSDB na campanha daquele ano. Não logrou êxito mas, aparentemente, também não foi descartado. Rumores dão conta de que o governador José Serra pretende fundir o modelo de desenvolvimento contido em “Eu vou me pirulitar” com o mais recente, “Cacildis”, para criar um programa inteiramente novo e virar o jogo em 2010, a despeito da torcida contra de lulistas invejosos.

Como Celso Furtado, este homem enxergava o Brasil profundo. Suas ideias são viáveis? Vitinho acredita que sim. Graças a seus estudos sobre o pensador Mussum, um modelo de desenvolvimento socialmente avançado foi apropriado pelo tucanato
Apesar de toda a luta e ativismo da política, aliados à vida acadêmica, Vitinho estava desencantado. Portanto, o que importava naquele momento era estar com a família na velha Brasólia, como era chamada a capital por nosso amigo carioca, o biruta profissional Amaretto. Assim, depois de sua ligação, o terreno estava pronto para mais uma noite regada a cerveja, amendoins, flatulências com aroma de ovo e boas, boas risadas. Iria recarregar suas energias. Marcamos no bar Rock’n’Roll, um pé-sujo que agregava a nata dos maiores desocupados de Brasília (hoje, tristemente, desativado). Percebi, no entanto, que as flatulências sairiam mais facilmente do que as risadas.
“E aí, Vitinho, quais as novas?”, perguntei. “Soube que você anda meio desanimado na Índia. Que é isso, rapaz? Levante essa bola!” Ele riu, com a bola, de fato, meio murcha. Aí falou um pouco de sua vida por lá e contou uma ou outra história sobre as novas pesquisas no campo da alta costura. Ele não parava. “A melhor maneira de consertar o mundo é manualmente”, disse, olhando fixamente para mim.
Antes que eu pudesse emitir algum som, eis que surge, da carcomida tela de um televisor, pendurado na parede do bar e amarrado às entranhas de um pré-histórico vídeo cassete, os acordes de Crazy Little Thing Called Love, do Queen. Vitinho deixou escapar um sorriso no canto da boca, enquanto assistia aquelas desgastadas imagens que, de tão borradas, me davam a convicção de que quem segurava o microfone era Saddam Hussein. “Que foi, Vitinho?” Ele agora tinha um olhar enigmático. “Grande música!” “Sim, é mesmo”, concordei, querendo saber o que estava por trás daquilo.
“Isso não está passando aqui à toa”, disse, arregalando os olhos. “Você sabia que Freddie Mercury era indiano?”, perguntou, agarrando meus pulsos com força. “Calma, rapaz. Não, não sabia desse fato impressionante”, respondi. “Quando Bob Geldof chamou o Queen para tocar no Live Aid (famoso festival que arrecadou milhões de jujubas e caixas de valium para Brian Wilson, em 1985), Freddie resistiu muito à ideia de ser associado à política (postura comum até hoje no meio musical, especialmente no atual rock de Brasília)”.
“Não sabia. Mas e daí?”, perguntei. “Como assim e daí, molóide? Freddie carregava a apatia no sangue. Pense no Maharishi. O mais próximo que chegou do ativismo político foi quando tentou, sem êxito, é verdade, faturar a irmã de Mia Farrow, Prudence. Ou Ravi Shankar: era dele aquela cítara enfiada goela abaixo de Paul McCartney pelo chapa George durante as sessões de Let It Be. Mas tirando isso…”
“Mas e o Gandhi?”, interrompi. “Ah, esse era um animal”, respondeu Vitinho. “O que??? O que é isso, Vitinho?” “Um animal político, você não me deixou completar. E veja onde aquele pacifismo e a Satyagraha (a busca pela verdade), o levaram… Tomou uma azeitona na orelha, e à queima roupa (Nota do moderador: cuidado ao pronunciar ou escrever essa palavra – mesmo com ‘y’ – na internet: você pode ser a próxima vítima do Estado policial. O toque é de Gilmar Mendes, injustiçado e beiçola quando provocado).

Em família. Da esquerda para a direita: dona Eloá, seu Di Paula, Vitinho das Neves e a irmã Lavínia. Embaixo, o irmão Flavinho Ferreira ensaia uma coreografia (no centro), ladeado pelo autor e outra coleguinha de hospício
Não respondi. As coisas pareciam não fazer sentido, mas preferi não tecer comentários. Ponderei se Vitinho não estaria perto de um colapso nervoso, uma vez que ainda estava no primeiro copo de cerveja e não dizia coisa com coisa. Perto dele, naquele instante, eu e o irmão, Flavinho Ferreira, éramos o próprio espírito do bom senso, a balança da justiça, a expressão viva do equilíbrio, para usar as palavras de sua bela irmã, Lavínia.
Sem entender patavinas do que estava acontecendo, perguntei assim mesmo: “o que você pretende fazer, Vitinho?” “Só um homem é capaz de me ajudar”, respondeu. “Quem?”, quis saber. “Doc Brown?” Ele ficou impaciente. “Ora, que pergunta. É claro que estou falando de Mussum. Quero revisar e publicar tudo que eu escrevi dele, inclusive o inédito “Quero morrer pretis se eu estiver mentindo”. Acredito que poderei tranformar as bases das articulações políticas, tanto na Índia quanto no Brasil. Inclusive no que diz respeito à libertação de Madiba (Mandela para os chegados). Mas, antes, preciso desvincular meus estudos e a imagem dele daqueles tucanos larápios. Seu legado político não merecia esse aviltamento”. Tomei um susto. “É, Vitinho, até que a sua loucura ainda transpira alguma sanidade…”, pensei, olhando para meus velhos sapatos. Seu Di Paula já tinha motivos para se orgulhar do filho ensaísta.
Nota do moderador: por motivos de viagem e de doença (alô, influenza), este texto, iniciado por João Lêndea na semana passada, só pôde ser disponibilizado hoje, 29 de julho. Trata-se do aniversário de 15 anos da morte do inesquecível Mussum. Uma inacreditável coincidência ou um golpe do destino? … Não sabemos. A ele, nossa humilde homenagem.
Globo News: canal sugere que novo presidente da UNE é gagá! Julho 22, 2009
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Segundo a Globo News, a UNE carregava as bandeiras do povo brasileiro. E a emissora?
Não dá mesmo para ficar sonolento quando assisto ao canal Globo News. O canal não pára de surpreender com os espasmos de cretinice aguda jorrados diariamente no programa Estúdio I. Desta vez, o show nem ficou por conta das usuais intervenções da notável pensadora e cientista política Lúcia Hippolito, que sempre me fazem pular da poltrona de tanta exaltação. Ela foi coadjuvante.
No programa de ontem (21/07), um dos focos de “análise” do time de descolados da emissora foi a UNE, União Nacional dos Estudantes. O apresentador Eduardo Grillo informou em tom solene que o novo presidente da entidade, Augusto Chagas, é, do alto de seus 27 anos, um “estudante profissional” e que não liga de ser chamado assim nem “para o fato de a entidade receber recursos do governo Lula”. Grillo não se conteve e deixou escorrer o veneno. Com a foto de Augusto com os dois polegares para cima, ouvimos sua voz em off : “Este é Augusto Chagas, esbanjando juventude em seus 27 anos”. A legenda me deixou mais atônito ainda: “NOVO PRESIDENTE, MAS NEM TANTO – UNE elege “estudante profissional”. (Espere aí. Ele é velho? Existe idade certa para ser estudante? Pensei no quanto observar “profissionalismo” deste nível é edificante, ainda mais em tempos desse novo jornalismo sem diploma e sem vergonha…)
Corte para uma foto da bandeira da UNE. “E esta é a UNE. Mais de 70 anos. Carregando as principais bandeiras do povo brasileiro”. É mesmo? Provavelmente. Mas fiquei meio “grilado” (desculpe o trocadilho, jornalista e apresentador Eduardo) e não consegui evitar algumas perguntas aos meus espantados botões (como diria Mino Carta): Seriam essas bandeiras as da liberdade de expressão e de imprensa ignoradas pela Globo nos anos de chumbo? Seriam as bandeiras dos que levantaram a voz contra um governo assassino e torturador, mas que a Globo convenientemente silenciou na hora de reportar os fatos em troca de benesses e concessões televisivas? Ou seriam as bandeiras de uma imprensa justa e imparcial, as mesmas que evaporaram no jornalismo da emissora quando o povo tomou as ruas do país em 1984, exigindo as Diretas? Talvez fossem ainda as bandeiras do amadurecimento do processo de transição democrática, esquecidas pela Globo quando da edição das imagens do debate presidencial de 1989, fator decisivo para a eleição do “caçador de marajás” Fernando Collor. Fiquei na dúvida.
Grillo apontou o fato de que as imagens de arquivo mostram os estudantes sofrendo violência policial. E disse que a UNE sobreviveu à Era Vargas, aos prédios incendiados e aos estudantes mortos nos anos de chumbo. Ressaltou também que a entidade entrou na Nova República “sem se distanciar do seu papel crítico” e lembrou os protestos dos caras-pintadas, exigindo o impeachment de Collor, aquele apoiado pela emissora em 1989. E disparou: “O presidente Lula parece que não se lembra. Afinal, não vê muito problema em abraçar e elogiar o antigo rival. E Augusto Chaves, por sua vez, não vê problema em não só apoiar como em receber dinheiro do governo Lula. Como diria Caetano Veloso, alguma coisa está fora de ordem…”
O que está fora de ordem é o jornalismo praticado pela emissora. Rasteiro, tacanho, preconceituoso, parcial e mal-intencionado. Comprometido com interesses políticos muito distantes da prática do ofício. Falando claro: comprometido com a eleição de José Serra em 2010, mesmo com os sinais cada vez mais fortes de que a candidatura do tucano pode naufragar.
Para fechar, vamos ao comentário feito pela ‘cientista política’ Lúcia Hippolito, logo após o Grillo Falante ter se pronunciado: “No meu tempo a gente apanhava da polícia”. Como assim? Uma entidade que representa estudantes tem de sofrer repressão para ter legitimidade? E prosseguiu: “Em 70 anos de história, é a primeira vez que um presidente da República vai a um congresso da UNE”. E isso é ilegal? Arbitrário? Uma entidade de estudantes não pode apoiar governo nenhum? Se a UNE elegesse um presidente da República do PCdoB deveria instantaneamente deixar de apoiar o infeliz depois das eleições? Novamente, indago aos meus botões, que chacoalham de um lado para outro mas parecem não encontrar uma resposta. Com certeza, Lúcia Hippolito a tem.
De Volta Para o Futuro! Julho 17, 2009
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A incrível história dos Aerovons e do disco ‘Resurrection’, gema perdida no tempo
* por Fernando B. Cruz

Capa do disco Resurrection, dos Aerovons
Como tantos adolescentes americanos naqueles últimos anos da década de 60, Tom Hartman era um ‘beatlemaníaco’ convicto. Os Aerovons, banda liderada pelo moleque de 17 anos, tocavam as canções do quarteto britânico com uma maestria invejada por muitos veteranos. Apresentavam-se com relativo sucesso em festinhas e pequenos clubes de Saint Louis, Missouri. Uma rotina não muito promissora seguida à risca pelas bandas locais. Mas isso estava perto de mudar.
Sonhando com o dia em que sentiria de perto o gosto da ‘swinging London’ dos heróis Lennon e McCartney, Hartman sentou-se ao piano e compôs World of You, uma balada ‘beatle’ incrivelmente refinada e de um apurado senso pop para alguém tão jovem. Com a demo da canção nas mãos, a mãe de Hartman (cujos dois irmãos, Billy e Mike, também tocavam no grupo), conseguiu despertar o interesse da Capitol, representante americana da EMI. A ponto de a gravadora imediatamente oferecer seus estúdios na Califórnia para o grupo gravar. A reação do garoto causou surpresa: “Não, não queremos soar como os Beach Boys. Queremos ir para Abbey Road”.
Mais surpreso ficou Hartman, que não podia acreditar no que estava acontecendo. A EMI não só concordou em mandar os Aerovons para Londres como colocou o grupo em contato direto com Roy Featherstone, representante dos Beatles na gravadora. Resultado: em setembro de 1968, o quarteto partiu para a Inglaterra. Pronta para capitalizar em cima de seus garotos, a mãe-empresária marcou um encontro com a Decca, famoso selo que rejeitou os Beatles anos antes. Ao ouvir World of You, o executivo Dick Rowe foi direto: “bem, não vamos cometer o mesmo erro duas vezes”.
Sabendo do interesse da Decca, a EMI tratou de fechar logo com o grupo. No mesmo dia, um incrédulo Tom Hartman foi levado ao clube The Speakeasy (um dos lugares mais badalados pelos artistas britânicos na época), onde conheceu Paul McCartney. Aquilo era mais do que um sonho. “Foi o momento mais incrível da minha vida até então”, revelou o músico ao jornal britânico ‘The Guardian’.
Em março de 69, os Aerovons voltaram a Londres para as gravações do que viria a ser o álbum Resurrection. Hartman mostrou que era mais do apenas um bom músico fanático pelos Beatles. Além de compor boa parte do repertório do álbum ali mesmo no estúdio, o guitarrista-pianista ainda produziu quase todo o disco (que também teve o dedo de Norman Smith, engenheiro de som dos Beatles, morto ano passado), elaborando intrincados arranjos de cordas e orquestrações para suas delicadas canções (veja abaixo texto sobre o disco). Claro que uma ajuda extra sempre era bem-vinda. Os Beatles estavam em meio às sessões de Abbey Road e, segundo o menino-prodígio, eram muito solícitos: “Se tivéssemos alguma dúvida sobre algum timbre ou sonoridade, podíamos perguntar a George Harrison”.
E ainda havia tempo para recreação. Sempre que podia, Hartman dava um jeito de fuçar o equipamento de seus ídolos. Um dia, sozinho no lendário estúdio 2, encontrou o acordeão utilizado nas sessões de gravação de We Can Work It Out. “Toquei a parte do acordeão na canção e levei um susto, porque parecia que o disco estava sendo tocado de verdade”, escreveu Hartman em seu diário. “Era desconcertante, aquela era a sala de onde saiu tudo aquilo”.
Outra vantagem era poder desfrutar do privilégio de ver clássicos sendo gravados na sala ao lado. Os Aerovons puderam assistir às gravações de Yer Blues e Sexy Sadie (ainda em 68) e ouviram em primeira mão versões não mixadas de Across The Universe e Oh Darling. Um choque para Hartman, que imediatamente compôs Resurrection e Say Georgia, músicas completamente influenciadas pelas duas canções de Lennon e McCartney, respectivamente.

Problemas para gravar? peça uma ajudinha a estes jovens no estúdio ao lado
Com o disco em andamento, a EMI apostava mais e mais fichas na banda. O orçamento de Resurrection chegou a 35 mil libras, um número impressionante (Sgt Peppers custou 50 mil libras) para os padrões da época. “Os rumores na gravadora eram de que os garotos eram ótimos e que eles seriam os próximos Beatles”, contou o engenheiro de gravação Alan Parsons à imprensa britânica. “Todos na EMI estavam muito certos disso”, afirmou ele, que trabalhou com os Beatles e com os próprios Aerovons. Infelizmente, todos estavam errados.
Enciumado pela liderança natural de Hartman sobre o grupo, o guitarrista Pete Edholm foi mandado de volta a Saint Louis pela gravadora. Para piorar, o baterista Mike Lombardo entrou em depressão profunda ao descobrir que estava sendo traído pela mulher. Como por feitiço, os Aerovons desmoronaram diante de Hartman, num atropelo semelhante ao do grupo Wonders, no filme de Tom Hanks.
Ao perceber que o grupo não teria condições de sobreviver ao lançamento do disco, a EMI decidiu engavetar o projeto. Apenas dois singles haviam sido lançados. Por alguma razão inexplicável, Resurrection passou décadas congelado para, ironicamente (como sugere o título), voltar a vida em 2003. O álbum saiu na Inglaterra pelo selo RPM. Uma injustiça tardiamente reparada. Tom Hartman, hoje com 58 anos, jamais teve a chance de montar outro grupo e desenvolver a sonoridade registrada em Resurrection, uma gema perdida no tempo.
Resurrection: uma coleção de belas canções

The Aerovons
É natural que bons compositores comecem imitando os seus ídolos na criação de suas primeiras canções. E é mais natural ainda que essas músicas não sejam lá grande coisa, se comparadas ao material produzido em alguns anos de ofício. Basta ver o que os adolescentes Paul e John compuseram antes de se tornarem os senhores absolutos do pop mundial: Hello Little Girl (Lennon) e Like Dreamers Do (McCartney), uma musica da qual o baixista dos Beatles diz sentir uma certa “vergonha”. Por isso, chega a ser espantoso que Tom Hartman, aos 17, tenha escrito um punhado de canções que demonstram uma maturidade inacreditável, mesmo com a evidente influência ‘beatle’.
Resurrection, disco produzido (pasmem!) pelo próprio Hartman, traz doze faixas e mais quatro bônus, incluindo a demo de World of You, a emocionante balada que rendeu o contrato de gravação ao grupo. Com um belo arranjo de cordas e piano, World Of You mostra onde o grupo poderia ter chegado se não tivesse acabado. Os Aerovons, em sua quase ingênua busca pelo som do quarteto de Liverpool, nos oferecem, acima de tudo, qualidade.
O grupo brinda o ouvinte com preciosidades como With Her, que, assim como The Years lembra a fase acústica de A Hard Day’s Night, a nostálgica e melancólica Words From a Song, além de She’s Not There, Quotes and Photos e Everything Is Alright. Os únicos escorregões (se é que se pode dizer isso de um pequeno gênio que não podia conter a satisfação de ouvir músicas ainda inéditas de seus ídolos), ficam por conta da faixa-título, parente de Across The Universe e Say Georgia, quase uma nova versão de Oh Darling.
Bobagem. O que Resurrection revela é uma banda que se comprometeu a escrever grandes canções num curtíssimo período de existência. Não tivessem passado pelo infortúnio não-merecido, os Aerovons poderiam figurar hoje entre bandas clássicas como Hollies ou Byrds . E esse texto seria completamente desnecessário.
Ouça: World of You
Ouça: Quotes and Photos
* O texto foi escrito originalmente para a revista eletrônica Senhor F. Agradeço a Cristovão “Ocean” por ter esquecido comigo, há alguns anos, o disco dos Aerovons que lhe dei de presente. Sem ele, não haveria áudio para este post. Gracias, Cristóvão!
Os filhos de John Lennon Julho 13, 2009
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por Fernando B. Cruz

capa da biografia de John Lennon
“Não confunda minhas músicas com a sua vida. Sou só um cara que escreve canções”. As duas frases acima foram ditas por John Lennon e podem ser vistas no documentário Imagine, de 1988. Ao minimizar com a habitual franqueza a importância da própria obra para um fã que rondava a sua casa, no início dos anos 70 (à época das sessões de gravação do álbum homônimo), Lennon não tinha ideia de como suas músicas ainda afetariam não apenas uma legião de fãs, mas gerações de compositores, décadas depois de sua morte. Ironicamente, muitos destes compositores talvez nem percebam a dimensão da, digamos, “interferência” do ex-beatle no modo como eles e muitos outros escrevem música. Acabo de ler um livro que ajuda a lançar alguma luz sobre o assunto, a biografia John Lennon, A Vida, lançada recentemente no Brasil.
Como toda boa biografia deve ser, o livro, um calhamaço de mais de 800 páginas, escrito pelo inglês Philip Norman e editado pela Companhia das Letras, não apenas é o mais completo relato da vida de Lennon, como também dimensiona e humaniza, com habilidade, o artista por trás da mundialmente aclamada figura pública. Além de pontos obscuros ou pouco conhecidos da vida do músico, como a infância, a relação com a mãe e a história de peças-chave praticamente desconhecidas, como o pai, Freddie Lennon, o livro nos apresenta um John Lennon muito mais vulnerável do que muitos fãs poderiam imaginar.
Que ele era um sujeito controverso não é novidade para ninguém. Mas é intrigante observar a exposição da vida de alguém que alternava espírito de liderança, dentro e fora dos Beatles, e uma abundante produção de canções geniais com, por exemplo, pânico de subir no palco e uma vergonha colossal da própria voz. O desgosto com o seu timbre de voz era tão grande que Lennon sentia-se constrangido em ouvir a versão dos Beatles para Twist and Shout. Considerava sua interpretação, que imortalizou a canção e alterou os rumos da história do rock, pobre.
Há várias outras pequenas histórias, como as do período que se convencionou chamar de Lost Weekend. Naquela época, em meados da década de 70, entre uma bebedeira e outra, John Lennon costumava visitar a amiga e diretora da gravadora Rocket, de Elton John, Sharon Lawrence. No livro, ela se recorda das conversas travadas pelos dois. Sentado no sofá do escritório dela, Lennon costumava perguntar: “Você acha que ainda consigo gravar um disco que seja um sucesso?” “Às vezes (ele) me espantava com a falta de confiança que tinha em si mesmo”, relata. Para alguém que havia conquistado o planeta e reafirmado sua supremacia por meio de cada disco lançado pelos Beatles depois de 1964, uma revelação como essa não deixa de causar espanto.

E o que isso tem a ver com o primeiro parágrafo deste texto? Bem, tudo. Simplesmente porque boa parte da obra da maioria dos compositores que admiro se relaciona, em alguma medida, com a expressão artística da insegurança pessoal. E, sem dúvida, John Lennon foi um verdadeiro mestre ao fazer de seus temores e incertezas um veículo para fazer arte. Sean Lennon, filho de John e também músico, surpreende ao fazer uma das mais profundas análises da obra do pai sob esse ponto de vista.
Segundo Sean, a insegurança pessoal de John “foi uma desvantagem que ele usou a seu favor. Ele inventou um jeito inseguro de fazer canções – “Sou um perdedor e não sou o que pareço ser (I’m a Loser) ou Help”, avalia, na entrevista concedida a Philip Norman para o livro. “Ele (Lennon) dizia que Bob Dylan o ensinou a escrever na primeira pessoa sobre sua vida real, mas Dylan nunca escreveu uma cancão que revelasse suas emoções daquele jeito. Dylan sempre observa as emoções das outras pessoas. É como se fosse um jornalista – não está dizendo que é bom ou mau – mas apenas articulando algo que está no ar e botando no papel”.
E arremata: “o modo como um homem se sentia inseguro e se questionava do jeito que meu pai o fazia em suas canções é um fenômeno pós-moderno. Artistas como Mozart ou Picasso nunca o fizeram; é algo que só aconteceu a partir da Segunda Guerra. E isso é algo que lhe pertence, aquele sentimento de insegurança que tantos outros compositores de canções desde então vêm tentando copiar. Ele inventou isso”.
Ele está certo. Quando Lennon abandonou os Beatles, não deixou para trás apenas os yeah yeah yahs, a psicodelia e as experimentações de estúdio. Ele mergulhou fundo em si mesmo para lidar com recalques e traumas de uma vida atormentada. E, em certa medida, com sua insegurança. O resultado foi Plastic Ono Band, um petardo de 11 canções cruas e dolorosas, verdadeiras fraturas expostas, responsáveis pela inauguração de um novo período na história do rock.

Plastic Ono Band: disco fundamental dos anos 70
Sempre me pareceu inacreditável que músicas aparentemente tão simples e tocadas de maneira tão despojada pudessem ter tanta força, como atestam as viscerais Mother, Isolation e Working Class Hero, para ficar apenas em três exemplos (o documentário Plastic Ono Band, da série de DVDs Classic Albums, traz os bastidores da gravação do disco, com depoimentos de músicos como Klaus Voormann e engenheiros de som. Vale conferir).
Desde então, descendentes diretos dessa linhagem lennoniana de fazer canções apareceram aos montes, artistas que sintonizaram no canal de suas canções sentimentos de inadequação, dúvida e insegurança sem, no entanto, resvalar para o sentimentalismo pueril. Claro, alguns em maior ou menor grau, com mais ou (muito) menos talento. Mas isso é outra história.
Globo News volta a presentear telespectador! Julho 7, 2009
Posted by joaolendea in Uncategorized.Tags: cobertura Globo News, despedida, Michael Jackson
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Comentário de Sandra de Sá, na cobertura da cerimônia de despedida de Michael Jackson, logo após perfomance de Stevie Wonder: “Você olha e percebe que essa não é uma tristeza infeliz!” Mais um feliz comentário perpetuado por dona de Sá… Descanse em paz, Michael, se conseguir…

Michael Jackson: Conseguirá ele descansar em paz?
Até TVs a cabo concluem: o mundo é dos néscios! Julho 1, 2009
Posted by joaolendea in Uncategorized.Tags: brasília, cinema, gilmar mendes, idiotas, trânsito, woody allen
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“voche non fiu este jaqueto no cadeira?” O simpático senhor acima acompanhou o autor ao cinema
Estatisticamente falando, não há para onde correr: o mundo é habitado, em esmagadora maioria, por idiotas. Simples assim. De vários tipos e em níveis alarmantes de imbecilidade. E, infelizmente, sou um deles. Adepto declarado do empirismo clássico, já comprovei. Todo mundo que se obriga a passar preciosos momentos da vida ao lado de cretinos irrecuperáveis, não pode ser mesmo muito mais do que um pobre imbecil. Mas não vamos tratar já de minhas fraquezas, sobretudo depois de eu ter sido agraciado com um boletim médico que me concedeu alta da casa de repouso.
Apenas para ficar em um exemplo, poderia aqui lembrar da tradicional política americana para demonstrar, matematicamente, minha teoria: um idiota foi eleito e reeleito presidente dos Estados Unidos por milhões de outros idiotas. Para comprovar minha tese, no entanto, sugiro que façamos como Gilmar Mendes, elegante ministro do STF e beiçola nas horas vagas: saiamos às ruas. É no fervilhante e caótico mundo urbano que encontraremos farto material para estudo.
Você, amado leitor, deve ser um otimista incorrigível, como já o fui. Mas abra os olhos e veja por si mesmo. Está no trânsito? Olhe para o lado esquerdo. Não importa o número de carros trafegando. Mesmo com apenas meia dúzia de veículos, sempre, sempre, haverá um solícito cidadão dirigindo a 40 km do lado esquerdo da via quando a velocidade média é de 60 km. São motoristas que, em geral, utilizam o espelho interno para retocar a maquiagem ou para se ver cantando clássicos do quilate de Encontrar Alguém, do Jota Quest, enquanto se imaginam encontrando essa alma caridosa. Mas faz sentido: Por qual motivo ele(a) deveria dirigir devagar à direita quando pode tornar o trânsito muito mais excitante fazendo isso na faixa da esquerda?
Outro rico local para observação de idiotia em estado bruto são as famosas ‘tesourinhas’ de Brasília, o “atalho” para chegar às superquadras. Observe um engarrafamento, cada vez mais comum até nas largas pistas da capital. Preste atenção aos carros que estão parados, esperando a vez para pegar a via principal. Olhe novamente e verá que não estão tão parados assim. Sempre, sempre haverá uma pessoa de intelecto singular colocando, com eficiência, o carro na frente do seu, que, ao menos em tese, teria a preferência. Por outro lado, na situação contrária, quando você está esperando para entrar na via, olhar e pedir educadamente a vez pode não ser o bastante: sempre haverá aqueles que irão acelerar nervosamente e colar na traseira do carro à frente para assegurar o merecido lugar que espertinhos e joões-sem-braço como você tentam, a todo custo, roubar.
Meus amigos do hospício costumavam repetir que nunca fui uma pessoa razoável. Que fiquei neurótico. De fato, todas as vezes que me lembrava das noites de diversão no cinema, a úlcera dava um chute no meu estômago, dando início a uma série de espasmos que duravam até a chegada de Djalmão, o segurança. Sim, minha neurose espantaria Woody Allen. Por um tempo, fui convencido de que minha implicância havia passado dos limites. Semana passada, constatei a dura realidade. O que passou mesmo do limite foi minha frágil sanidade, ao assistir, no cinema, o filme Intrigas de Estado. E, para aqueles que ainda insistem que néscios são um privilégio tupiniquim, vejam este emocionante relato:
Pouco antes do início da sessão, fui ao banheiro. Ao sair, esbarrei em um senhor. Para ser gentil, segurei a porta. O que não havia percebido ainda foi a expressão de contrariedade em seu rosto por, suspeitei, estar impedindo sua passagem aos mictórios. “Que impaciente”, pensei. “Será que fui mal compreendido?” Bingo. Já na sala, me acomodei. Minutos depois, entrou o senhor, que se dirigiu a uma poltrona duas fileiras atrás da minha. Parou na frente de um casal e logo deu uma bronca, caprichando no português: “voche non fiu esto jaqueto no cadeira?” “Vi, sim”, respondeu a moça. “Mas não pegamos o seu assento. Estamos sentados ao lado de onde estava o casaco. Este lugar é público, senhor”. “Son of a bitch!”, bradou o simpatia de volta, revelando a cidadania americana.
E onde o opulento mequetrefe resolveu se sentar? Claro, atrás deste pobre diabo. Para uma pessoa normal, isso não seria problema. Mas para mim, gato escaldado e acostumado a crises respiratórias no início de toda sessão, sempre por medo de algum boçal sentar na poltrona de trás, aquilo foi um presságio de que algo grandioso estava por vir. Premonição que se confirmaria, como veremos. Logo chegou uma senhora e sentou-se com ele, trazendo um balde descomunal de pipoca e balas. Ah, minha deliciosa noite de agonia estava apenas começando…
Não houve perda de tempo: logo nos primeiros cinco minutos de projeção, abriram o saco de balas, com o barulho percussivo do plástico furando meus tímpanos. Dali para frente, é seguro dizer que poucas vezes vivi emoções tão intensas numa sala de cinema. O barulho da pipoca mastigada, ressoando no meu crânio… Os pés gordos no sapato, se refestelando, ora no encosto da minha poltrona, ora no chão, dando pequenas sapateadas, sempre acompanhadas de uma gostosa gargalhada… As inspiradas e brilhantes opiniões sobre o filme, com oportunas intervenções sobre o estado do ator Russel Crowe, cuspidas no meu pescoço… Algo como “ele parece tão mais velho para a idade dele, não?” “Está acabado”. É, está mesmo. Mas vai estar menos do que você quando eu levantar dessa cadeira.
Antes fosse. “Sir, do you think it is possible for you to be quiet?” (“Senhor, poderia ficar quieto?”), pedi, no tom mais ameno que encontrei. “Get lost”, grunhiu (“sai fora” em bom português), me encarando. De fato, eu estava perdido. Faltava apenas uma hora e meia para o final da sessão mas já começava a me faltar o ar. Tomado pela emoção, levantei para uma investida mais eficiente quando senti o chão amolecer e a vista ficar turva. Enquanto cambaleava pela sala, ouvi o gringo, aos berros, exigir que eu saísse da frente: “Get out of the way, get out, stupid!!!” “Claro”, pensei. “Estou atrapalhando o filme dele!” Foi quando, gentilmente, perdi os sentidos. Acordei, ainda sedado, no hospital. A teoria fora comprovada mais uma vez, tendo a mim mesmo como objeto de estudo. Aquela sala tinha ficado pequena demais para dois idiotas de notável estirpe.
Nota do moderador: o autor mereceu a investida do americano. É uma criatura paranóica. Chegou um dia a confundir o próprio irmão, coincidentemente na mesma sala de cinema que ele, com um perigoso assediador da cidade. Quando abordado pelo desprevenido rapaz, quase partiu para as vias de fato.




